sexta-feira, 25 de agosto de 2017


Hermenêutica, Cânones Bíblicos, Ideologia e o Retorno às Coisas Mesmas.

À memória das vítimas dos naufrágios no Pará e na Bahia.

Deve-se observar que a Hermenêutica surgiu originalmente como uma disciplina dedicada ao estudo dos princípios da interpretação bíblica. Sua primeira finalidade, bem como dos métodos exegéticos empregados na interpretação, tem sido a descoberta do significado dos textos sagrados e sua aplicação ao contexto dos ouvintes através da História. Alguns textos são de interpretação simples, outros demandam um grande esforço exegético, com o auxílio de conhecimentos das áreas de História, Arqueologia, Antropologia, Sociologia, Política, Filosofia, História das Religiões e outras áreas do conhecimento.

Uma primeira questão que se deve colocar em relação à Hermenêutica Bíblica é a que diz respeito à definição do Cânon bíblico e dos livros que foram selecionados para compô-lo. Para ficar apenas nos principais em nosso contexto cultural e histórico, lembremos que há uma Bíblia Hebraica, com 39 livros; uma Bíblia Católica, com 74 livros, sendo 47 deles no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento e uma Bíblia Protestante, com 66 livros, sendo 39 deles no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento (estes 27 são os mesmos do cânon católico).  

        A questão do cânon incomodou também a Lutero, o qual, de acordo com Karl H. Schelkle, “embora conservasse como Sagrada Escritura os 27 livros tradicionais do Novo Testamento, contudo, começou uma apreciação crítica, julgando-os sob o ponto de vista de ‘se ocuparem de Cristo’. Conforme isso, escritos como a Epístola aos Hebreus, a Epístola de S. Tiago, a Epístola de S. Judas e o Apocalipse de São João pareciam-lhe ser de menor valor. Por isso, colocou-os no fim do seu Novo Testamento”.[1]

        Há diversas questões hermenêuticas que se colocam em relação à definição de cada Cânon. Os primeiros cristãos tinham como Bíblia ou Escritura os livros do Antigo Testamento, ou seja, a Bíblia Hebraica, e faziam a sua leitura em relação a Cristo, a fim de confirmar, com base em diversos textos, que ele era o Messias prometido, de tal modo que as primeiras comunidades cristãs, lendo o AT em relação a Cristo, consideravam-se como o novo Israel. Paulo afirma na Epístola aos Gálatas: “Paz e misericórdia sejam sobre eles e sobre o Israel de Deus” (Gl 6.16). Nesse sentido, Justino afirmou no século II: “Nós somos aquele povo que Deus outrora prometeu a Abraão”.[2] Ele está de acordo com os Evangelhos em relação à leitura do Antigo testamento sobre Cristo, afirmando categoricamente que “nos livros dos Profetas, de fato, encontramos Jesus, o nosso Cristo”.[3]

A leitura do AT era feita com a adoção de dois métodos de interpretação: o alegórico e o tipológico. O primeiro já estava presente no próprio Judaísmo, mas os cristãos encontraram no AT vários textos que, em sua interpretação, referiam-se a Cristo. O próprio Cristo se valeu com frequência das alegorias. Um exemplo lapidar pode ser verificado na narrativa, presente nos três Evangelhos sinóticos, sobre o semeador, na qual a atenção maior é dada aos tipos de solo que receberam a semente, isto é, aos ouvintes e às suas diferentes reações diante da proclamação do Reino de Deus.

         As alegorias sobre a natureza são frequentes no AT. Há uma que é citada por Hobbes na obra Do Cidadão, quando o filósofo, para corroborar seu argumento sobre os problemas advindos da falta de soberania e dos perigos da guerra civil, recorre ao Livro de Juízes, no qual se encontra uma narrativa sobre o desinteresse dos israelitas pelo exercício do governo e as consequências disso para a sociedade. O autor do texto bíblico usa uma símile sobre as árvores que, em busca de um rei, disseram à oliveira: “Vem tu e reina sobre nós”. Como a oliveira se recusou, as árvores procuraram pela figueira e pela videira e lhes ofereceram o reino, mas depois de sua recusa também, diz o texto que “todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu e reina sobre nós”.[4]  Ao que o espinheiro aceitou, dizendo: “Se deveras me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano”.[5]

Essa narrativa do Livro de Juízes, na hermenêutica hobbesiana, por um lado, apresenta a origem do poder na comunidade, e por outro, o que é o principal para o filósofo, adverte sobre os perigos da desobediência ao poder soberano e de sua principal e mais temível consequência, a guerra civil, a qual Hobbes compara ao espinheiro mencionado na parábola, afirmando que, ou se aceita a soberania absoluta, ou “estaremos preferindo ser consumidos pelo fogo da guerra civil”. [6]

O recurso à alegoria foi utilizado também pelo profeta Natã ao advertir Davi sobre seu adultério com Bate-Seba e a ordem dada sobre a execução de seu marido, Urias.   Natan contou ao rei uma história nestes termos: “Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha. Chegou um viajante à casa do rico; e este, não querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado para guisar para o viajante que viera a ele, tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede”.

Após essas palavras do profeta, “a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve compaixão”. E face à sentença do rei, o profeta, hábil na Retórica, lhe disse: “Este homem és tu”.[7] E assim, por meio de sua arte, ele levou o rei a condenar-se a si mesmo, o que indica que há alegorias que são portadoras da verdade .

