quinta-feira, 29 de junho de 2017



A Retórica e a Hermenêutica Política da Bíblia
no Pensamento de Thomas Hobbes
Autor: Isaar Soares de Carvalho.
Supervisora de Pesquisa: Profa. Dra. Lineide Salvador Mosca
I Congresso de Pós-Doutorandos da USP – 29 de Junho de 2017


Objetivos

Demonstrar como Hobbes valorizou a Retórica e como encontrou uma nova chave hermenêutica da Bíblia, lendo-a na perspectiva da Política, mostrando que teses como a teoria do consentimento, a soberania absoluta e a submissão da Religião ao Estado são corroboradas com base na Filosofia e nas Escrituras. Alertar para o perigo do uso indevido da Retórica e da Bíblia na justificação de ideologias políticas, especialmente o Absolutismo e o Estado de Exceção.

 I - A importância da Retórica para Hobbes

 Ao estudar as “disciplinas canônicas dos studia humanitatis: gramática, retórica, poesia, história e filosofia civil”, Hobbes tinha um objetivo claro: “Minha meta, afirma, não era aprender a escrever com floreios, mas sim aprender a escrever num estilo autenticamente latino, e ao mesmo tempo, descobrir quais eram exatamente as palavras dotadas do poder que mais se adequava aos meus pensamentos” (Skinner, p. 310). Hobbes traduziu a Arte Retórica de Aristóteles para o Latim e fez sua primeira tradução para o Inglês, em 1637. Tratava-se de uma versão resumida, reformulada e complementada por Hobbes. Seu editor afirmou que era obra indispensável para quem buscasse um "compêndio das artes da lógica e da retórica em Língua Inglesa" (Skinner, p. 318). Apesar de ter afirmado que os defensores da democracia e do parlamentarismo eram retóricos, ele reconheceu a importância da Retórica, não só fazendo a citada tradução, mas aplicando tal arte em sua obra, em busca da adesão do leitor. Tratou seus adversários, porém, em diversos trechos do Leviatã (1651) com extrema ironia e sarcasmo, mas na edição latina da obra, publicada em 1668, foi mais cordial.

II – A Hermenêutica Bíblica na Perspectiva da Política

Hobbes buscou persuadir os leitores das teses fundamentais de seu pensamento político com referências constantes à Bíblia, principalmente nas obras Do Cidadão e Leviatã. A definição das leis de natureza é feita com referência à Bíblia, pois ao dizer leis “como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam”, está lembrando uma afirmação bíblica popular: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Leviatã, Cap. XVII e Ev. de Lc 6.31). No Leviatã a Bíblia é citada logo na capa, com esta afirmação do Livro de Jó, sobre o poder absoluto do Estado: “Não há poder na Terra que se lhe compare”, a qual pode ser usada em relação à preservação da paz civil e para legitimar a ausência de limites do soberano, visto que o poder lhe foi conferido através de um pacto de sujeição absoluta, tese adotada por defensores do Estado de Exceção no Século XX e por diversos atores políticos das atuais democracias.

 III – Hermenêutica Bíblica e Ideologia

A) O súdito como autor dos atos do soberano: Urias seria responsável por sua própria execução?
Considerando que “cada súdito é autor de todos os atos praticados pelo soberano”, e que “nada que o soberano representante faça a um súdito pode ser propriamente chamado injustiça ou injúria”, para Hobbes a morte de Urias, ordenada por Davi, “não foi uma injúria feita a Urias, mas sim Deus”. Por isso Davi se penitenciou: “Somente contra Vós pequei”, isto é, ele pecou contra Deus. Porém, como rei, podia dispor da vida de Urias sem crime, pois para Hobbes os súditos, ao conferirem poder absoluto ao soberano, tornam-se autores do que este faz (Leviatã, XVI e XXI).

B) Invertendo o sentido do texto para justificar a soberania absoluta ou: Samuel ao contrário

O profeta  O Samuel preveniu a Israel dos perigos da monarquia, dizendo: “Estes serão os direitos do rei: ele tomará os vossos filhos, tomará as vossas filhas, tomará o melhor das vossas lavouras e o dará aos seus servidores, também tomará os vossos servos e os vossos melhores jovens, dizimará o vosso rebanho e vós lhe sereis por servos” (I Sm 8), mas Hobbes fez uma leitura inversa às críticas do profeta, afirmando: “Onde a autoridade do rei melhor está definida é nas palavras de Deus mesmo. E um tal poder não é absoluto? E no entanto foi Deus mesmo quem o chamou de o direito do rei” (Do Cidadão, XI). Considerações Finais O pensamento de Hobbes é de grande relevância em relação à preservação da paz, pois a soberania era ameaçada pelas pretensões políticas da Igreja, que alegava ser guardiã da interpretação da Bíblia e portadora das chaves do Reino de Deus, pretendendo colocar-se acima do Estado. Hobbes, porém, leu a Bíblia procurando tanto preservar a paz civil quanto corroborar seus argumentos em da soberania absoluta. Para ele, a interpretação da Bíblia e a definição das doutrinas deveriam atender à paz, não importando a verdade da doutrina. Sua hermenêutica, assim, é instrumental, e faz parte, como a Retórica, da busca da adesão do leitor. Guardados alguns de seus exageros, tanto na Retórica quanto na Hermenêutica, seu pensamento continuará a ser uma grande referência teórica na Filosofia Política.

Bibliografia abreviada

Obras de HOBBES: 
Do Cidadão. Tradução, introdução e notas: Renato J. Ribeiro S. Paulo: Martins Fontes, 2002.
Leviatã. Trad. de João P. Monteiro e Maria B. N. da Silva. 2. ed. S. Paulo: Abril,1979.
Behemoth. Versão francesa de Pierre Naville. Paris: Plon, 1989

Outras obras:

HILL, C. A Bíblia inglesa e as revoluções do Século XVII. Trad. C. Marques. S. P. Record, 2003.
JOHNSTON, David. The Rhetoric of Leviathan Thomas Hobbes and the politics of cultural transformation. Princeton University Press,1986
LESSAY, Franck. Thomas Hobbes. Hérésie et histoire. Paris: Vrin, 1993.
MOSCA, Lineide S. (Org.). Retóricas de ontem e de hoje. 2. ed. S.Paulo: Humanitas, 2001.
PACCHI, Arrigo. Thomas Hobbes Scritti Teologici. Milano, Franco Angeli, 1990.
RIBEIRO, R. J. “Thomas Hobbes o la paz contra el clero”. Buenos Aires, CLACSO, 2003.
--------- Ao Leitor sem Medo. Hobbes escrevendo contra o seu tempo. S. P.: Brasiliense, 1984.
SKINNER, Q. Razão e Retórica na Filosofia de Hobbes. Trad. Vera Ribeiro S. P. Edunesp, 1999.
King James Bible Version. Salt L. City: The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 1979.,

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