quarta-feira, 12 de junho de 2019

Ideologia e Razão de Estado nas páginas da Bíblia


Ideologia e Razão de Estado nas páginas da Bíblia
O texto a seguir é o Cap. VI de meu trabalho de Pós-Doutorado
                                                                 
A Razão de Estado pode ser verificada no conceito de Maquiavel de que ao príncipe não importa “incorrer na fama de ter certos defeitos, defeitos estes sem os quais dificilmente poderia salvar o governo, pois que, se considerar bem tudo, encontrar-se-ão coisas que parecem virtudes e que, se bem praticadas, lhe acarretariam a ruína, e outras que poderão parecer vícios e que, sendo seguidas, trazem a segurança e o bem-estar do governante”.[1]
E Napoleão, ao comentar a afirmação de Maquiavel de que “la grandeza de los crímenes borrará la vergüenza de haberlos cometido”, afirma: “Triunfad siempre, aunque sea por los peores medios, y siempre os darán la razón”.[2]
Há diversos textos bíblicos que demonstram interesses ideológicos, ardis e traições nas relações políticas, nalguns dos quais os autores, além de darem a sua leitura ou interpretação dos fatos, incluem também seus interesses ideológicos e políticos.
Isso nos leva a observar que, de acordo com várias narrativas bíblicas, essa forma de pensar e de agir já estava presente, tanto no nascente povo de Israel quanto em seus vizinhos. Esse tipo de pensamento parte de uma interpretação realista da História e da Política, e se orienta para evitar, no presente e no futuro, os erros do passado. E assim como a natureza tem suas leis, comparativamente, a ação humana, especialmente na área da Política, tem as suas, podendo-se ampliar o uso da expressão “essa é a natureza das coisas” para a área da Política.
Por isso, mesmo em Israel, quando se tratava da Política, chegou-se a prescindir de ideais morais consagrados, como o do amor ao próximo como a si mesmo, o qual já está presente no Livro do Levítico, no Antigo Testamento. E assim, mesmo entre os atores políticos do povo de Deus observa-se que, de acordo com diversas narrativas bíblicas, predomina o resultado em lugar dos ideais morais e o pensamento conduz-se de forma pragmática, isto é, a razão é instrumentalizada em função do resultado, e não seria exagero dizer que aquilo que é conhecido como Razão de Estado, mesmo antes desse conceito surgir na História da Política, já era colocado em prática, não só por Israel, mas também por outros povos, sejam seus vizinhos ou não, posto que faz parte da Política em geral. Por outro lado, isso é contraposto pela pregação dos profetas e por suas advertências aos reis de Israel e de Judá, de tal forma que, se por um lado, a violência de Israel contra os moradores de Canaã é justificada teologicamente, por outro lado, depois de Israel ter sido constituído como povo, seus reis, fossem do Reino do Norte (Israel), ou do Sul, eram advertidos pelos profetas devido à sua impiedade (diante de Deus) e à sua injustiça (diante dos cidadãos).
Em primeiro lugar, observamos nas narrativas do Antigo Testamento que era comum, entre os ministros, conselheiros e outros oficiais dos reis a adulação e a busca da aprovação de decretos visando interesses pessoais, o que é narrado tanto no Livro de Ester quanto no Livro de Daniel. No caso do Livro de Ester, o ministro Hamã paga uma alta quantia em tesouros de prata para que o rei Assuero aprove um decreto para a aniquilação dos judeus. Trata-se de um suborno, visando à matança dos judeus, o qual o rei aceita.
Quanto ao Livro de Daniel, nele narra-se a aprovação de um decreto de culto ao Rei Dario, decreto esse feito claramente com a finalidade de condenar à morte Daniel, que era o mais sábio conselheiro da corte. Sabendo que Daniel não deixaria de cultuar o Deus de Israel, seus adversários convenceram o rei a autorizar um decreto que dispunha que qualquer pessoa que fosse flagrada cultuando a outro “deus” seria condenada à morte, sendo lançada na cova dos leões. O caráter de adulação contido nessa proposta feita ao rei pelos opositores de Daniel era óbvio, porém foi aceito pelo envaidecido rei, que teve uma grande estátua levantada em sua homenagem, não só cívica, mas também religiosa. E quando Daniel foi condenado à morte o rei não podia mais voltar atrás, pois não era assim que se fazia entre os medos, e o próprio rei desejou a Daniel que o Deus de Israel o livrasse.