            Por outro lado, há alegorias que podem ser portadoras de algum preconceito, como na Carta aos Gálatas, quando Paulo usa a expressão “estas coisas são alegóricas” (Gl 4.24), referindo-se a Agar e ao Monte Sinai. A alegoria é concluída com uma expressão que pode ser vista como preconceituosa em relação aos escravos e aos árabes, pois o apóstolo usa a expressão “lançai fora a escrava e seu filho” (Gl 5.30). E como Paulo compara Agar, a escrava, à Arábia, é de se perguntar como os descendentes de Agar, os árabes, interpretaram esse texto ao longo da História, e como seria difícil, em nossos dias, justificar essa alegoria, tanto para eles quanto para os escravos que, simplesmente, são lançados fora por serem escravos.

        O Novo Testamento apresenta ainda diversas outras alegorias, as quais se constituíram em um recurso discursivo tanto para divulgar o evangelho quanto para mantê-lo restrito ao grupo dos discípulos de Jesus. Outras vezes as alegorias se constituíam em simples metáforas, isto é, na troca de um termo por outro, como quando Cristo disse: “Retirai-vos, porque não está morta a menina, mas dorme” (Mt 9.24), ou ainda nessa provocante narrativa do Quarto Evangelho:

“Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo. Disseram-lhe, pois, os discípulos: Senhor, se dorme, estará salvo. Jesus, porém, falara com respeito à morte de Lázaro; mas eles supunham que tivesse falado do repouso do sono. Então, Jesus lhes disse claramente: Lázaro morreu” (Jo 11.11-14).

            É de se observar, porém, que em relação à narrativa de Mateus sobre a menina, que Espinosa, assim como Voltaire, negava a possibilidade da ressurreição, afirmando no Tratado Teológico-Político que a menina, de fato, não estava morta, mas dormia, e que Cristo teria apenas feito com que ela se despertasse.

            Ainda a respeito dos diferentes cânones e edições da Bíblia, enquanto os cristãos, católicos e protestantes, adotam um Cânon que inclui a Bíblia Hebraica, ou Antigo Testamento, os judeus não consideram o Novo Testamento como palavra de Deus. Por outro lado, em relação ao Cânon católico, os protestantes consideram diversos livros incluídos no Antigo Testamento como apócrifos. Hobbes afirma, porém, que esses livros “nos são recomendados pela Igreja, embora não como canônicos, como livros proveitosos para nossa instrução”, e com base nisso o filósofo afirma que, se em relação à forma final do Antigo Testamento esses livros merecem crédito, então “as Escrituras foram postas na forma que as conhecemos por Esdras”. [8]

A questão da formação dos textos bíblicos, do que é canônico para os judeus, católicos e protestantes leva-nos a perguntar pela essência mesma da palavra de Deus. Nesse sentido, Thomas Hobbes afirma que aquilo que temos, na realidade, é um testemunho de alguém que afirma que Deus lhe falou ou se lhe revelou. Dessa forma, em última análise, para Hobbes, seria impossível demonstrar, do ponto de vista da Filosofia e da Ciência, o que Deus realmente disse, ficando o crédito ao que dizem os homens sobre Deus, sua natureza, sua revelação etc., por nossa conta e risco.

        Isso não obstante, o filósofo recorre com frequência a textos bíblicos, com base na versão autorizada da versão King James da Bíblia, publicada em 1611, para corroborar seus argumentos e refutar os de seus adversários, principalmente a hermenêutica eclesiástica, visto que a Igreja, alegando ser a portadora da revelação e da interpretação correta das Escrituras, pretendia ser superior ao Estado, provocando a desobediência civil e se opondo à paz. Por isso é possível dizer hoje, utilizando a terminologia de Karl Marx, que a Igreja fazia uma interpretação ideológica das Escrituras. Isso, porém, não se limitou à Igreja católica, mas é recorrente também no Protestantismo.

O segundo método de interpretação citado acima, o tipológico, era usada de forma abundante pelos pais da Igreja, mas já no NT a encontramos em diversos textos. De acordo com Martin Dreher, essa forma de interpretação “é criação da própria comunidade cristã”, que encontrava no AT narrativas que serviam como antecipação daquilo que ainda estava por ocorrer.[9] Diversos textos do AT relativos a Israel serviam como orientação para os cristãos, como o de Paulo aos Coríntios (I, 10: 6,11) que afirma: “Ora, estas coisas se tornaram exemplos (τύποι)para nós, a fim de que não cobicemos as coisas más, como eles cobiçaram. Estas coisas lhes sobrevieram como exemplos (τυπικς) e foram escritas para advertência nossa, de nós outros sobre quem os fins dos séculos têm chegado”.

        Assim, na interpretação tipológica, o AT e os eventos nele narrados eram vistos como exemplos ou figuras do que iria se cumprir. A tipologia apresenta, assim, um caráter retórico, pois sua finalidade é convencer os leitores e a audiência de que os textos do AT, além de se referirem a Cristo, apresentam um caráter pedagógico e ético, pois vendo onde Israel errou, os cristãos poderiam orientar-se para não incorrerem em erros semelhantes. É assim que os textos do AT, antes vistos como relativos apenas à religião judaica, foram interpretados de forma a corroborar uma nova religião, o cristianismo.

        Porém, mais tarde, no decorrer da História da Igreja, tanto o AT quanto o NT passaram a ser lidos para justificar as mais diferentes e divergentes visões da religião, tendo a Igreja procurado, através do Magistério, determinar quais interpretações eram autorizadas e corretas, criando uma forma de controle não só de seu rebanho, mas procurando dominar a sociedade e interferir na soberania civil.

