quarta-feira, 12 de junho de 2019

Ideologia e Razão de Estado nas páginas da Bíblia


Ideologia e Razão de Estado nas páginas da Bíblia
O texto a seguir é o Cap. VI de meu trabalho de Pós-Doutorado
                                                                 
A Razão de Estado pode ser verificada no conceito de Maquiavel de que ao príncipe não importa “incorrer na fama de ter certos defeitos, defeitos estes sem os quais dificilmente poderia salvar o governo, pois que, se considerar bem tudo, encontrar-se-ão coisas que parecem virtudes e que, se bem praticadas, lhe acarretariam a ruína, e outras que poderão parecer vícios e que, sendo seguidas, trazem a segurança e o bem-estar do governante”.[1]
E Napoleão, ao comentar a afirmação de Maquiavel de que “la grandeza de los crímenes borrará la vergüenza de haberlos cometido”, afirma: “Triunfad siempre, aunque sea por los peores medios, y siempre os darán la razón”.[2]
Há diversos textos bíblicos que demonstram interesses ideológicos, ardis e traições nas relações políticas, nalguns dos quais os autores, além de darem a sua leitura ou interpretação dos fatos, incluem também seus interesses ideológicos e políticos.
Isso nos leva a observar que, de acordo com várias narrativas bíblicas, essa forma de pensar e de agir já estava presente, tanto no nascente povo de Israel quanto em seus vizinhos. Esse tipo de pensamento parte de uma interpretação realista da História e da Política, e se orienta para evitar, no presente e no futuro, os erros do passado. E assim como a natureza tem suas leis, comparativamente, a ação humana, especialmente na área da Política, tem as suas, podendo-se ampliar o uso da expressão “essa é a natureza das coisas” para a área da Política.
Por isso, mesmo em Israel, quando se tratava da Política, chegou-se a prescindir de ideais morais consagrados, como o do amor ao próximo como a si mesmo, o qual já está presente no Livro do Levítico, no Antigo Testamento. E assim, mesmo entre os atores políticos do povo de Deus observa-se que, de acordo com diversas narrativas bíblicas, predomina o resultado em lugar dos ideais morais e o pensamento conduz-se de forma pragmática, isto é, a razão é instrumentalizada em função do resultado, e não seria exagero dizer que aquilo que é conhecido como Razão de Estado, mesmo antes desse conceito surgir na História da Política, já era colocado em prática, não só por Israel, mas também por outros povos, sejam seus vizinhos ou não, posto que faz parte da Política em geral. Por outro lado, isso é contraposto pela pregação dos profetas e por suas advertências aos reis de Israel e de Judá, de tal forma que, se por um lado, a violência de Israel contra os moradores de Canaã é justificada teologicamente, por outro lado, depois de Israel ter sido constituído como povo, seus reis, fossem do Reino do Norte (Israel), ou do Sul, eram advertidos pelos profetas devido à sua impiedade (diante de Deus) e à sua injustiça (diante dos cidadãos).
Em primeiro lugar, observamos nas narrativas do Antigo Testamento que era comum, entre os ministros, conselheiros e outros oficiais dos reis a adulação e a busca da aprovação de decretos visando interesses pessoais, o que é narrado tanto no Livro de Ester quanto no Livro de Daniel. No caso do Livro de Ester, o ministro Hamã paga uma alta quantia em tesouros de prata para que o rei Assuero aprove um decreto para a aniquilação dos judeus. Trata-se de um suborno, visando à matança dos judeus, o qual o rei aceita.
Quanto ao Livro de Daniel, nele narra-se a aprovação de um decreto de culto ao Rei Dario, decreto esse feito claramente com a finalidade de condenar à morte Daniel, que era o mais sábio conselheiro da corte. Sabendo que Daniel não deixaria de cultuar o Deus de Israel, seus adversários convenceram o rei a autorizar um decreto que dispunha que qualquer pessoa que fosse flagrada cultuando a outro “deus” seria condenada à morte, sendo lançada na cova dos leões. O caráter de adulação contido nessa proposta feita ao rei pelos opositores de Daniel era óbvio, porém foi aceito pelo envaidecido rei, que teve uma grande estátua levantada em sua homenagem, não só cívica, mas também religiosa. E quando Daniel foi condenado à morte o rei não podia mais voltar atrás, pois não era assim que se fazia entre os medos, e o próprio rei desejou a Daniel que o Deus de Israel o livrasse.
O conteúdo teológico dessa narrativa reforça o cumprimento do primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”, bem como incentiva o povo cativo a manter-se fiel à Aliança com o Deus de Israel.
            Em segundo lugar, observamos que também pelos reis de Israel era feito esse tipo de manipulação dos decretos em seu próprio favor. O próprio Salomão usou desse expediente, de forma ardilosa, para condenar a Simei, que havia ofendido a honra de seu pai, o rei Davi, ao praguejar contra ele. Já idoso, Davi incumbe a Salomão de vingá-lo, dizendo: “Não o tenhas por inculpável, pois és homem prudente e bem saberás o que lhe hás de fazer para que as suas cãs desçam à sepultura com sangue”. [3]
Nessas palavras de Davi: “bem saberás o que lhe hás de fazer” está clara a declaração de morte de Simei, por quem Davi havia jurado pelo Senhor que não o mataria. Então, foi um falso juramento, pois ele delegou a Salomão a morte de seu súdito.
Então Salomão proibiu a Simei de sair da cidade de Jerusalém sob pena de, no dia em que o fizesse, seria morto, por ter desobedecido a um decreto real. O homem, porém, ao cabo de três anos, tendo dois escravos foragidos, saiu em sua busca e, ao retornar, foi morto. E Salomão ainda argumentou que Simei não guardou o juramento do Senhor, nem a ordem que ele, o rei, lhe dera, justificando assim sua estratégia para manter a hegemonia.[4]
            Este Davi é o mesmo homem de quem Paulo disse, em pregação em Antioquia da Pisídia, que dele falara o Senhor: “Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade”. [5] E por isso ele é citado até hoje pela tradição cristã como o homem “segundo o coração de Deus”.
E Salomão, que foi exaltado nos textos do AT como o mais sábio de sua época, politicamente tratava a “sabedoria” de forma pragmática e astutamente. Cristo parece zombar dos textos laudatórios do AT sobre a sua glória, afirmando: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. E quanto à sua sabedoria disse: “E eis aqui está quem é maior do que Salomão”. [6]
            Outra narrativa bíblica que pode ser lida na perspectiva da Razão de Estado, e talvez até antecipando esse conceito, é aquela sobre Eúde, um do juízes de Israel, que para vencer os moabitas mentiu ao seu rei de duas formas. Primeiro, disse: “Tenho uma palavra secreta a dizer-te, ó rei”. A seguir, tendo sido recebido em audiência particular, disse: “Tenho a dizer-te uma palavra de Deus”. [7]
Porém, ele assassinou o rei com um golpe de punhal, e depois disso venceu os moabitas, levando Israel a ficar em paz por 80 anos. Essa suposta palavra de Deus, porém, era um ardil, ele agiu como falso profeta, e depois ainda disse aos filhos de Israel: “Segui-me, porque o Senhor entregou nas vossas mãos os vossos inimigos”. [8]
Se fizermos uma leitura dessas e de determinadas outras narrativas bíblicas sob a perspectiva da estratégia política e bélica, portanto, verificaremos que o conceito de Razão de Estado, que é usado a partir da Renascença, mas que já está presente na obra de Tácito Roma, na realidade já estava presente, na prática, na Política do Oriente Próximo, não só na opressão faraônica sobre os hebreus, mas também na própria estratégia de José, hebreu que levou todo o Egito a tornar-se escravo de Faraó, bem como, conforme vimos nos exemplos acima, na História de Israel e de outros povos. [9]
Concluamos essa breve abordagem da presença Razão de Estado em fatos narrados na Bíblia fazendo uma comparação entre um texto do AT e um do Evangelho.
Vejamos o caso de Moisés, narrado no Êxodo. Apesar dos elementos mitológicos e idealizados dessa narrativa, Moisés é reconhecido como um personagem verdadeiro da História. Por ter liderado por 40 anos um povo que não tinha território, Rousseau o considerou um grande líder da antiguidade, e Freud afirma que Moisés, por ter comandado 600 mil homens no deserto, era mais que um líder sacerdotal, podendo ser considerado como um General formado pelo Egito.
Em torno dele havia uma esperança de caráter religioso e político. Nesse caso, a religião era uma ameaça à hegemonia, e poderíamos constatar, como reação, um dos primeiros registros de uma Razão de Estado por parte do rei egípcio que reinou após a morte de José. Para livrar-se da ameaça de um futuro libertador hebreu, o rei ordenou que os meninos recém-nascidos fossem mortos. O texto afirma que “o rei do Egito ordenou às parteiras hebreias, dizendo: Quando servirdes de parteira às hebreias, examinai: se for filho, matai-o; mas se for filha, que viva”.[10]
As parteiras deveriam logo afogar a criança no Rio Nilo, caso fosse do sexo masculino. Porém, por temor a Deus, não obedeceram a essa ordem homicida, e logo o rei do Egito mudou sua estratégia, como diz o texto: “Então ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: a todos os filhos que nascerem aos hebreus lançareis no Nilo, mas a todas as filhas deixareis viver”.[11]
Dessa forma, a perseguição passaria a ser praticada pela própria população, não só pelas autoridades. Mas o menino Moisés adentra o palácio como filho adotivo de uma princesa, é educado como príncipe e posteriormente liberta seu povo de origem.    Em relação à perseguição ao futuro libertador, há semelhanças entre essa narrativa do Êxodo e a narrativa do Evangelho de Mateus sobre o nascimento de Cristo, que foi interpretado por Herodes como uma ameaça à sua hegemonia. De acordo com o Evangelho, o rei da Judéia, procurando eliminar a ameaça de um futuro rei dos judeus, “mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo”. [12] Aí também já se pode verificar o uso da Razão de Estado, a qual é tão contraditória e oportunista que admite que a autoridade civil se proclame como uma divindade ou um filho dos deuses e, ao mesmo tempo, mande assassinar crianças recém-nascidas.
Apesar da expressão “Razão de Estado” ser própria do século XVI, o conceito é aplicado a Nero na obra Quo Vadis?. Assim, o autor de obra tão conhecida na área de Literatura está, na realidade, falando de Política, criticando o Estado Romano e denunciando a submissão do pensamento a objetivos políticos, independente dos padrões morais, por exemplo, quando afirma que para César “os cristãos, posto que não tivessem incendiado Roma, deviam ser exterminados a bem da cidade”, e que “o massacre se justificava pela razão de Estado”.[13]
            A obra também atribui a Nero a afirmação de que “os atos de um homem podem ser cruéis, quando o homem não o é”.[14] E um dos mais leais servos de Nero, líder da Guarda Pretoriana, Tigellinus, teria dito: “Não existem razões em ordens imperiais”. [15]
            Quanto à sociedade grega, ela era, sem dúvida, pia, mas em alguns casos o sentimento religioso chegava à superstição e ao fanatismo, sendo também associado à política de forma dogmática. Plutarco afirma, no volume das Vidas Paralelas dedicado a Alexandre e César, que em seus dias finais, Alexandre, na Babilônia, tinha a seu serviço inúmeros sacerdotes, de diferentes religiões, possivelmente devido à consciência de sua violência e ao sentimento de culpa. Nesse contexto, o historiador afirma que o fanatismo é pior do que a falta da religião.
            Por outro lado, o dogmatismo na política e na religião pode ser verificado na condenação de Sócrates, que foi acusado de não venerar os deuses da cidade de Atenas. Essa ligação entre a cidade e os deuses chega ao extremo de o apóstolo Paulo, séculos mais tarde, ter sido levado ao Areópago sob a acusação de pregar estranhos deuses. O que os seus ouvintes, marcados pelo politeísmo, chamavam de estranhos deuses eram simplesmente Jesus e a Ressurreição.
            Causa estranheza o fato de estarem, entre aqueles que constrangeram Paulo a explicar a nova doutrina no Areópago, alguns filósofos:
“E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? e outros: Parece pregador de estranhos deuses, pois pregava a Jesus e a ressurreição. Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?”. [16]