O conteúdo teológico dessa narrativa reforça o cumprimento do primeiro mandamento: “Não terás outros deuses diante de mim”, bem como incentiva o povo cativo a manter-se fiel à Aliança com o Deus de Israel.
            Em segundo lugar, observamos que também pelos reis de Israel era feito esse tipo de manipulação dos decretos em seu próprio favor. O próprio Salomão usou desse expediente, de forma ardilosa, para condenar a Simei, que havia ofendido a honra de seu pai, o rei Davi, ao praguejar contra ele. Já idoso, Davi incumbe a Salomão de vingá-lo, dizendo: “Não o tenhas por inculpável, pois és homem prudente e bem saberás o que lhe hás de fazer para que as suas cãs desçam à sepultura com sangue”. [3]
Nessas palavras de Davi: “bem saberás o que lhe hás de fazer” está clara a declaração de morte de Simei, por quem Davi havia jurado pelo Senhor que não o mataria. Então, foi um falso juramento, pois ele delegou a Salomão a morte de seu súdito.
Então Salomão proibiu a Simei de sair da cidade de Jerusalém sob pena de, no dia em que o fizesse, seria morto, por ter desobedecido a um decreto real. O homem, porém, ao cabo de três anos, tendo dois escravos foragidos, saiu em sua busca e, ao retornar, foi morto. E Salomão ainda argumentou que Simei não guardou o juramento do Senhor, nem a ordem que ele, o rei, lhe dera, justificando assim sua estratégia para manter a hegemonia.[4]
            Este Davi é o mesmo homem de quem Paulo disse, em pregação em Antioquia da Pisídia, que dele falara o Senhor: “Achei Davi, filho de Jessé, homem segundo o meu coração, que fará toda a minha vontade”. [5] E por isso ele é citado até hoje pela tradição cristã como o homem “segundo o coração de Deus”.
E Salomão, que foi exaltado nos textos do AT como o mais sábio de sua época, politicamente tratava a “sabedoria” de forma pragmática e astutamente. Cristo parece zombar dos textos laudatórios do AT sobre a sua glória, afirmando: “Considerai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles”. E quanto à sua sabedoria disse: “E eis aqui está quem é maior do que Salomão”. [6]
            Outra narrativa bíblica que pode ser lida na perspectiva da Razão de Estado, e talvez até antecipando esse conceito, é aquela sobre Eúde, um do juízes de Israel, que para vencer os moabitas mentiu ao seu rei de duas formas. Primeiro, disse: “Tenho uma palavra secreta a dizer-te, ó rei”. A seguir, tendo sido recebido em audiência particular, disse: “Tenho a dizer-te uma palavra de Deus”. [7]
Porém, ele assassinou o rei com um golpe de punhal, e depois disso venceu os moabitas, levando Israel a ficar em paz por 80 anos. Essa suposta palavra de Deus, porém, era um ardil, ele agiu como falso profeta, e depois ainda disse aos filhos de Israel: “Segui-me, porque o Senhor entregou nas vossas mãos os vossos inimigos”. [8]
Se fizermos uma leitura dessas e de determinadas outras narrativas bíblicas sob a perspectiva da estratégia política e bélica, portanto, verificaremos que o conceito de Razão de Estado, que é usado a partir da Renascença, mas que já está presente na obra de Tácito Roma, na realidade já estava presente, na prática, na Política do Oriente Próximo, não só na opressão faraônica sobre os hebreus, mas também na própria estratégia de José, hebreu que levou todo o Egito a tornar-se escravo de Faraó, bem como, conforme vimos nos exemplos acima, na História de Israel e de outros povos. [9]
Concluamos essa breve abordagem da presença Razão de Estado em fatos narrados na Bíblia fazendo uma comparação entre um texto do AT e um do Evangelho.
Vejamos o caso de Moisés, narrado no Êxodo. Apesar dos elementos mitológicos e idealizados dessa narrativa, Moisés é reconhecido como um personagem verdadeiro da História. Por ter liderado por 40 anos um povo que não tinha território, Rousseau o considerou um grande líder da antiguidade, e Freud afirma que Moisés, por ter comandado 600 mil homens no deserto, era mais que um líder sacerdotal, podendo ser considerado como um General formado pelo Egito.