Dessa forma, a hermenêutica bíblica passou a ter uma relação direta com a Política. Apesar de Cristo ter dito que o seu reino não é deste mundo, conforme o Quarto Evangelho, a própria natureza das relações sociais leva ao exercício do poder entre os homens, quer se trate de uma instituição religiosa, quer de outra natureza.[10] E assim a Igreja, como toda instituição, adquiriu, por natureza, um caráter político, e acrescendo-se a isso os interesses políticos de seus líderes, veio ela a tornar-se uma instituição controladora das mentalidades, através do Magistério eclesiástico, e do Estado, através de suas interferências nas questões de caráter estritamente política, negando, como representante presumida de Cristo, que o reino deste não é deste mundo, e pretendendo colocar-se acima do Estado e da livre consciência dos cidadãos, de tal forma que, seu controle do cânon, da interpretação da Bíblia e das doutrinas cristãs teve um caráter ideológico, o que demonstra que as relações entre interpretação e ideologias são razoavelmente antigas.

E assim, nessa dialética, como a Bíblia passou a ser utilizada historicamente como um instrumento de justificação do domínio da Igreja não só na esfera religiosa, mas também na civil, com interferências na Filosofia e na Ciência que levaram grandes sábios e pesquisadores à perseguição, prisão e morte, se caminhou para o surgimento de personagens como Guilherme de Ockham, Lutero, que se opôs ao Magistério Eclesiástico e propôs o livre-exame da Bíblia, Espinosa, que atrevidamente mostrou que o profeta Isaías chamou ao Egito de povo de Deus, e Hobbes, que procurou fazer um retorno às coisas mesmas e mostrar que o objetivo principal do texto bíblico é levar os homens ao Reino de Deus, não a justificação do poder eclesiástico, que pretendeu colocar-se acima do poder civil.

        Quanto a Espinosa, erudito filósofo judeu, que disse que a Bíblia não deve ser lida com referências à Filosofia de Platão, como fazia Agostinho, ou de Aristóteles, "o filósofo" para Santo Tomás, o texto de Isaías citado por ele amplia a noção de povo de Deus, chegando a ser irônico:


 “Naquele dia, Israel será o terceiro com os egípcios e os assírios, uma bênção no meio da terra; porque o Senhor dos Exércitos os abençoará, dizendo: Bendito seja o Egito, meu povo, e a Assíria, obra de minhas mãos, e Israel, minha herança”. [11]

Esse trecho de Isaías passa despercebido da maioria dos leitores da Bíblia, pois o Egito é sempre lembrado como a terra da escravidão, contra a qual Deus levantou a sua mão poderosa para resgatar a Israel. Porém, na própria História da Revelação ou do conhecimento de Deus há uma evolução, a qual é omitida pelas interpretações oficiais e tradicionais. E se não fosse a perícia de Espinosa, esse trecho de Isaías citado no Tratado Teológico-Político jamais seria notado pela maioria dos leitores. 

Por isso verifica-se claramente o poder das interpretações sedimentadas da Bíblia e a necessidade de se voltar às coisas mesmas, lendo-a fenomenologicamente, não que se desprezem, necessariamente, as interpretações já consagradas, mas procurando chegar à essência do significado do texto. 

[1] Karl H. Schelkle, Teologia do Novo Testamento, V.1: Sua História literária e teológica. S. Paulo: Loyola, 1971, p. 15.
[2] Martin N. Dreher. Bíblia: suas leituras e interpretações na História do Cristianismo. São Leopoldo: CEBI: Sinodal, 2006, p. 7.
[3] Justino de Roma. I Apologia. S. Paulo: 1995. Trad. de Ivo Storniolo e Euclides M. Balancin (http://www.ictis.cjb.net, acesso em 16/06/2017).
[4] Jz 9. 12
[5] Jz 9.16 
[6] Th. Hobbes. Do Cidadão. (conferir nota, exemplar do livro Do Cidadão do Unifai – ver na USP))
[7] Todas as citações estão em II Sm 12.1-7
[8] Leviatã, p. 229, onde o autor cita II Ed 14. Textos apócrifos são citados também em Do Cidadão.
[9] Martin Dreher, op. cit.,  p. 8.
[10] “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus”. (Jo 18.36)
[11] Is 19: 24-25.


quinta-feira, 29 de junho de 2017



A Retórica e a Hermenêutica Política da Bíblia
no Pensamento de Thomas Hobbes
Autor: Isaar Soares de Carvalho.
Supervisora de Pesquisa: Profa. Dra. Lineide Salvador Mosca
I Congresso de Pós-Doutorandos da USP – 29 de Junho de 2017


Objetivos

Demonstrar como Hobbes valorizou a Retórica e como encontrou uma nova chave hermenêutica da Bíblia, lendo-a na perspectiva da Política, mostrando que teses como a teoria do consentimento, a soberania absoluta e a submissão da Religião ao Estado são corroboradas com base na Filosofia e nas Escrituras. Alertar para o perigo do uso indevido da Retórica e da Bíblia na justificação de ideologias políticas, especialmente o Absolutismo e o Estado de Exceção.