            Dessa forma, o dogmatismo pode ser encontrado nos membros das próprias escolas filosóficas citadas, que participaram do constrangimento imposto a Paulo. Foi no Areópago, chamado “Monte de Marte”, um tribunal político e religioso, que muito tempo antes os juízes “acusaram a Sócrates e o condenaram por impiedade”. [17]
Apesar de Atenas ser uma cidade politeísta, pelo que expusemos, era também dogmática. O apóstolo Paulo reconhece que os atenienses eram religiosos, mas seu espírito se inquietava com a idolatria ali reinante. O centro cultural da Grécia “era uma das cidades mais idólatras de todo o império romano… Havia mais de 3.000 ídolos na cidade”. [18] No o I século da Era Cristã havia um provérbio popular que dizia: “Há mais deuses do que homens em Atenas”. [19] E de acordo com Pausânias, “havia mais ídolos em Atenas do que em toda a Grécia”. [20]
No Cap. XII do Leviatã Hobbes estabelece uma crítica do uso que as autoridades dos gentios fizeram do medo e da piedade dos povos, visando conter suas revoltas. Ele afirma que “os primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios” procuravam convencer o vulgo de que “os preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como provenientes de sua própria invenção, mas como os ditames de algum deus”, bem como levava-os a crer aquilo que era proibido por lei também  aos deuses.
E assim as próprias situações de desgraça e calamidade não eram atribuídas à autoridade civil, mas sim a algum descuido ou erro cometido em relação aos cultos, ou à própria desobediência às leis. Isso continha as rebeliões. Por isso, conclui Hobbes, “assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política”. [21]
Isso era muito comum em Roma, onde o próprio imperador se declarava divino e bastava ele ordenar e um novo culto poderia ser instituído. O próprio imperador era considerado, ideologicamente, como divino. Nero afirmava ser o sumo pontífice da deusa Vesta. Em Roma também se adoravam inúmeros deuses. Venerar os imperadores como deuses era o mesmo que considerar o Estado divino e, portanto, não precisava haver razões nas ordens e nas decisões imperiais.
Certamente a veneração de César como deus era feita por muitos por adulação, por medo ou por interesse, não por convicção. E ao mesmo tempo em que eles se declaravam sumos pontífices, eram, na realidade, pragmáticos, usando o sentimento religioso como forma de preservação e aumento do próprio domínio.
Nas palavras de Hobbes citadas abaixo observamos que em Roma todas as formas de culto eram aceitas, desde que não ameaçassem o poder civil:
“Os romanos, que tinham conquistado a maior parte do mundo então conhecido, não tinham escrúpulos em tolerar qualquer religião que fosse, mesmo na própria cidade de Roma, a não ser que nela houvesse alguma coisa incompatível com o governo civil”.[22]
Por isso, prossegue Hobbes, o monoteísmo judaico não era benquisto em Roma:
“Não há notícia de que lá alguma religião fosse proibida, a não ser a dos judeus, os quais (por serem o próprio Reino de Deus) consideravam ilegítimo reconhecer sujeição a qualquer rei mortal ou a qualquer Estado. E assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política”.[23]