Em torno dele havia uma esperança de caráter religioso e político. Nesse caso, a religião era uma ameaça à hegemonia, e poderíamos constatar, como reação, um dos primeiros registros de uma Razão de Estado por parte do rei egípcio que reinou após a morte de José. Para livrar-se da ameaça de um futuro libertador hebreu, o rei ordenou que os meninos recém-nascidos fossem mortos. O texto afirma que “o rei do Egito ordenou às parteiras hebreias, dizendo: Quando servirdes de parteira às hebreias, examinai: se for filho, matai-o; mas se for filha, que viva”.[10]
As parteiras deveriam logo afogar a criança no Rio Nilo, caso fosse do sexo masculino. Porém, por temor a Deus, não obedeceram a essa ordem homicida, e logo o rei do Egito mudou sua estratégia, como diz o texto: “Então ordenou Faraó a todo o seu povo, dizendo: a todos os filhos que nascerem aos hebreus lançareis no Nilo, mas a todas as filhas deixareis viver”.[11]
Dessa forma, a perseguição passaria a ser praticada pela própria população, não só pelas autoridades. Mas o menino Moisés adentra o palácio como filho adotivo de uma princesa, é educado como príncipe e posteriormente liberta seu povo de origem.    Em relação à perseguição ao futuro libertador, há semelhanças entre essa narrativa do Êxodo e a narrativa do Evangelho de Mateus sobre o nascimento de Cristo, que foi interpretado por Herodes como uma ameaça à sua hegemonia. De acordo com o Evangelho, o rei da Judéia, procurando eliminar a ameaça de um futuro rei dos judeus, “mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo”. [12] Aí também já se pode verificar o uso da Razão de Estado, a qual é tão contraditória e oportunista que admite que a autoridade civil se proclame como uma divindade ou um filho dos deuses e, ao mesmo tempo, mande assassinar crianças recém-nascidas.
Apesar da expressão “Razão de Estado” ser própria do século XVI, o conceito é aplicado a Nero na obra Quo Vadis?. Assim, o autor de obra tão conhecida na área de Literatura está, na realidade, falando de Política, criticando o Estado Romano e denunciando a submissão do pensamento a objetivos políticos, independente dos padrões morais, por exemplo, quando afirma que para César “os cristãos, posto que não tivessem incendiado Roma, deviam ser exterminados a bem da cidade”, e que “o massacre se justificava pela razão de Estado”.[13]
            A obra também atribui a Nero a afirmação de que “os atos de um homem podem ser cruéis, quando o homem não o é”.[14] E um dos mais leais servos de Nero, líder da Guarda Pretoriana, Tigellinus, teria dito: “Não existem razões em ordens imperiais”. [15]
            Quanto à sociedade grega, ela era, sem dúvida, pia, mas em alguns casos o sentimento religioso chegava à superstição e ao fanatismo, sendo também associado à política de forma dogmática. Plutarco afirma, no volume das Vidas Paralelas dedicado a Alexandre e César, que em seus dias finais, Alexandre, na Babilônia, tinha a seu serviço inúmeros sacerdotes, de diferentes religiões, possivelmente devido à consciência de sua violência e ao sentimento de culpa. Nesse contexto, o historiador afirma que o fanatismo é pior do que a falta da religião.
            Por outro lado, o dogmatismo na política e na religião pode ser verificado na condenação de Sócrates, que foi acusado de não venerar os deuses da cidade de Atenas. Essa ligação entre a cidade e os deuses chega ao extremo de o apóstolo Paulo, séculos mais tarde, ter sido levado ao Areópago sob a acusação de pregar estranhos deuses. O que os seus ouvintes, marcados pelo politeísmo, chamavam de estranhos deuses eram simplesmente Jesus e a Ressurreição.