 I - A importância da Retórica para Hobbes

 Ao estudar as “disciplinas canônicas dos studia humanitatis: gramática, retórica, poesia, história e filosofia civil”, Hobbes tinha um objetivo claro: “Minha meta, afirma, não era aprender a escrever com floreios, mas sim aprender a escrever num estilo autenticamente latino, e ao mesmo tempo, descobrir quais eram exatamente as palavras dotadas do poder que mais se adequava aos meus pensamentos” (Skinner, p. 310). Hobbes traduziu a Arte Retórica de Aristóteles para o Latim e fez sua primeira tradução para o Inglês, em 1637. Tratava-se de uma versão resumida, reformulada e complementada por Hobbes. Seu editor afirmou que era obra indispensável para quem buscasse um "compêndio das artes da lógica e da retórica em Língua Inglesa" (Skinner, p. 318). Apesar de ter afirmado que os defensores da democracia e do parlamentarismo eram retóricos, ele reconheceu a importância da Retórica, não só fazendo a citada tradução, mas aplicando tal arte em sua obra, em busca da adesão do leitor. Tratou seus adversários, porém, em diversos trechos do Leviatã (1651) com extrema ironia e sarcasmo, mas na edição latina da obra, publicada em 1668, foi mais cordial.

II – A Hermenêutica Bíblica na Perspectiva da Política

Hobbes buscou persuadir os leitores das teses fundamentais de seu pensamento político com referências constantes à Bíblia, principalmente nas obras Do Cidadão e Leviatã. A definição das leis de natureza é feita com referência à Bíblia, pois ao dizer leis “como a justiça, a equidade, a modéstia, a piedade, ou, em resumo, fazer aos outros o que queremos que nos façam”, está lembrando uma afirmação bíblica popular: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles” (Leviatã, Cap. XVII e Ev. de Lc 6.31). No Leviatã a Bíblia é citada logo na capa, com esta afirmação do Livro de Jó, sobre o poder absoluto do Estado: “Não há poder na Terra que se lhe compare”, a qual pode ser usada em relação à preservação da paz civil e para legitimar a ausência de limites do soberano, visto que o poder lhe foi conferido através de um pacto de sujeição absoluta, tese adotada por defensores do Estado de Exceção no Século XX e por diversos atores políticos das atuais democracias.

 III – Hermenêutica Bíblica e Ideologia

A) O súdito como autor dos atos do soberano: Urias seria responsável por sua própria execução?
Considerando que “cada súdito é autor de todos os atos praticados pelo soberano”, e que “nada que o soberano representante faça a um súdito pode ser propriamente chamado injustiça ou injúria”, para Hobbes a morte de Urias, ordenada por Davi, “não foi uma injúria feita a Urias, mas sim Deus”. Por isso Davi se penitenciou: “Somente contra Vós pequei”, isto é, ele pecou contra Deus. Porém, como rei, podia dispor da vida de Urias sem crime, pois para Hobbes os súditos, ao conferirem poder absoluto ao soberano, tornam-se autores do que este faz (Leviatã, XVI e XXI).

B) Invertendo o sentido do texto para justificar a soberania absoluta ou: Samuel ao contrário

O profeta  O Samuel preveniu a Israel dos perigos da monarquia, dizendo: “Estes serão os direitos do rei: ele tomará os vossos filhos, tomará as vossas filhas, tomará o melhor das vossas lavouras e o dará aos seus servidores, também tomará os vossos servos e os vossos melhores jovens, dizimará o vosso rebanho e vós lhe sereis por servos” (I Sm 8), mas Hobbes fez uma leitura inversa às críticas do profeta, afirmando: “Onde a autoridade do rei melhor está definida é nas palavras de Deus mesmo. E um tal poder não é absoluto? E no entanto foi Deus mesmo quem o chamou de o direito do rei” (Do Cidadão, XI). Considerações Finais O pensamento de Hobbes é de grande relevância em relação à preservação da paz, pois a soberania era ameaçada pelas pretensões políticas da Igreja, que alegava ser guardiã da interpretação da Bíblia e portadora das chaves do Reino de Deus, pretendendo colocar-se acima do Estado. Hobbes, porém, leu a Bíblia procurando tanto preservar a paz civil quanto corroborar seus argumentos em da soberania absoluta. Para ele, a interpretação da Bíblia e a definição das doutrinas deveriam atender à paz, não importando a verdade da doutrina. Sua hermenêutica, assim, é instrumental, e faz parte, como a Retórica, da busca da adesão do leitor. Guardados alguns de seus exageros, tanto na Retórica quanto na Hermenêutica, seu pensamento continuará a ser uma grande referência teórica na Filosofia Política.

Bibliografia abreviada

Obras de HOBBES: 
Do Cidadão. Tradução, introdução e notas: Renato J. Ribeiro S. Paulo: Martins Fontes, 2002.
Leviatã. Trad. de João P. Monteiro e Maria B. N. da Silva. 2. ed. S. Paulo: Abril,1979.
Behemoth. Versão francesa de Pierre Naville. Paris: Plon, 1989

Outras obras:

HILL, C. A Bíblia inglesa e as revoluções do Século XVII. Trad. C. Marques. S. P. Record, 2003.
JOHNSTON, David. The Rhetoric of Leviathan Thomas Hobbes and the politics of cultural transformation. Princeton University Press,1986
LESSAY, Franck. Thomas Hobbes. Hérésie et histoire. Paris: Vrin, 1993.
MOSCA, Lineide S. (Org.). Retóricas de ontem e de hoje. 2. ed. S.Paulo: Humanitas, 2001.
PACCHI, Arrigo. Thomas Hobbes Scritti Teologici. Milano, Franco Angeli, 1990.
RIBEIRO, R. J. “Thomas Hobbes o la paz contra el clero”. Buenos Aires, CLACSO, 2003.
--------- Ao Leitor sem Medo. Hobbes escrevendo contra o seu tempo. S. P.: Brasiliense, 1984.
SKINNER, Q. Razão e Retórica na Filosofia de Hobbes. Trad. Vera Ribeiro S. P. Edunesp, 1999.
King James Bible Version. Salt L. City: The Church of Jesus Christ of Latter-day Saints, 1979.,