Isso é registrado no próprio Novo Testamento, pois o Imperador Cláudio decretou que os judeus saíssem de Roma, conforme descreve Lucas:
“Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áqüila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma...”. [24]
                       
            Os judeus resistiram à ordem de Calígula de que no Templo de Jerusalém houvesse um busto seu para ser adorado e foram às armas. Também se sentiram ultrajados com o fato de Domiciano ter se intitulado “Senhor e Deus”, título com o qual assinava os documentos oficiais, e de ter exigido que o cultuassem. Também os cristãos se recusaram a obedecer a essa ordem e sofreram dura perseguição.
            Em todos os casos citados observamos que a soberania civil está acima de qualquer outro valor, seja moral ou religioso, não só nos Estados politeístas, mas isso veio a ocorrer também no próprio Israel.
Em Hobbes, no entanto, apesar do caráter absoluto da soberania, o que vem em primeiro lugar é o direito fundamental à vida, e o Estado tem como suprema finalidade a preservação da paz e a saúde do povo, pois como diz a Introdução do Leviatã: “Salus Populi é o seu objetivo”, o que frequentemente é olvidado através de estereótipos de um Hobbes da guerra de todos contra todos, do homem como lobo do homem, do Leviatã como figura que representa o Estado absoluto etc. E saber que Hobbes afirma que quando o Estado não for mais capaz de preservar a paz civil, não se lhe deverá mais obediência, pois foi para isso é que ele foi concebido.
É de se deduzir, portanto, que em seu pensamento, em lugar de uma defesa ideológica da Razão de Estado, o que predomina é a defesa da autoridade civil em prol da paz civil, não dos caprichos de um déspota como Nero, Calígula ou qualquer outro.
Hobbes afirma que os ensinamentos dos profetas, apóstolos e, posteriormente, do clero, serviam apenas como conselhos para a autoridade civil, confirmando, assim a soberania do Estado e admitindo a Razão de Estado.
            Os cristãos foram ensinados a obedecer à autoridade civil, por exemplo, por Cristo, que disse: “Dai, pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. [25]  E ainda por Paulo, em sua I carta, considerada autêntica pela Crítica, onde ele escreveu: “Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra”. [26] E ainda por Pedro, que escreveu: “Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei”. [27] Porém, quando se tratava de uma ordem civil contrária a um princípio de fé, os cristãos eram ensinados a obedecer em primeiro lugar a estes.
            Já no início de seu Evangelho, Mateus dá a entender que nascera um novo rei, ao escrever que os magos perguntavam: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?”. Essa pergunta era uma ameaça política que, de acordo com a narrativa, levou Herodes a se alarmar e a ordenar a morte de muitos meninos recém-nascidos. E o mesmo Evangelho se encerra com a afirmação, atribuída a Cristo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. [28] Essa última declaração, ainda que não fosse interpretada politicamente pelos cristãos servia-lhes de motivação para, no caso de ocorrer alguma contradição entre a sua fé e as ordens das autoridades civis, prevalecesse aquilo que se entendia ser relativo ao Reino de Deus, e assim muitos cristãos desobedeciam à autoridade, quer a religiosa, de Israel, quer a civil, de Roma. E a própria expressão “           Reino de Deus” é uma expressão com conteúdo político, a qual, porém, foi ideologizada pela Igreja, depois de sua passagem do carisma para a institucionalização.
            E também é claro que Lucas fazia também uma dura crítica à violência do Império Romano, ao escrever: “Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus, cujo sangue Pilatos misturava com os sacrifícios que os mesmos realizavam”. [29]
            E as mensagens de esperança dadas aos cristãos por Paulo, sem dúvida se referiam à perseguição judaica e romana. Ele chegou a escrever, referindo-se a isso, que nem a morte, nem os principados, nem os poderes poderiam separar os cristãos do amor de Deus. [30]
            Os romanos admiravam-se e até mesmo criticavam o fato dos cristãos não resistirem quando eram torturados e levados à morte, e alguns até os consideravam sem virtude. Porém os cristãos chegavam a crer, como Paulo escreveu que “o viver é Cristo e o morrer é lucro”. [31]Confessando, assim, a Cristo como Senhor, acima do Estado, eram vistos como desobedientes e como uma ameaça ao poder civil, e negando-se a venerar o imperador como divindade, poderiam, de acordo o que Hobbes viria a escrever tanto tempo depois, ser vistos como hereges e perturbadores da paz civil. Por isso, do ponto de vista da Razão de Estado, alguma coisa deveria ser feita, mas não necessariamente a perseguição e a condenação dos cristãos à morte, num espetáculo público, devorados por feras, como tanto se viu no Coliseu, lugar que dificilmente poderia ser considerado um ponto turístico em nossos dias, para quem não crê nessa Razão que justifica o derramamento de sangue dos discordantes. É que faltava a Roma a ideia de tolerância religiosa, de convívio com o diferente, e de separação entre o Poder Civil e a Religião, a qual, se efetivada, deveria manter, pela natureza das coisas, a soberania daquele, sem o que a paz civil seria impossível, desde que, como diz Hobbes, esse grande homem artificial cumprisse a sua missão, a de garantir nossa paz e defesa.
Porém, tanto tempo depois do declínio do Império Romano, a paz completa não veio, e se nos dias antigos o Estado perseguia aos cristãos, com o passar dos séculos a Igreja passou a perseguir e a matar os discordantes de seus dogmas, querendo ser um Estado dentro do Estado, provocando a desestabilização do poder civil e prejudicando a paz.
E foi nesse contexto que Hobbes escreveu Do Cidadão, Leviatã, Behemoth e a Narração Histórica sobre a Heresia e as Formas de seu Castigo, num contexto em que essa paz ainda não havia sido alcançada, e esse é o objetivo que serve de norte e de base ao seu pensamento político: a busca da paz civil.
A Razão de Estado dirá que o que importa são os resultados, então, por que não colocar a paz civil como o resultado maior?


