            Causa estranheza o fato de estarem, entre aqueles que constrangeram Paulo a explicar a nova doutrina no Areópago, alguns filósofos:
“E alguns dos filósofos epicureus e estóicos contendiam com ele, havendo quem perguntasse: Que quer dizer esse tagarela? e outros: Parece pregador de estranhos deuses, pois pregava a Jesus e a ressurreição. Então, tomando-o consigo, o levaram ao Areópago, dizendo: Poderemos saber que nova doutrina é essa que ensinas?”. [16]

            Dessa forma, o dogmatismo pode ser encontrado nos membros das próprias escolas filosóficas citadas, que participaram do constrangimento imposto a Paulo. Foi no Areópago, chamado “Monte de Marte”, um tribunal político e religioso, que muito tempo antes os juízes “acusaram a Sócrates e o condenaram por impiedade”. [17]
Apesar de Atenas ser uma cidade politeísta, pelo que expusemos, era também dogmática. O apóstolo Paulo reconhece que os atenienses eram religiosos, mas seu espírito se inquietava com a idolatria ali reinante. O centro cultural da Grécia “era uma das cidades mais idólatras de todo o império romano… Havia mais de 3.000 ídolos na cidade”. [18] No o I século da Era Cristã havia um provérbio popular que dizia: “Há mais deuses do que homens em Atenas”. [19] E de acordo com Pausânias, “havia mais ídolos em Atenas do que em toda a Grécia”. [20]
No Cap. XII do Leviatã Hobbes estabelece uma crítica do uso que as autoridades dos gentios fizeram do medo e da piedade dos povos, visando conter suas revoltas. Ele afirma que “os primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios” procuravam convencer o vulgo de que “os preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como provenientes de sua própria invenção, mas como os ditames de algum deus”, bem como levava-os a crer aquilo que era proibido por lei também  aos deuses.
E assim as próprias situações de desgraça e calamidade não eram atribuídas à autoridade civil, mas sim a algum descuido ou erro cometido em relação aos cultos, ou à própria desobediência às leis. Isso continha as rebeliões. Por isso, conclui Hobbes, “assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política”. [21]
Isso era muito comum em Roma, onde o próprio imperador se declarava divino e bastava ele ordenar e um novo culto poderia ser instituído. O próprio imperador era considerado, ideologicamente, como divino. Nero afirmava ser o sumo pontífice da deusa Vesta. Em Roma também se adoravam inúmeros deuses. Venerar os imperadores como deuses era o mesmo que considerar o Estado divino e, portanto, não precisava haver razões nas ordens e nas decisões imperiais.
Certamente a veneração de César como deus era feita por muitos por adulação, por medo ou por interesse, não por convicção. E ao mesmo tempo em que eles se declaravam sumos pontífices, eram, na realidade, pragmáticos, usando o sentimento religioso como forma de preservação e aumento do próprio domínio.
Nas palavras de Hobbes citadas abaixo observamos que em Roma todas as formas de culto eram aceitas, desde que não ameaçassem o poder civil:
“Os romanos, que tinham conquistado a maior parte do mundo então conhecido, não tinham escrúpulos em tolerar qualquer religião que fosse, mesmo na própria cidade de Roma, a não ser que nela houvesse alguma coisa incompatível com o governo civil”.[22]
Por isso, prossegue Hobbes, o monoteísmo judaico não era benquisto em Roma:
“Não há notícia de que lá alguma religião fosse proibida, a não ser a dos judeus, os quais (por serem o próprio Reino de Deus) consideravam ilegítimo reconhecer sujeição a qualquer rei mortal ou a qualquer Estado. E assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política”.[23]

Isso é registrado no próprio Novo Testamento, pois o Imperador Cláudio decretou que os judeus saíssem de Roma, conforme descreve Lucas:
“Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áqüila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma...”. [24]
                       
            Os judeus resistiram à ordem de Calígula de que no Templo de Jerusalém houvesse um busto seu para ser adorado e foram às armas. Também se sentiram ultrajados com o fato de Domiciano ter se intitulado “Senhor e Deus”, título com o qual assinava os documentos oficiais, e de ter exigido que o cultuassem. Também os cristãos se recusaram a obedecer a essa ordem e sofreram dura perseguição.
            Em todos os casos citados observamos que a soberania civil está acima de qualquer outro valor, seja moral ou religioso, não só nos Estados politeístas, mas isso veio a ocorrer também no próprio Israel.
