sexta-feira, 25 de agosto de 2017


Hermenêutica, Cânones Bíblicos, Ideologia e o Retorno às Coisas Mesmas.

À memória das vítimas dos naufrágios no Pará e na Bahia.

Deve-se observar que a Hermenêutica surgiu originalmente como uma disciplina dedicada ao estudo dos princípios da interpretação bíblica. Sua primeira finalidade, bem como dos métodos exegéticos empregados na interpretação, tem sido a descoberta do significado dos textos sagrados e sua aplicação ao contexto dos ouvintes através da História. Alguns textos são de interpretação simples, outros demandam um grande esforço exegético, com o auxílio de conhecimentos das áreas de História, Arqueologia, Antropologia, Sociologia, Política, Filosofia, História das Religiões e outras áreas do conhecimento.

Uma primeira questão que se deve colocar em relação à Hermenêutica Bíblica é a que diz respeito à definição do Cânon bíblico e dos livros que foram selecionados para compô-lo. Para ficar apenas nos principais em nosso contexto cultural e histórico, lembremos que há uma Bíblia Hebraica, com 39 livros; uma Bíblia Católica, com 74 livros, sendo 47 deles no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento e uma Bíblia Protestante, com 66 livros, sendo 39 deles no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento (estes 27 são os mesmos do cânon católico).  

        A questão do cânon incomodou também a Lutero, o qual, de acordo com Karl H. Schelkle, “embora conservasse como Sagrada Escritura os 27 livros tradicionais do Novo Testamento, contudo, começou uma apreciação crítica, julgando-os sob o ponto de vista de ‘se ocuparem de Cristo’. Conforme isso, escritos como a Epístola aos Hebreus, a Epístola de S. Tiago, a Epístola de S. Judas e o Apocalipse de São João pareciam-lhe ser de menor valor. Por isso, colocou-os no fim do seu Novo Testamento”.[1]

        Há diversas questões hermenêuticas que se colocam em relação à definição de cada Cânon. Os primeiros cristãos tinham como Bíblia ou Escritura os livros do Antigo Testamento, ou seja, a Bíblia Hebraica, e faziam a sua leitura em relação a Cristo, a fim de confirmar, com base em diversos textos, que ele era o Messias prometido, de tal modo que as primeiras comunidades cristãs, lendo o AT em relação a Cristo, consideravam-se como o novo Israel. Paulo afirma na Epístola aos Gálatas: “Paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus” (Gl 6.16). Nesse sentido, Justino afirmou no século II: “Nós somos aquele povo que Deus outrora prometeu a Abraão”.[2] Ele está de acordo com os Evangelhos em relação à leitura do Antigo testamento sobre Cristo, afirmando categoricamente que “nos livros dos Profetas, de fato, encontramos Jesus, o nosso Cristo”.[3]

A leitura do AT era feita com a adoção de dois métodos de interpretação: o alegórico e o tipológico. O primeiro já estava presente no próprio Judaísmo, mas os cristãos encontraram no AT vários textos que, em sua interpretação, referiam-se a Cristo. O próprio Cristo se valeu com frequência das alegorias. Um exemplo lapidar pode ser verificado na narrativa, presente nos três Evangelhos sinóticos, sobre o semeador, na qual a atenção maior é dada aos tipos de solo que receberam a semente, isto é, aos ouvintes e às suas diferentes reações diante da proclamação do Reino de Deus.

         As alegorias sobre a natureza são frequentes no AT. Há uma que é citada por Hobbes na obra Do Cidadão, quando o filósofo, para corroborar seu argumento sobre os problemas advindos da falta de soberania e dos perigos da guerra civil, recorre ao Livro de Juízes, no qual se encontra uma narrativa sobre o desinteresse dos israelitas pelo exercício do governo e as consequências disso para a sociedade. O autor do texto bíblico usa uma símile sobre as árvores que, em busca de um rei, disseram à oliveira: “Vem tu e reina sobre nós”. Como a oliveira se recusou, as árvores procuraram pela figueira e pela videira e lhes ofereceram o reino, mas depois de sua recusa também, diz o texto que “todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu e reina sobre nós”.[4]  Ao que o espinheiro aceitou, dizendo: “Se deveras me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano”.[5]

Essa narrativa do Livro de Juízes, na hermenêutica hobbesiana, por um lado, apresenta a origem do poder na comunidade, e por outro, o que é o principal para o filósofo, adverte sobre os perigos da desobediência ao poder soberano e de sua principal e mais temível consequência, a guerra civil, a qual Hobbes compara ao espinheiro mencionado na parábola, afirmando que, ou se aceita a soberania absoluta, ou “estaremos preferindo ser consumidos pelo fogo da guerra civil”. [6]

O recurso à alegoria foi utilizado também pelo profeta Natã ao advertir Davi sobre seu adultério com Bate-Seba e a ordem dada sobre a execução de seu marido, Urias.   Natan contou ao rei uma história nestes termos: “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha. Chegou um viajante à casa do rico; e este, não querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado para guisar para o viajante que viera a ele, tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede”.