[1] Maquiavel, O Príncipe, Cap. XV, p. 64. Os Pensadores. 2. ed. S. Paulo: Abril, 1979.
[2]Apud Guillermo Fraile Historia de la Filosofía, Vol. III: Del Humanismo a la Ilustración, p. 303.
[3] I Rs 2:9
[4] O texto de I Rs 2:36-46 pode assim ser sintetizado: “Mandou o rei chamar a Simei e lhe disse: Edifica-te uma casa em Jerusalém, e habita aí, e daí não saias, nem para uma parte nem para outra. Porque há de ser que, no dia em que saíres, fica sabendo que serás morto. Ao cabo de três anos, porém, dois escravos de Simei fugiram para Aquis. Então, Simei foi em busca dos seus escravos. O rei deu ordem a Benaia, o qual saiu e arremeteu contra ele, de sorte que morreu”. (Bíblia: Almeida Revista e Atualizada).
[5] At 13:22
[6]Mt 6: 28-29 e 12:42
[7]Jz 3:19-20
[8]Jz 3:28. É difícil garantir que esse período de paz tenha sido de 80 anos, pois Espinosa demonstra que há informações contraditórias sobre a cronologia em vários textos do AT. De acordo com ele, apesar de I Reis 6: 1 afirmar: “No ano quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, Salomão, no ano quarto do seu reinado sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segundo), começou a edificar a Casa do Senhor”, no entanto, somando-se os anos das narrativas do Pentateuco, de Josué e Juízes “temos de concluir que foi um número de anos muito superior”. Pelo cálculo de Espinosa, na realidade, o templo começou a ser construído 100 anos depois do que diz o texto de I Reis. (Tratado Teológico-Político, Cap. IX, p. 158-160, S. Paulo, Martins Fontes, 2003).
[9] Durante a Renascença houve uma releitura das obras sobre a História de Roma e o termo “Razão de Estado” era usado em relação à ética realista adotada no Império Romano.
[10]Ex 1:15-16.
[11]Ex 1: 22.
[12]Mt 2:16
[13]Henryk Sienkiewicz, Quo Vadis? S. Paulo: Saraiva. 1949, p 257.
[14] Idem, p. 201 e 202.
[15] Fala do Filme homônimo, quando Petronius questiona a intenção de Nero de incendiar Roma pelo fogo e reconstruí-la, numa forma extrema de expressão artística.
[16] Atos 17:18s
[17]The Geneva StudyBible, 1599, Comentário sobre Atos 17. Disponível online: crosswalk.com.
[18]Myer Pearlman, Atos dos Apóstolos, 2. ed.,  O. S. Boyer (editor), Pindamonhangaba, 1980, p. 174.
[19]Idem.
[20]The Geneva Study Bible, op. cit, cf. nota supra.
[21]Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 70 e 71
[22]Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 70-71
[23] Idem, ibidem
[24] Atos dos Apóstolos: 18:1-2.
[25]Mt 22:21
[26]Rm 13:7
[27] I Pd2:17
[28]Mt 2:2 e 28: 18
[29]Lc 13:1
[30]Rm 8:38-39
[31] Fp 1:21