Em Hobbes, no entanto, apesar do caráter absoluto da soberania, o que vem em primeiro lugar é o direito fundamental à vida, e o Estado tem como suprema finalidade a preservação da paz e a saúde do povo, pois como diz a Introdução do Leviatã: “Salus Populi é o seu objetivo”, o que frequentemente é olvidado através de estereótipos de um Hobbes da guerra de todos contra todos, do homem como lobo do homem, do Leviatã como figura que representa o Estado absoluto etc. E saber que Hobbes afirma que quando o Estado não for mais capaz de preservar a paz civil, não se lhe deverá mais obediência, pois foi para isso é que ele foi concebido.
É de se deduzir, portanto, que em seu pensamento, em lugar de uma defesa ideológica da Razão de Estado, o que predomina é a defesa da autoridade civil em prol da paz civil, não dos caprichos de um déspota como Nero, Calígula ou qualquer outro.
Hobbes afirma que os ensinamentos dos profetas, apóstolos e, posteriormente, do clero, serviam apenas como conselhos para a autoridade civil, confirmando, assim a soberania do Estado e admitindo a Razão de Estado.
            Os cristãos foram ensinados a obedecer à autoridade civil, por exemplo, por Cristo, que disse: “Dai, pois a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. [25]  E ainda por Paulo, em sua I carta, considerada autêntica pela Crítica, onde ele escreveu: “Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra”. [26] E ainda por Pedro, que escreveu: “Tratai todos com honra, amai os irmãos, temei a Deus, honrai o rei”. [27] Porém, quando se tratava de uma ordem civil contrária a um princípio de fé, os cristãos eram ensinados a obedecer em primeiro lugar a estes.
            Já no início de seu Evangelho, Mateus dá a entender que nascera um novo rei, ao escrever que os magos perguntavam: “Onde está o recém-nascido rei dos judeus?”. Essa pergunta era uma ameaça política que, de acordo com a narrativa, levou Herodes a se alarmar e a ordenar a morte de muitos meninos recém-nascidos. E o mesmo Evangelho se encerra com a afirmação, atribuída a Cristo: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”. [28] Essa última declaração, ainda que não fosse interpretada politicamente pelos cristãos servia-lhes de motivação para, no caso de ocorrer alguma contradição entre a sua fé e as ordens das autoridades civis, prevalecesse aquilo que se entendia ser relativo ao Reino de Deus, e assim muitos cristãos desobedeciam à autoridade, quer a religiosa, de Israel, quer a civil, de Roma. E a própria expressão “           Reino de Deus” é uma expressão com conteúdo político, a qual, porém, foi ideologizada pela Igreja, depois de sua passagem do carisma para a institucionalização.
            E também é claro que Lucas fazia também uma dura crítica à violência do Império Romano, ao escrever: “Naquela mesma ocasião, chegando alguns, falavam a Jesus a respeito dos galileus, cujo sangue Pilatos misturava com os sacrifícios que os mesmos realizavam”. [29]
            E as mensagens de esperança dadas aos cristãos por Paulo, sem dúvida se referiam à perseguição judaica e romana. Ele chegou a escrever, referindo-se a isso, que nem a morte, nem os principados, nem os poderes poderiam separar os cristãos do amor de Deus. [30]
            Os romanos admiravam-se e até mesmo criticavam o fato dos cristãos não resistirem quando eram torturados e levados à morte, e alguns até os consideravam sem virtude. Porém os cristãos chegavam a crer, como Paulo escreveu que “o viver é Cristo e o morrer é lucro”. [31]Confessando, assim, a Cristo como Senhor, acima do Estado, eram vistos como desobedientes e como uma ameaça ao poder civil, e negando-se a venerar o imperador como divindade, poderiam, de acordo o que Hobbes viria a escrever tanto tempo depois, ser vistos como hereges e perturbadores da paz civil. Por isso, do ponto de vista da Razão de Estado, alguma coisa deveria ser feita, mas não necessariamente a perseguição e a condenação dos cristãos à morte, num espetáculo público, devorados por feras, como tanto se viu no Coliseu, lugar que dificilmente poderia ser considerado um ponto turístico em nossos dias, para quem não crê nessa Razão que justifica o derramamento de sangue dos discordantes. É que faltava a Roma a ideia de tolerância religiosa, de convívio com o diferente, e de separação entre o Poder Civil e a Religião, a qual, se efetivada, deveria manter, pela natureza das coisas, a soberania daquele, sem o que a paz civil seria impossível, desde que, como diz Hobbes, esse grande homem artificial cumprisse a sua missão, a de garantir nossa paz e defesa.