Após essas palavras do profeta, “a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve compaixão”. E face à sentença do rei, o profeta, hábil na Retórica, lhe disse: “Este homem és tu”.[7] E assim, por meio de sua arte, ele levou o rei a condenar-se a si mesmo, o que indica que há alegorias que são portadoras da verdade .

            Por outro lado, há alegorias que podem ser portadoras de algum preconceito, como na Carta aos Gálatas, quando Paulo usa a expressão “estas coisas são alegóricas” (Gl 4.24), referindo-se a Agar e ao Monte Sinai. A alegoria é concluída com uma expressão que pode ser vista como preconceituosa em relação aos escravos e aos árabes, pois o apóstolo usa a expressão “lançai fora a escrava e seu filho” (Gl 5.30). E como Paulo compara Agar, a escrava, à Arábia, é de se perguntar como os descendentes de Agar, os árabes, interpretaram esse texto ao longo da História, e como seria difícil, em nossos dias, justificar essa alegoria, tanto para eles quanto para os escravos que, simplesmente, são lançados fora por serem escravos.

        O Novo Testamento apresenta ainda diversas outras alegorias, as quais se constituíram em um recurso discursivo tanto para divulgar o evangelho quanto para mantê-lo restrito ao grupo dos discípulos de Jesus. Outras vezes as alegorias se constituíam em simples metáforas, isto é, na troca de um termo por outro, como quando Cristo disse: “Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme” (Mt 9.24), ou ainda nessa provocante narrativa do Quarto Evangelho:

“Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo. Disseram-lhe, pois, os discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo. Jesus, porém, falara com respeito à morte de Lázaro; mas eles supunham que tivesse falado do repouso do sono. Então, Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu” (Jo 11.11-14).

            É de se observar, porém, que em relação à narrativa de Mateus sobre a menina, que Espinosa, assim como Voltaire, negava a possibilidade da ressurreição, afirmando no Tratado Teológico-Político que a menina, de fato, não estava morta, mas dormia, e que Cristo teria apenas feito com que ela se despertasse.

            Ainda a respeito dos diferentes cânones e edições da Bíblia, enquanto os cristãos, católicos e protestantes, adotam um Cânon que inclui a Bíblia Hebraica, ou Antigo Testamento, os judeus não consideram o Novo Testamento como palavra de Deus. Por outro lado, em relação ao Cânon católico, os protestantes consideram diversos livros incluídos no Antigo Testamento como apócrifos. Hobbes afirma, porém, que esses livros “nos são recomendados pela Igreja, embora não como canônicos, como livros proveitosos para nossa instrução”, e com base nisso o filósofo afirma que, se em relação à forma final do Antigo Testamento esses livros merecem crédito, então “as Escrituras foram postas na forma que as conhecemos por Esdras”. [8]

A questão da formação dos textos bíblicos, do que é canônico para os judeus, católicos e protestantes leva-nos a perguntar pela essência mesma da palavra de Deus. Nesse sentido, Thomas Hobbes afirma que aquilo que temos, na realidade, é um testemunho de alguém que afirma que Deus lhe falou ou se lhe revelou. Dessa forma, em última análise, para Hobbes, seria impossível demonstrar, do ponto de vista da Filosofia e da Ciência, o que Deus realmente disse, ficando o crédito ao que dizem os homens sobre Deus, sua natureza, sua revelação etc., por nossa conta e risco.

        Isso não obstante, o filósofo recorre com frequência a textos bíblicos, com base na versão autorizada da versão King James da Bíblia, publicada em 1611, para corroborar seus argumentos e refutar os de seus adversários, principalmente a hermenêutica eclesiástica, visto que a Igreja, alegando ser a portadora da revelação e da interpretação correta das Escrituras, pretendia ser superior ao Estado, provocando a desobediência civil e se opondo à paz. Por isso é possível dizer hoje, utilizando a terminologia de Karl Marx, que a Igreja fazia uma interpretação ideológica das Escrituras. Isso, porém, não se limitou à Igreja católica, mas é recorrente também no Protestantismo.

O segundo método de interpretação citado acima, o tipológico, era usada de forma abundante pelos pais da Igreja, mas já no NT a encontramos em diversos textos. De acordo com Martin Dreher, essa forma de interpretação “é criação da própria comunidade cristã”, que encontrava no AT narrativas que serviam como antecipação daquilo que ainda estava por ocorrer.[9] Diversos textos do AT relativos a Israel serviam como orientação para os cristãos, como o de Paulo aos Coríntios (I, 10: 6,11) que afirma: “Ora, estas coisas se tornaram exemplos (τύποι)para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos (τυπικς) e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado”.