sábado, 4 de agosto de 2018

Relações entre Hermenêutica, Filosofia, Existência, Arte e Política


Relações entre Hermenêutica, Filosofia, Existência, Arte e Política
(Este texto é parte do Capítulo 3 de meu trabalho de pós-doutorado)
Quando publicou a obra intitulada Hermenêutica, em 1968, Richard Palmer afirmou que o termo Hermenêutica era “desconhecido da maior parte das pessoas cultas e ao mesmo tempo potencialmente significativo para uma série de disciplinas relacionadas com a interpretação, especialmente com a interpretação de textos”. [1]
A Hermenêutica, ao mesmo tempo, afirma Palmer, diz respeito a outras áreas da significação, bem como à existência humana, especialmente na abordagem fenomenológica do homem. Nesse sentido, na obra Aus einem Gespräch von der Sprache, “Martin Heidegger discute o caráter persistentemente hermenêutico do seu próprio pensamento, no que respeita tanto ao primeiro quanto ao último Heidegger. A própria Filosofia, afirma Heidegger, é (ou deveria ser) hermenêutica”. [2]
A exigência de que a Filosofia tenha um caráter hermenêutico demonstra a autoconsciência do sujeito do ato de filosofar, bem como a crítica de seu fazer. No senso comum, porém, ainda se caminha na ignorância em relação ao fato de que a realidade não nos é dada em sua totalidade, mas predomina a visão dogmática da realidade, e não se questiona a interpretação dada pelo sujeito do conhecimento a ela. Superando essa ilusão, a Filosofia, tanto no que diz respeito ao conhecimento da natureza quanto ao conhecimento do homem, tem consciência de que o mundo nos é dado dentro de determinadas circunstâncias temporais, culturais, políticas, existenciais, tecnológicas etc.
Sendo assim, a Hermenêutica se torna uma disciplina necessária para a formação de uma verdadeira consciência crítica da realidade, e tem um caráter eminentemente fenomenológico, propondo sempre o passo de volta à consciência de si e à realidade que se interpreta, a qual não pode mais ser dita simplesmente como realidade externa, pois com ela interagimos. No entanto, poucos são os que têm plena consciência desse processo de interação contínuo com a realidade e de sua interpretação quando emitem um juízo, tomando a sua visão como se ela fosse o real em si e por si.
Do ponto de vista de uma leitura ou interpretação, não só de um texto, mas também de uma obra de arte, de uma situação de vida, “para entender como alguém lê é necessário saber como são seus olhos e qual é a sua visão de mundo”.[3]
Se tal visão de mundo, no entanto, não for questionada pelo sujeito, então ele ainda estará no dogmatismo. É necessário, portanto, que ao fazermos uma leitura, tenhamos consciência de nós mesmos, façamos uma hermenêutica de nosso próprio sujeito e tenhamos uma relação crítica com nossa visão de mundo e com o texto ou com qualquer objeto de conhecimento e de interpretação.
A interpretação está presente em nosso modo de ser, o qual é o resultado de uma interação com a realidade externa. Por isso é difícil, se não impossível, chegar a um conceito o qual poderia ser chamado de a realidade ou o ser em si, visto que somos seres de interação. De tal forma que chegar à compreensão completa de tudo o que quis dizer um autor ou uma autora ao escrever é um ideal difícil de ser atingido. Por isso também, dificilmente poderíamos utilizar o termo conclusão em um trabalho acadêmico, pois tudo flui, nosso modo de ser e de estar no mundo, de significar, de interpretar, de definir. Nossa própria constituição ontológica, marcada pelo vir-a-ser, pelo fazer-se, demonstra que somos, por natureza, seres de interpretação, de releituras e ressignificações, de construção e desconstrução, de tal modo que tanto no que diz respeito à natureza quanto à ciência e à vida prática aplicam-se as palavras de Heráclito: “Tudo flui”. E a interpretação se renova, dialeticamente, de acordo com o movimento do real, onde, como afirmou Antonio Machado, “caminhante, não há caminho” (isto é, dogmático), mas “faz-se caminho ao andar”.
E tal como definiu Carlos Drummond de Andrade, somos seres de interpretação, e continuamos a procurar por nós mesmos, como preceituou Heráclito e disso fez sua missão Sócrates, continuamente se reinterpretando. E se na confissão de fé judaica Deus é palavra criadora, e de acordo com o Quarto Evangelho “o verbo se fez carne e habitou entre nós”, o que significa que o verbo “assumiu a ordem fenomenal do ser’, como afirma C. H. Dodd, também nós outros somos palavra, e por isso se nos impõe a questão hermenêutica.[4]
E ainda de acordo com Drummond, “entre palavras e combinações de palavras circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos, finalmente, mas com que significado, que não sabemos ao certo?”.[5] A Hermenêutica assim, constitui o homem ontologicamente.
Dessa forma, necessariamente temos de reconhecer o lugar de uma hermenêutica da existência, confirmando assim a exigência de um caráter hermenêutico não só para a Filosofia, como disse Heidegger, mas antes, para própria vida.
Porém, nem todos os seres humanos têm consciência de que vivem a interpretar o mundo e a si mesmos. Vivem naquele estado de espírito chamado por Kant de dogmatismo ou infância da razão, no qual o sujeito não percebe que a sua interpretação do mundo é marcada por suas relações e por sua interação com ele, das quais, porém, ele não tem consciência.
Isso se aplica à própria leitura da Bíblia, de tal forma que aquilo que entendemos dela é o resultado de uma interação entre nós e o texto, as interpretações que aprendemos sobre ele e a nossa própria relação com ele, existencialmente, quando o lemos. Por isso, quem nunca se deparou com um texto bíblico, nem cresceu numa comunidade judaica ou cristã, lendo-o a partir da hermenêutica e dos dogmas desta, poderá adotar uma interpretação, até certo ponto, mais livre. Por outro lado, quando precisar de instrumental hermenêutico, será difícil não recorrer às fontes clássicas da crítica bíblica, da história das formas e da exegese. De tal forma que chegar ao sentido do autor do texto, isto é, ao que ele realmente quis dizer, é uma tarefa árdua e quase impossível. Nesse aspecto, os especialistas na área de Novo Testamento reconhecem que é difícil mesmo conhecer a ipsissima vox de Jesus, isto é, o que ele realmente disse.
Por outro lado, a admissão prévia do texto bíblico como sagrado pode levar a uma interpretação literal de diversas de suas passagens, as quais, no entanto, considerando-se o contexto histórico, político e cultural de sua redação, as diferenças de visão de mundo entre o redator do texto e o leitor, a forma que lhe deu o tradutor, as interpolações que os copistas podem ter feito no texto, as tradições hermenêuticas sobre o texto, isto é, as interpretações consagradas, torna-se difícil fazer o caminho de volta ao sentido do texto em si.
Porém, isso faz parte da dinâmica da Literatura e da própria existência humana, o que nos leva a admitir o convívio com as diferentes formas de interpretação, em lugar de adotarmos uma postura dogmática em relação ao significado do texto.
A Hermenêutica pode ser entendida como uma ciência geral da interpretação, e nos remete à atitude de perguntar pelo que é, pelo que significa ser e pelo fundamento do próprio ser. É assim que a atitude filosófica, como a do taumaturgo, que se admira diante da realidade externa, diante de si e de sua interação consigo mesmo e com o mundo que o constitui, é uma atitude de espanto diante do mundo e de si mesmo. Dessa forma, a Hermenêutica constitui a própria Filosofia e a Ciência, em todas as suas áreas e disciplinas, ainda que nem todos os pesquisadores tenham consciência dessa interação entre ser, interpretar e conhecer, e nem todos tinham consciência de si mesmos, enquanto ex-sistentes.
Nesse sentido, a obra de Michel Foucault, A Hermenêutica do Sujeito, demonstra a amplitude do conceito de Hermenêutica. O tema foi estudado por Foucault
tanto em suas formulações teóricas quanto em relação a práticas de grande importância na Antiguidade. O principal problema examinado é o da ocupação consigo mesmo, isto é, do cuidado de si mesmo, o qual foi eclipsado, na Filosofia, pelo “conhece-te a ti mesmo”. No entanto, Foucault observa que o conhecimento de si mesmo associa-se regularmente ao cuidado de si na cultura antiga. Isso é óbvio em Sócrates, que demonstra o cuidado da alma no Protágoras, quando através de uma comparação entre os alimentos e o ensino do sofista, previne a um discípulo que queria ouvi-lo, pois assim como alguns alimentos fazem mal ao corpo, determinados ensinamentos podem fazer mal à alma. Ao mesmo tempo, ensinando os homens a cuidar de si mesmos, também os ensinava a cuidar da própria cidade, pois a virtude era exercida no convívio em sociedade, isto é, na Pólis. Por isso, argumentara Sócrates que seus juízes não deveriam proibir que ele ensinasse Filosofia, nem condená-lo por isso, mas sim recompensá-lo por ensinar os homens a cuidar de si mesmos e, por consequência da saúde da Pólis.
De acordo com José Américo Motta Pessanha, “em algumas afirmativas que lhe são atribuídas, Sócrates compara-se aos médicos: como estes, ele submetia, quando necessário, o interlocutor-paciente à purgação da ironia, condição preliminar para a recuperação da saúde da alma, que seria o conhecimento de si mesmo. E, na verdade, o sentido da filosofia — que ele identificava com sua sagrada missão — era o de conduzir o indivíduo a pensar como quem se cura: pensando palavras como quem pensa feridas.... Mas, para aquela democracia, que recusava o direito de cidadania às mulheres, aos estrangeiros e aos escravos — portanto, à maioria da população de Atenas —, o Sócrates pedagogo e médico de almas constituía uma denúncia de suas limitações e, consequentemente, um perigo”.[6]
            A questão do cuidado de si aparece de forma clara nessa advertência de Sócrates, feita, de forma geral, aos atenienses: “Meu caro, tu, um ateniense, da cidade mais importante e mais reputada por sua cultura e poderio, não te pejas de cuidares de adquirir o máximo de riquezas, fama e honrarias, e de não te importares nem cogitares da razão, da verdade e de melhorar quanto mais a tua alma?”.[7]
Sobre um cidadão assim, diz Foucault que ele exercia uma “função útil para a cidade, pois ensinando aos cidadãos a ocuparem-se consigo mesmos... ensina-se-lhes também a ocuparem-se com a própria cidade”. Sendo assim, conclui o gênio francês, “no lugar de condená-lo, seus juízes fariam melhor se recompensassem Sócrates por ter ensinado aos outros a cuidarem de si mesmos”.[8]
                        E por estarmos tratando da Hermenêutica bíblica, de forma especial, neste trabalho, é relevante observar que Foucault dedica-se a um breve texto bíblico contido numa série tripla de relatos sobre a recuperação do que se perdeu: o cap. 15 do Evangelho de Lucas, que contém as parábolas da ovelha, da dracma e do filho perdido.
Depois de falar do ensino socrático, Foucault refere-se a Gregório de Nissa, para quem a parábola da dracma perdida é um modelo do cuidado de si mesmo. O teólogo argumenta, de acordo com Foucault, que “por uma dracma perdida é preciso acender a lâmpada, revirar toda a casa, explorar todos os seus recantos, até que se veja brilhar na sombra, o metal da moeda; da mesma maneira, para encontrar a efígie que Deus imprimiu em nossa alma, e que o corpo recobriu de mácula, é preciso ter cuidados consigo mesmo, acender a luz da razão e explorar todos os recantos da alma”.[9]
Dessa forma, conclui Foucault, “o ascetismo cristão, como a filosofia antiga, coloca-se sob o signo do cuidado de si e faz da obrigação de ter de conhecer-se um dos elementos desta preocupação essencial”.[10]
Sem nos determos mais na extensa exposição de Foucault sobre a hermenêutica do sujeito, por uma necessidade metodológica, nosso objetivo ao fazer referência a essa temática é o de demonstrar como a Hermenêutica, enquanto ciência da interpretação, é ampla em suas aplicações.
A Hermenêutica pode ser estudada também em relação à Arte, especialmente em relação à interpretação musical. Verificamos em locais como a Sala São Paulo que os músicos se reúnem no Café, após os ensaios, e ficam a discutir sobre como se deveria interpretar uma partitura. E em relação à interpretação pianísitca ficou afamado o depoimento do Maestro Leonard Bernstein sobre a forma de Glenn Gould interpretar o Piano Concerto No.1 de Brahms. De acordo com o maestro Emmanuele Baldini, Bernstein aceitou a forma de interpretação de Gould por respeito ao grande pianista.Transcrevemos abaixo, apesar de ser uma citação longa, o discurso feito pelo maestro Bernstein, que também era pianista e compositor, feito em 1962, antes da execução do citado concerto. Observemos, como se trata de um trabalho sobre Retórica e Hermenêutica, que o maestro utiliza os termos acordo epersuasão, próprios da Retórica, em determinado tópico de seu discurso:
“Não tenham medo! O Sr. Gould está aqui. Como vocês sabem, eu não tenho o hábito de falar nos concertos, mas uma curiosa situação fez com que umas duas ou três palavras sejam necessárias. Vocês ouvirão em breve uma interpretação, digamos, não ortodoxa do Concerto N. 1 de Brahms. Uma interpretação absolutamente diferente de qualquer outra que eu tenha já ouvido, ou até sonhado, com seus andamentos amplos e as frequentes contradições com as indicações dinâmicas de Brahms.