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Prefácio de minha Tese de Doutorado



  Isaar Soares de Carvalho
Enfrentando o inimigo com as suas próprias armas: a presença e a importância das Escrituras na argumentação de Thomas Hobbes
Tese de Doutorado em Filosofia - IFCH - UNICAMP - 2012

PREFÁCIO

             Na Dedicatória do Leviatã encontra-se uma afirmação que nos servirá de base para a verificação de como, em sua Filosofia Política, Hobbes corrobora seus argumentos sobre a soberania civil e suas relações com a religião adotando uma nova hermenêutica das Escrituras, visando a demonstração de que todas as esferas da vida social, inclusive a religião, devem subordinar-se à autoridade civil. A afirmação à qual nos referimos é a seguinte:

O que talvez possa ser tomado como grande ofensa são certos textos das Sagradas Escrituras, por mim usados com uma finalidade diferente da que geralmente por outros é visada. Mas fi-lo com a devida submissão. E também, dado ao meu assunto, porque tal era necessário. Pois eles são as fortificações avançadas do inimigo, de onde este impugna o poder civil.[1]


A ideia central dessa afirmação aparecerá ao longo do texto do Leviatã, e a obra se encerrará com a afirmação, dirigida tanto à Igreja quanto ao poder civil, de que “a verdade que não se opõe aos interesses ou aos prazeres de ninguém é bem recebida por todos”. [2] Afirmação com a qual ele confirmava seu interesse em preservar a paz e a liberdade civil numa época marcada pelos conflitos políticos e religiosos e pelo risco da guerra civil.
Em seu pensamento político o maior inimigo a vencer era a Igreja, devido às suas pretensões políticas e à sua interferência na consecução da paz civil. Para enfrentar esse inimigo, Hobbes tanto argumentou na área da filosofia política quanto estabeleceu inferências a partir de textos bíblicos, ignorados ou lidos de forma tendenciosa pela Igreja que, considerando-se a guardiã dos mistérios de Deus e da interpretação das Escrituras, usurpou aos fiéis o livre-exame e pretendeu usurpar o próprio poder civil.
Partindo das críticas de Hobbes ao uso que a Igreja fazia das Escrituras para, aparentemente, justificar-se enquanto instituição que tinha um poder universal, acima da própria soberania civil, pretendemos demonstrar que é relevante do ponto de vista teórico uma leitura de Hobbes em relação à sua hermenêutica dos textos bíblicos. Ele pode ser relido sob a hipótese de que seu antipapismo tinha em mira a paz civil e o gozo da vida. Libertar-se das diversas formas de domínio do Papado, que controlava as consciências, deixando o cidadão em dúvida sobre a obediência ao poder civil ou à autoridade eclesiástica, que interferia na própria sucessão política, era fundamental para isso.[3] Sua obra, portanto, é libertadora das consciências.
O Papa, alegando representar o Cristo, ser seu “vigário”, isto é, seu substituto, pretendia sobrepor-se ao poder civil. O poder da Igreja, exercido sobre todos os fiéis, se estenderia sobre os próprios soberanos civis, os quais, de acordo com a hierarquia eclesiástica, deveriam portar-se não como soberanos, mas como membros do rebanho sujeitos aos dogmas. Dessa forma, tanto um soberano civil quanto uma nação toda estavam sujeitos à excomunhão. A soberania, porém, não seria possível sem a obediência ao poder civil. E como o Papa emulava os cristãos à desobediência, e ao mesmo tempo os ameaçava com as penas eternas, as pessoas chegavam a um ponto em que não sabiam mais a quem obedecer, e como a autoridade civil poderia ameaçar apenas sua integridade física, e a Igreja alegava que tinha as chaves da vida eterna e as “chaves da morte e do inferno” nas mãos, era possível que os cidadãos colocassem em primeiro lugar sua pertença à Cidade de Deus, não à Cidade do Homem, desobedecendo assim ao poder civil. [4]
Hobbes se dirigia a um público que conhecia as Escrituras, quer fosse pelo hábito de ouvir as doutrinas dos púlpitos, quer fosse pela leitura devocional, pela leitura oficial da Igreja ou pela leitura erudita. Ele se dirigia também a quem tinha uma mentalidade nova, devido às novas concepções do homem e do mundo, às mudanças científicas, políticas, religiosas e ideológicas, bem como às conhecidas lutas intestinas na Inglaterra pela hegemonia.
            Hobbes escreve a um público amplo, de um lado formado por pessoas conhecedoras da Ciência e da Filosofia, e de outro por leitores das Escrituras, da tradição escolástica do poder inquisitorial da Igreja. Não é sem razão, portanto, que ele se dedica a esclarecer suas teses na obra Do Cidadão e no Leviatã tanto em relação à Filosofia Política quanto à Religião. Richard Tuck dá tamanha importância ao trato da Religião em suas obras que afirma que, “segundo Hobbes, a área mais importante de potencial intervenção do soberano é a religião”.[5] E Renato Janine Ribeiro afirma que a paz civil, na interpretação hobbesiana, só seria possível com a concentração, nas mãos do soberano, do poder civil e do religioso, o que pode ser verificado na própria ilustração da capa da obra Leviatã: o soberano, um deus mortal, um grande homem concebido à imagem dos pequenos homens, tem em sua mão direita uma espada e em sua mão esquerda um báculo.  E de acordo com sua leitura, o maior alvo da argumentação política de Hobbes em prol da paz civil, da liberdade e da soberania é a Igreja. [6] 
Assim, examinaremos como na obra de Hobbes pode-se encontrar uma nova chave hermenêutica para a leitura das Escrituras: a da perscrutação de seus raciocínios de caráter político. Como exímio estrategista, ele fez frente ao poder eclesiástico utilizando, de forma demonstrativa, a arma que subordinava o poder civil à Igreja, objetivando que esta reconhecesse seu devido lugar, o de subordinada dele, que é absoluto, pois se tivesse qualquer poder acima de si, não seria soberano.
            Nosso propósito, portanto, é o de, na linha da proposta de Hobbes para que se faça um cotejo de suas teses, seja com a experiência, seja através da própria introspecção, para que as comprovemos ou neguemos, observar que ele estabelece um diálogo constante, também, com o leitor de seu tempo que conhecia as Escrituras, e, principalmente, um enfrentamento da Igreja, e mais que isso, um enfrentamento original, com argumentos retirados das próprias Escrituras, das quais a Igreja pretendia ser a guardiã e única intérprete.