        Assim, na interpretação tipológica, o AT e os eventos nele narrados eram vistos como exemplos ou figuras do que iria se cumprir. A tipologia apresenta, assim, um caráter retórico, pois sua finalidade é convencer os leitores e a audiência de que os textos do AT, além de se referirem a Cristo, apresentam um caráter pedagógico e ético, pois vendo onde Israel errou, os cristãos poderiam orientar-se para não incorrerem em erros semelhantes. É assim que os textos do AT, antes vistos como relativos apenas à religião judaica, foram interpretados de forma a corroborar uma nova religião, o cristianismo.

        Porém, mais tarde, no decorrer da História da Igreja, tanto o AT quanto o NT passaram a ser lidos para justificar as mais diferentes e divergentes visões da religião, tendo a Igreja procurado, através do Magistério, determinar quais interpretações eram autorizadas e corretas, criando uma forma de controle não só de seu rebanho, mas procurando dominar a sociedade e interferir na soberania civil.

Dessa forma, a hermenêutica bíblica passou a ter uma relação direta com a Política. Apesar de Cristo ter dito que o seu reino não é deste mundo, conforme o Quarto Evangelho, a própria natureza das relações sociais leva ao exercício do poder entre os homens, quer se trate de uma instituição religiosa, quer de outra natureza.[10] E assim a Igreja, como toda instituição, adquiriu, por natureza, um caráter político, e acrescendo-se a isso os interesses políticos de seus líderes, veio ela a tornar-se uma instituição controladora das mentalidades, através do Magistério eclesiástico, e do Estado, através de suas interferências nas questões de caráter estritamente política, negando, como representante presumida de Cristo, que o reino deste não é deste mundo, e pretendendo colocar-se acima do Estado e da livre consciência dos cidadãos, de tal forma que, seu controle do cânon, da interpretação da Bíblia e das doutrinas cristãs teve um caráter ideológico, o que demonstra que as relações entre interpretação e ideologias são razoavelmente antigas.

E assim, nessa dialética, como a Bíblia passou a ser utilizada historicamente como um instrumento de justificação do domínio da Igreja não só na esfera religiosa, mas também na civil, com interferências na Filosofia e na Ciência que levaram grandes sábios e pesquisadores à perseguição, prisão e morte, se caminhou para o surgimento de personagens como Guilherme de Ockham, Lutero, que se opôs ao Magistério Eclesiástico e propôs o livre-exame da Bíblia, Espinosa, que atrevidamente mostrou que o profeta Isaías chamou ao Egito de povo de Deus, e Hobbes, que procurou fazer um retorno às coisas mesmas e mostrar que o objetivo principal do texto bíblico é levar os homens ao Reino de Deus, não a justificação do poder eclesiástico, que pretendeu colocar-se acima do poder civil.

        Quanto a Espinosa, erudito filósofo judeu, que disse que a Bíblia não deve ser lida com referências à Filosofia de Platão, como fazia Agostinho, ou de Aristóteles, "o filósofo" para Santo Tomás, o texto de Isaías citado por ele amplia a noção de povo de Deus, chegando a ser irônico:


 “Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra; porque o Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança”. [11]

Esse trecho de Isaías passa despercebido da maioria dos leitores da Bíblia, pois o Egito é sempre lembrado como a terra da escravidão, contra a qual Deus levantou a sua mão poderosa para resgatar a Israel. Porém, na própria História da Revelação ou do conhecimento de Deus há uma evolução, a qual é omitida pelas interpretações oficiais e tradicionais. E se não fosse a perícia de Espinosa, esse trecho de Isaías citado no Tratado Teológico-Político jamais seria notado pela maioria dos leitores. 

Por isso verifica-se claramente o poder das interpretações sedimentadas da Bíblia e a necessidade de se voltar às coisas mesmas, lendo-a fenomenologicamente, não que se desprezem, necessariamente, as interpretações já consagradas, mas procurando chegar à essência do significado do texto. 

[1] Karl H. Schelkle, Teologia do Novo Testamento, V.1: Sua História literária e teológica. S. Paulo: Loyola, 1971, p. 15.
[2] Martin N. Dreher. Bíblia: suas leituras e interpretações na História do Cristianismo. São Leopoldo: CEBI: Sinodal, 2006, p. 7.
[3] Justino de Roma. I Apologia. S. Paulo: 1995. Trad. de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin (http://www.ictis.cjb.net, acesso em 16/06/2017).
[4] Jz 9. 12
[5] Jz 9.16 
[6] Th. Hobbes. Do Cidadão. (conferir nota, exemplar do livro Do Cidadão do Unifai – ver na USP))
[7] Todas as citações estão em II Sm 12.1-7
[8] Leviatã, p. 229, onde o autor cita II Ed 14. Textos apócrifos são citados também em Do Cidadão.
[9] Martin Dreher, op. cit.,  p. 8.
[10] “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus”. (Jo 18.36)
[11] Is 19: 24-25.


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