Eu não posso dizer que estou inteiramente de acordo com a concepção do Sr. Gould e isso põe a interessante pergunta: por que eu estou regendo este concerto?Estou regendo porque o Sr. Gould é um artista tão válido e sério que eu preciso considerar seriamente qualquer coisa que ele proponha em boa fé, e sua interpretação é suficientemente interessante para que eu tenha a sensação de que vocês deveriam ouvi-la também.

Mas a velha questão permanece: em um concerto, quem é o chefe, o solista ou o regente?A resposta é, naturalmente: algumas vezes, o primeiro, outras, o segundo, dependendo das pessoas envolvidas, mas quase sempre os dois chegam a um acordo, ou por meio da persuasão, ou por meio do carisma, ou até com sutis ameaças.

Eu tinha experimentado só uma vez, em minha vida, a submissão total a um solista que tinha um conceito novo e totalmente incompatível com o meu, e foi a última vez que eu acompanhei o Sr. Gould. Mas desta vez as discrepâncias foram tão grandes que eu pensei que este pequeno discurso fosse necessário.

Então, por que eu vou dirigir? Por que não fazer um pequeno escândalo, chamar outro solista ou pedir ao meu assistente que acompanhe o Sr. Gould?

Porque eu estou fascinado com a ideia de ter a possibilidade de observar uma obra tão tocadade um novo ponto de vista e porque existem momentos durante a execução em que a interpretação de Gould emerge com força e convicção. Em terceiro lugar, porque eu estou feliz por poder aprender de um artista tão genial como Glenn Gould. E finalmente, como o grande DimitriMitropoulos dizia, existe na música o fator esportivo, aquela mistura de curiosidade, aventura e vontade de experimentar. Eu garanto a vocês que esta semana, em companhia do Sr. Gould, foi de fato uma aventura, e é neste espírito de aventura que apresentaremos nossa performance desta noite”.[11]