(Texto completo disponível no site da Biblioteca do IFCH-UNICAMP)

[1] Leviatã, 2. ed., 1979, p. 3. (Os Pensadores).
[2] Idem, Revisão e Conclusão, p. 410.
[3] Cf. Behemoth, traduit et présenté par Pierre Naville. Paris: 1989, p. 59.  
[4] A expressão “chaves da morte e do inferno”, atribuída a Cristo, aparece em Ap 1.18: “Eu sou o primeiro e o último... Eis que estou vivo pelos séculos dos séculos, e tenho nas mãos as chaves da morte e do inferno”. Esse poder, no entanto, era atribuído pela Igreja ao Papa, o vigário ou substituto de Cristo, que pretendia ter um domínio universal.
[5] Richard Tuck, Introdução ao Leviatã, S. Paulo: 2002, p. XLV-XLVI.
[6] Renato Janine Ribeiro, “Thomas Hobbes o la paz contra el clero”, in: Atílio A. Boron (Comp.) La Filosofía Política Moderna. Buenos Aires: 2003.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

O conhecimento de Deus e as relaçoes entre Política e Religião em Hobbes


Aos interessados em Filosofia da Religião e na teoria da Soberania, compartilho o Cap. IV de minha tese de doutorado em Filosofia pela Unicamp, defendida em 2012.
Prof. Dr. Isaar Soares de Carvalho.


            Quanto à Religião, Hobbes faz inicialmente uma breve observação sobre a feitiçaria no Cap. II do Leviatã, afirmando que não admitia que nela houvesse “algum poder verdadeiro” e essa atividade estava “mais próxima de uma nova religião do que de uma arte ou ciência”, e também que as feiticeiras eram justamente punidas, tanto por sua falsa crença quanto por sua prática enganosa. Das falsas crenças e das práticas enganosas mencionadas podemos inferir que Hobbes estava também antecipando ao leitor o que dirá mais adiante: que as doutrinas que não colaborassem para a paz civil deveriam ser proibidas pelo Estado.
            Verifica-se aí a importância do esclarecimento em relação à obediência civil, a qual aparecerá de forma clara quando ele afirma:
Se desaparecesse esse temor supersticioso dos espíritos, e com ele os prognósticos tirados dos sonhos, as falsas profecias, e muitas outras coisas dele decorrentes, graças às quais pessoas ambiciosas e astutas abusam da credulidade da gente simples, os homens estariam muito mais bem preparados do que agora para a obediência civil. [1]

            Dessa forma, Hobbes apresenta, na própria definição do Homem, sua tese principal, a da necessidade da obediência civil para a consecução da paz, o que seria impossível sem o controle do Estado sobre as doutrinas a serem ensinadas, como ele afirmará mais adiante, no cap. XXX, onde tratará especificamente daquilo que o soberano permitirá que faça parte do credo religioso, tendo em vista a preservação da paz civil.  Para Hobbes, toda doutrina contrária à paz é falsa.    
            Sobre as fadas e os fantasmas, no Cap. III do Leviatã Hobbes afirma que a ideia sobre eles foi concebida “com o objetivo ou expresso ou não refutado, de manter o uso do exorcismo, das cruzes, da água benta, e outras tantas invenções de homens religiosos”.[2] Mais adiante o autor ironiza os padres, afirmando que “as fadas não se casam, mas entre elas há incubi, que copulam com gente de carne e osso. Os padres também não se casam”.[3]
            No capítulo citado verifica-se também o luteranismo de Thomas Hobbes, já demonstrado em sua obra Liberty, Necessity, and Change, onde, de acordo com Jürgen Overhoff, no diálogo que veio a tornar-se uma polêmica com o Arcebispo Bramhall, ele afirmara: “The Reformed Churches had been first and foremost instructed by Luther, the first beginner of our deliverance from the servitude of the Romisch Clergy”.[4]
            Hobbes estabelecera, já na obra Do Cidadão, uma luta contra a servidão das consciências individuais, da sociedade e do poder civil diante da Igreja. E quem conhecia a Bíblia como ele entenderia facilmente sua metáfora: ele referia-se, ao afirmar isso, à longa servidão e à posterior saída dos filhos de Israel do Egito sob a liderança de Moisés, modelo de um novo libertador, Lutero, complementado agora por ele, Hobbes, em relação à autonomia do poder civil diante da instituição religiosa. Por isso, sua afirmação final do Leviatã será: “A verdade que não se opõe aos interesses ou aos prazeres de ninguém é bem recebida por todos”. [5]
No Cap. VI do Leviatã ele apresenta as diferenças entre superstição, religião e religião verdadeira, ao afirmar:
O medo dos poderes invisíveis, inventados pelo espírito ou imaginados a partir de relatos publicamente permitidos, chama-se religião; quando esses não são permitidos, chama-se superstição. Quando o poder imaginado é realmente como o imaginamos, chama-se verdadeira religião. [6]