Porém, tanto tempo depois do declínio do Império Romano, a paz completa não veio, e se nos dias antigos o Estado perseguia aos cristãos, com o passar dos séculos a Igreja passou a perseguir e a matar os discordantes de seus dogmas, querendo ser um Estado dentro do Estado, provocando a desestabilização do poder civil e prejudicando a paz.
E foi nesse contexto que Hobbes escreveu Do Cidadão, Leviatã, Behemoth e a Narração Histórica sobre a Heresia e as Formas de seu Castigo, num contexto em que essa paz ainda não havia sido alcançada, e esse é o objetivo que serve de norte e de base ao seu pensamento político: a busca da paz civil.
A Razão de Estado dirá que o que importa são os resultados, então, por que não colocar a paz civil como o resultado maior?


























[1] Maquiavel, O Príncipe, Cap. XV, p. 64. Os Pensadores. 2. ed. S. Paulo: Abril, 1979.
[2]Apud Guillermo Fraile Historia de la Filosofía, Vol. III: Del Humanismo a la Ilustración, p. 303.
[3] I Rs 2:9
[4] O texto de I Rs 2:36-46 pode assim ser sintetizado: “Mandou o rei chamar a Simei e lhe disse: Edifica-te uma casa em Jerusalém, e habita aí, e daí não saias, nem para uma parte nem para outra. Porque há de ser que, no dia em que saíres, fica sabendo que serás morto. Ao cabo de três anos, porém, dois escravos de Simei fugiram para Aquis. Então, Simei foi em busca dos seus escravos. O rei deu ordem a Benaia, o qual saiu e arremeteu contra ele, de sorte que morreu”. (Bíblia: Almeida Revista e Atualizada).
[5] At 13:22
[6]Mt 6: 28-29 e 12:42
[7]Jz 3:19-20
[8]Jz 3:28. É difícil garantir que esse período de paz tenha sido de 80 anos, pois Espinosa demonstra que há informações contraditórias sobre a cronologia em vários textos do AT. De acordo com ele, apesar de I Reis 6: 1 afirmar: “No ano quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, Salomão, no ano quarto do seu reinado sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segundo), começou a edificar a Casa do Senhor”, no entanto, somando-se os anos das narrativas do Pentateuco, de Josué e Juízes “temos de concluir que foi um número de anos muito superior”. Pelo cálculo de Espinosa, na realidade, o templo começou a ser construído 100 anos depois do que diz o texto de I Reis. (Tratado Teológico-Político, Cap. IX, p. 158-160, S. Paulo, Martins Fontes, 2003).
[9] Durante a Renascença houve uma releitura das obras sobre a História de Roma e o termo “Razão de Estado” era usado em relação à ética realista adotada no Império Romano.
[10]Ex 1:15-16.
[11]Ex 1: 22.
[12]Mt 2:16
[13]Henryk Sienkiewicz, Quo Vadis? S. Paulo: Saraiva. 1949, p 257.
[14] Idem, p. 201 e 202.
[15] Fala do Filme homônimo, quando Petronius questiona a intenção de Nero de incendiar Roma pelo fogo e reconstruí-la, numa forma extrema de expressão artística.
[16] Atos 17:18s
[17]The Geneva StudyBible, 1599, Comentário sobre Atos 17. Disponível online: crosswalk.com.
[18]Myer Pearlman, Atos dos Apóstolos, 2. ed.,  O. S. Boyer (editor), Pindamonhangaba, 1980, p. 174.
[19]Idem.
[20]The Geneva Study Bible, op. cit, cf. nota supra.
[21]Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 70 e 71
[22]Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 70-71
[23] Idem, ibidem
[24] Atos dos Apóstolos: 18:1-2.
[25]Mt 22:21
[26]Rm 13:7
[27] I Pd2:17
[28]Mt 2:2 e 28: 18
[29]Lc 13:1
[30]Rm 8:38-39
[31] Fp 1:21