A interpretação de determinadas composições, não no sentido de sua execução, mas de sua crítica posterior pelos seus próprios autores, pode nos causar estranheza. Nesse sentido, é conhecida a narrativa segundo a qual Beethoven perguntou a uma aluna, enquanto ela tocava as Variações Diabelli, de sua autoria: “Quem fez isso, quem fez isso?”. Ao que ela respondeu: “O Senhor, Herr Beethoven”. E sobre sua obra A Vitória de Welligton, afirmou o mestre de Bonn: “É uma estupidez”. No entanto, “o público saudou o triunfalismo da obra”.[12]
Também na área de Filosofia Política essa mudança de interpretação sobre a própria obra ocorre. O Prof. Dr. Michel Maurice Debrun, no Curso de Mestrado em Filosofia Política, na UNICAMP, em 1985, quando consultado por um aluno que gostaria de utilizar sua obra O Fato Político em uma pesquisa sobre a ideologia, o mito e o conceito de nação, não a recomendou, afirmando que não a escreveria mais.[13]
Tudo o que diz respeito à vida, ao conhecimento, às crenças e às visões de mundo, às ideologias e à ação política, às tecnologias e às diversas práticas humanas, ao consciente e ao inconsciente, ao mundo onírico, às várias formas da linguagem e da expressão humana, ao dito e ao supostamente não dito, é objeto da Hermenêutica, e trata-se de interpretar tais formas de significação e de vida, mas partindo de quais pressupostos?
Os pressupostos adotados, a rigor, já se constituem numa pré-interpretação do que se pretende pesquisar, conhecer, enfim, interpretar, o que implica a necessidade de se adotar uma visão dialética do objeto de interpretação, para que não se incorra no dogmatismo e em todas as suas consequências epistemológicas, linguísticas, ideológicas, éticas e políticas.
Outro autor que deixou uma contribuição fundamental para o estudo da Hermenêutica foi Paul Ricoeur. Na obra O Conflito das Interpretações o filósofo afirma que houve um “enxerto do problema hermenêutico no método fenomenológico”, o que significa que o problema hermenêutico tem uma anterioridade em relação à Filosofia contemporânea.[14]
O problema hermenêutico se colocou, antes de tudo, “nos limites da exegese, isto é, no quadro de uma disciplina que se propõe a compreender um texto a partir de sua intenção, sobre o fundamento daquilo que ele quer dizer” (p. 5)
A exegese suscitou, portanto, um problema hermenêutico, devido ao fato de que “toda leitura faz-se sempre no interior de uma comunidade, de uma tradição, ou de uma corrente de pensamento vivo, que revelam pressupostos e exigências”. (p. 6 ). Por isso, “a leitura dos mitos na escola estoica, na base de uma física e de uma ética filosóficas, implica uma hermenêutica muito diferente da interpretação rabínica da Torah na Halacha ou Haggada”. Por outro lado, continua Ricoeur, “a interpretação do Antigo Testamento à luz do acontecimento crístico, pela geração dos apóstolos, dá uma leitura dos acontecimentos, das instituições, das personagens da Bíblia, completamente diferente da dos rabinos”.[15]
            Paul Ricoeur então pergunta: Em que tais questões exegéticas dizem respeito à Filosofia? Ao que responderá, em primeiro lugar, referindo-se à implicação advinda da exegese, isto é, tal ciência “implica uma teoria do signo e da significação, como se vê, por exemplo, na De Doctrina Christiana, de Santo Agostinho”.[16]
A citada obra de Agostinho, para Heidegger, é uma referência na Hermenêutica, pois dela afirma o filósofo alemão:
“Agostinho produz a primeira ‘hermenêutica’ em estilo grandioso”. Para o pensador cristão, a interpretação das passagens da Escritura que não tenham a suficiente clareza exige que o intérprete seja temente a Deus tenha “o cuidado único de buscar na Escritura a vontade de Deus”, que seja piedoso, o que o afastará do “prazer nas disputas verbais”, bem como deve ter conhecimento linguístico suficiente, “para que não fique em suspenso diante de palavras ou locuções desconhecidas”, e ser capaz de valer-se da ilustração, a qual, porém, deve ser “apoiada no conteúdo da verdade”.[17]

Como um texto pode ter mais de um sentido, por exemplo, um sentido histórico e um espiritual, é necessário recorrer a uma noção de significação que vá além daquela que trata dos chamados “ditos unívocos”, requeridos por uma lógica da argumentação. Nesse sentido, Ricoeur mostra o caráter dialético da Hermenêutica, confirmando sua natureza filosófica.
Essa dialética referida por Ricoeur em relação à Hermenêutica está presente na própria natureza da Filosofia, tão bem definida por Hegel, que mostra a temporalidadee a negação dos conceitos e das escolas ao longo da História, deixando assim ao próprio sujeito do ato de filosofar a interpretação da realidade e a busca da verdade.
É assim que Hegel afirma o constante negar-se e vir-a-ser da Filosofia em sua Introdução à História da Filosofia: o filósofo primeiro fala do apelo de Cristo ao jovem que, antes de segui-lo, lhe pediu que pudesse ir antes sepultar seus pais, ao que Cristo respondeu: “deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos – Tu, porém, vem e segue-me”, o que Hegel interpreta em relação com a superioridade de Cristo a toda filosofia.
Depois, porém, como toda escola filosófica se esvai, Hegel faz uma leitura da narrativa da morte de Ananias e Safira na perspectiva da temporalidade e da superação do conhecimento, interpretando a afirmação: “Eis aí os pés dos que levaram a teu marido, e eles te levarão também a ti”, presente no Livro de Atos dos Apóstolos, em relação à superação de toda escola filosófica no decorrer da História. É assim, que, enfim, ele deixa a cada um a possibilidade de filosofar, afirmando: “Segue-te a ti mesmo”.[18]
Retornando a Ricoeur, esse caráter do conhecimento filosófico, que está presente não só em Sócrates, com a prática do oráculo de Delfos, mas também antes, em Heráclito, mais conhecido em relação à dialética da natureza, mas que antecedeu ao filósofo ateniense ao afirmar: “Procurei por mim mesmo”.
Por isso, continua Ricoeur, “o trabalho da intepretação revela um desígnio profundo de si mesmo”. O ser-aí adquire suma importância, dessa forma, na Hermenêutica ricoeuriana e heideggeriana, quando “o próprio trabalho de interpretação revela um desígnio profundo, o de vencer uma distância, um afastamento cultural, de tornar o leitor igual a um texto tornado estranho, e, assim, de incorporar o seu sentido à compreensão presente que um homem pode ter de si mesmo”. [19]
O sujeito da interpretação tem sua consciência determinada culturalmente. Sua visão de mundo e de si mesmo, da política, da religião, dos costumes, sua forma de significação de si mesmo e do mundo, enfim, é relativa. A Hermenêutica, assim, leva-nos a perguntar não só pelo significado do texto, da obra de arte, mas também pelo seu contexto social, econômico, político e ideológico, bem como pelo sentido do próprio ser homem nesse contexto.
A existência humana consiste, mesmo, num constante interpretar, de acordo com o jurista Raimundo Bezerra Falcão, que afirma:
“A decifração das marcas que o homem imprime aos fenômenos é a interpretação. Noutros termos, podemos dizer que ela é o processo para essa decifração, que, de resto, é a decifração da vida. O homem é mudança, mudança, inclusive e por extensão, de significações, de modo que a vida é um constante interpretar”.[20]