Observa-se nessa afirmação sua tese de que a religião só será reconhecida como tal se for autorizada pelo poder civil, bem como a dificuldade para se definir a natureza de Deus e o que ele realmente fala. É devido a tal dificuldade que Hobbes usa o Subjuntivo: “quando o poder imaginado é realmente como o imaginamos, chama-se verdadeira religião”. [7]
Objetivando a obediência e a paz civil, Hobbes pretende reduzir as ordens de Deus às ordens do soberano civil. Não se deve incentivar a desobediência civil sob o pretexto da obediência a Deus, como faziam o Papado e a Filosofia das Escolas, através de seus discursos desprovidos de sentido, que provocavam a desobediência civil e ameaçavam a paz.
No Cap. VII do Leviatã o filósofo trata dos significados da fé. Ele começa por tratar da fé nas pessoas para depois chegar ao seu objetivo, que é o de diferenciar a fé em Deus da fé na autoridade da Igreja, concluindo que “seja o que for que acreditarmos, tendo como única razão para tal a que deriva apenas da autoridade dos homens e de seus escritos, quer eles tenham ou não sido enviados por Deus, nossa fé será apenas nos homens”. [8]
            Com isso, Hobbes alerta seu leitor para o fato de que mesmo as Escrituras, ao testemunharem sobre Deus, são obras dos homens, mas seu principal objetivo é demonstrar ao leitor que se deve ter cautela em relação ao magistério eclesiástico, que define tanto o que é canônico quanto as regras de interpretação do texto, o que é heresia, o que é verdade e o que é um poder civil legítimo, interferindo, em nome da religião revelada, em todas as esferas da vida civil.
            Hobbes afirma, portanto, desde essa primeira parte do Leviatã, paulatinamente, que o homem, qualquer confissão de fé que adote, deve prestar obediência ao soberano civil, visando a paz, o que demonstraremos com mais detalhes no decorrer do trabalho.
Quanto à religião e à natureza humana, Hobbes afirma no Cap. XII do Leviatã:

Verificando que só no homem encontramos sinais, ou frutos da religião, não há motivo para duvidar que a semente da religião se encontra também apenas no homem, e consiste em alguma qualidade peculiar, ou pelo menos em algum grau eminente dessa qualidade, que não se encontra nas outras criaturas vivas. [9]

Os frutos da religião diferenciam-se entre as religiões dos gentios e a religião daqueles que buscam as causas das coisas.       Sendo assim, as sementes da religião, além de serem cultivadas por homens que “as alimentaram e ordenaram segundo sua própria invenção”, como os gentios, também foram cultivadas por aqueles “que o fizeram sob o mando e direção de Deus”.[10]
Porém, Hobbes afirma que o objetivo, em ambas as espécies de religião, era levar os que confiavam em seus autores a “tender mais para a obediência, as leis, a paz, a caridade e a sociedade civil”. [11]
A primeira espécie de religião, afirma Hobbes, faz parte da política humana, enquanto a segunda “é a política divina, que encerra preceitos para aqueles que se erigiram como súditos do Reino de Deus” e desta fazem parte, afirma Hobbes, “Abraão, Moisés e nosso abençoado Salvador, dos quais chegaram até nós as leis do Reino de Deus”. [12]
Quanto à origem da religião dos gentios, no Cap. II do Leviatã Hobbes afirma que da “ignorância quanto à distinção entre os sonhos, e outras ilusões fortes, e a visão e a sensação, surgiu, no passado, a maior parte da religião dos gentios, os quais adoravam sátiros, faunos, ninfas, e outros semelhantes, e nos nossos dias a opinião que a gente grosseira tem das fadas, fantasmas e gnomos, e do poder das feiticeiras”. [13]
Tais religiões, afirma Hobbes, são baseadas no medo. Nesse sentido, ele afirma que “alguns dos antigos poetas disseram que os deuses foram criados pelo medo dos homens, o que quando aplicado aos deuses (quer dizer, aos muitos deuses dos gentios) é muito verdadeiro”.[14] Esses deuses, inventados devido à ignorância que a maioria dos homens têm das causas, eram tantos que Hobbes observa “que havia entre os pagãos quase tão grande variedade de deuses como de atividades”.[15]
Hobbes ainda observa que e as autoridades e os legisladores dentre os gentios valiam-se disso para manter o domínio sobre a população e evitar revoltas, inventando deuses e associando determinados problemas a algum erro na adoração das divindades, como citamos a seguir:
Os primeiros fundadores e legisladores de Estados entre os gentios, cujo objetivo era apenas manter o povo em obediência e paz, em todos os lugares tiveram os seguintes cuidados. Primeiro, o de incutir em suas mentes a crença de que os preceitos que ditavam a respeito da religião não deviam ser considerados como provenientes de sua própria invenção, mas como os ditames de algum deus, ou outro espírito, ou então de que eles próprios eram de natureza superior à dos simples mortais, a fim de que suas leis fossem mais facilmente aceites... Em segundo lugar, tiveram o cuidado de fazer acreditar que aos deuses desagradavam as mesmas coisas que eram proibidas pelas leis. Em terceiro lugar, o de prescrever cerimônias, suplicações, sacrifícios e festivais, os quais se devia acreditar capazes de aplacar a ira dos deuses; assim como, que da ira dos deuses resultava o insucesso na guerra, grandes doenças contagiosas, terremotos, e a desgraça de cada indivíduo; e que essa ira provinha da falta de cuidado com sua veneração, e do esquecimento ou do equívoco em qualquer aspecto das cerimônias exigidas.[16]