Como se interpretavam, existencialmente, aqueles pesquisavam e escreviam sobre Filosofia, Religião, Física, Medicina e outras ciências na Idade Média, e mesmo no Século XVII, no qual se repetia o adágio de que bem viveu quem bem se escondeu?
Como interpretar um texto de Descartes dedicado à Congregação da Sagrada Faculdade de Teologia de Paris, reconhecendo o seu poder de censura? Muitos filósofos, teólogos e cientistas escreveram sob o signo do medo, tanto que Descartes, estrategicamente, afirma no Discurso sobre o Método que sabe que a Teologia ensina a ganhar o céu, porém, ressalva que os fundamentos de uma nova ciência deviam ser lançados. Foi com medo da condenação de sua obra, e com medo da morte, que ele lançou, ao lado de outros, como Ockham, Bacon e Galileu, os fundamentos da filosofia e da ciência modernas.
Assim, o leitor desses pensadores e homens de ciência, os interpretará melhor se conhecer não só os seus textos, mas também a sua história de vida, seu contexto histórico, político e religioso. Dessa forma, a interpretação deve levar em conta também o sujeito da ciência, da arte, da teologia, da filosofia, enfim, de tudo o que é produzido pelo homem e é objeto de entendimento.
Quanto a Hobbes, ele próprio afirma que nasceu sob o signo do medo, e sua teoria política, como intitula de forma oportuna Renato Janine Ribeiro um de seus textos sobre o filósofo, foi construída numa forma de trajeto “do medo à esperança”.[21]E como o próprio filósofo afirmou: “Minha mãe pariu gêmeos: eu e o  medo”, é possível que sua própria teoria política, cujo temor maior é o da guerra civil, tenha fundamentos não só teóricos, mas também existenciais.
Na obra intitulada Ontologia (Hermenêutica da facticidade) Heidegger apresenta uma extensa e rica fonte de informações exegéticas e históricas sobre os usos e significados do termo hermenêutica ao longo da História. Como estamos tratando especificamente da hermenêutica bíblica, merece destaque a seguinte afirmação do filósofo: “Fílon chama Moisés de hermeneustheou, o hermeneuta de Deus (o intérprete de sua vontade)”.[22]
Nesse sentido, como nosso trabalho trata da Hermenêutica hobbesiana da Bíblia em relação á Igreja e ao Estado, é relevante a observação de que o filósofo inglês registra que quando Moisés foi ao Monte Sinai pela segunda vez, já como pastor dos que viriam a ser o povo de Israel saído do Egito, Israel é também do Êxodo, que afirma:
Todo o povo presenciou os trovões e os relâmpagos e o monte fumegante: e o povo, observando, se estremeceu e ficou de longe. Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. O povo estava de longe em pé; Moisés, porém, se chegou onde Deus estava. [23]

            Essas afirmações são utilizadas por Hobbes para fundamentar suas teses de que o poder de Moisés estava sob o poder de Deus, bem como que Moisés era seu lugar-tenente e, como tal, portador da revelação, pois Deus não falava diretamente ao povo.
Ciente disso, Hobbes, opondo-se aos que, em seu contexto histórico e político, afirmavam ter revelações diretas de Deus, e com isso provocavam a desobediência civil, nega a revelação direta de Deus aos homens, a qual é feita sempre através de um mediador ou lugar-tenente. Nesse sentido para evitar a desobediência civil e a perda da paz na vida em sociedade, defende a tese de que cabe ao soberano civil autorizar e reconhecer a religião, autoriza os cultos públicos, definir o que é canônico, enfim, é do soberano que procede a legitimidade da religião. E nesse conjunto argumentativo o filósofo nega a autoridade do Papa como sumo pontífice em relação à religião, pois desde que a mesma é depende do Estado para ser reconhecida, o soberano civil é quem, de fato, é o sumo pontífice, como o eram os césares em Roma.
Assim, em Hobbes se unem a hermenêutica bíblica e a hermenêutica política, com o objetivo máximo de se preservar a paz civil. E nesse sentido, embora por caminhos argumentativos diferentes, Hobbes chega à mesma tese de Santo Tomás de Aquino, que, conforme já assinalamos, perdida a paz civil, “perece a utilidade da vida social”, do que se segue que o regime mais útil será aquele que “conservar a unidade da paz”.[24]




[1] Richard E. Palmer. Hermenêutica. Lisboa: Edições 70, 1989, p. 9.
[2] Idem, p. 15.
[3] Leonardo Boff. A águia e a galinha; uma metáfora da condição humana. Petrópolis: Vozes, 1997, p. 9.
[4] Charles H. Dodd utiliza a expressão citada na obra A Interpretação do Quarto Evangelho. S. Paulo: Paulinas, 1977. 
[5] Carlos Drummond de Andrade. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.
[6] “Sócrates: Vida e Obra”, in: Coleção Os Pensadores: Sócrates. S. Paulo: Nova Cultural, 1987, p. 27.
[7] Platão. Apologia, idem, p. 46-47.
[8] Michel Foucault. Hermenêutica do Sujeito, p. 598.
[9][9]Michel Foucault, idem, ibid.
[10]Michel Foucault, idem.O conhecimento de si mesmo pode ser visto também na parábola do filho perdido que, “caindo em si”, reconheceu que sua situação de fome e desamparo, depois de gastar sua herança dissolutamente, era pior do que a dos empregados de seu pai. Foi então que, caindo em si, isto, fazendo uma leitura de seu interior, voltou para sua casa. O arrependimento, neste sentido, é interpretado por Santo Agostinho como um olhar para dentro de si mesmo, o que na linguagem socrática, equivaleria ao “conhece-te a ti mesmo”. No caso do Evangelho, porém, à luz da palavra de arrependimento pregada por Cristo: “o tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo, arrependei-vos, e crede no Evangelho” (Mc 1.15).
[11]  Rádio Cultura FM, SP. Programa Contrastes, apresentado por Emuele Baldini, spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de S. Paulo – OSESP, em 01/10/17.

[12] Ribeiro, Milton. “Uma palestra simples sobre a evolução da música de Beethoven”. (miltonribeiro.sul21.com.br, acesso em 27/11/17)

 [13] Michel Maurice Debrun. O Fato Político. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1962.
[14] Paul Ricoeur. O Conflito das Interpretações, Porto: Rés, s/d, p. 5.
[15] Idem, p. 5-6.
[16] Idem, p. 6
[17] M. Heidegger, Ontologia (Hermenêutica da facticidade), 2012, p. 18.
[18] G. W. F. Hegel, Introdução à História da Filosofia. Coleção Os Pensadores.
[19] Paul Ricoeur. O Conflito das Interpretações, p. 6.
[20] Raimundo Bezerra Falcão, Hermenêutica, 2. ed. S. Paulo: Malheiros, 2010, p. 36.
 [21] Artigo publicado na coletânea Os Clássicos da Política, Org. por Francisco Weffort, 1989, p. 51-77.
[22] Martin Heidegger. Ontologia (Hermenêutica da facticidade), 2012, p. 18.
[23]Ex20:18-19 e 21
[24]Sobre o Regime dos Príncipes, op. cit., p. 22.