Além disso, em relação ao caráter de manipulação e de dominação da religião entre os gentios, Hobbes afirma:
Às formas de veneração que os homens naturalmente consideravam próprias para oferecer a seus deuses, tais como sacrifícios, orações e ações de graças..., os mesmos legisladores dos gentios acrescentaram suas imagens, tanto em pintura como em escultura. A fim de que os mais ignorantes (quer isto dizer, a maior parte, ou a generalidade do povo), pensando que os deuses em cuja representação tais imagens eram feitas nelas realmente estavam incluídos, como se nelas estivessem alojados, pudessem sentir perante elas ainda mais medo.[17]

Quanto à segunda forma da religião identificada por Hobbes, ela é advinda do interesse dos homens pelo conhecimento das causas, os quais, indo dos efeitos para as causas, chegam à concepção de uma causa não causada, à qual “dão o nome de Deus”, o que, afirma o filósofo, foi reconhecido mesmo entre os pagãos, mas entre eles não havia necessariamente a adoração do Deus único.
Ele relaciona o desejo do conhecimento das causas com o reconhecimento de um único Deus eterno, como podemos verificar nas afirmações seguintes:
O reconhecimento de um único Deus eterno, infinito e onipotente pode ser derivado do desejo que os homens sentem de conhecer as causas dos corpos naturais, e suas diversas virtudes e operações, mais facilmente que            do medo do que possa vir a acontecer-lhes nos tempos vindouros. Aquele que de qualquer efeito que vê ocorrer... mergulhe profundamente na investigação das causas, deverá concluir que necessariamente existe um primeiro motor. Isto é, uma primeira e eterna causa de todas as coisas, que é o que os homens significam com o nome Deus. [18]

            Para Hobbes, porém, a rigor, Deus, devido à sua natureza, não é um objeto de estudo da Filosofia. Ele definira isso bem antes, n´Os Elementos da Lei Natural e Política (1640), ao afirmar:
Assim como Deus Todo-Poderoso é incompreensível, segue-se que nós não podemos ter uma concepção ou imagem da Divnidade, e consequentemente todos os seus atributos significam a nossa inabilidade e impotência para conceber qualquer coisa concernente à sua natureza, e não alguma concepção sua, excetuando-se apenas esta, que existe Deus. Afinal, os efeitos que naturalmente reconhecemos envolvem uma potência que os produziu antes que eles tivessem sido produzidos; e essa potência pressupõe alguma coisa existente que a tenha enquanto potênca. E a coisa que assim existe como potência para produzir, se não fosse eterna, deveria ter sido produzida por alguma outra anterior a ela, e esta novamente por outra anterior a ela, até que chegássemos a uma eterna, ou seja, à potência primeira de todas as potências, e causa primeira de todas as causas. E esta é aquela que todos os homens concebem pelo nome de Deus, envolvendo eternidade, incompreensibilidade e onipotência. E então todos que o considerarem poderão saber que Deus existe, mas não o que ele é. Mesmo num homem que tenha nascido cego, embora não seja capaz de ter qualquer imaginação acerca de que tipo de coisa é o fogo, ainda assim ele não pode deixar de saber que existe alguma coisa a que os homens dão o nome de fogo, porque ela o esquenta. [19]

E no Leviatã ele afirmará, 11 anos depois:

A curiosidade, ou amor pelo conhecimento das causas, afasta o homem da contemplação do efeito para a busca da causa, e depois também da causa dessa causa, até que forçosamente deve chegar a esta ideia: que há uma causa da qual não há causa anterior, porque é eterna; que é aquilo a que os homens chamam Deus. De modo que é impossível proceder a qualquer investigação profunda das causas naturais, sem com isso nos inclinarmos para acreditar que existe um Deus eterno, embora não possamos ter em nosso espírito uma ideia dele que corresponda à sua natureza. Porque tal como um homem que tenha nascido cego, que ouça outros falarem de irem aquecer-se junto ao fogo, e seja levado a aquecer-se junto ao mesmo, pode facilmente conceber, e convencer-se, de que há ali alguma coisa a que os homens chamam fogo, e é a causa do calor que sente, mas é incapaz de imaginar como ele seja, ou de ter em seu espírito uma ideia igual à daqueles que veem o fogo; assim também, através das coisas visíveis deste mundo, e de sua ordem admirável, se pode conceber que há uma causa dessas coisas, a que os homens chamam Deus, mas sem ter uma ideia ou imagem dele no espírito.[20]

Na obra Sobre o Corpo Hobbes afirma que Deus é “eterno, não-gerado, incompreensível”.[21] E na obra Do Cidadão explica que “eterno” significa fora do tempo. Ora, isso só pode ser entendido como uma forma de demonstrar a veneração de Deus, pois se tudo o que existe está no tempo, logo não existiria Deus. Porém ao chamá-lo de eterno, certamente o homem está querendo dizer que Ele, apesar de estar no tempo, não tem uma existência temporalmente limitada. Porém, explicar a sua natureza não é possível.    
No Leviatã ele reafirmará que a linguagem usada em relação à natureza de Deus é uma forma de veneração, conforme se segue:
Seja o que for que imaginemos é finito. Portanto não existe qualquer ideia ou concepção, de algo que denominamos infinito. Nenhum homem pode ter em seu espírito uma imagem de magnitude infinita, nem conceber uma velocidade infinita, um tempo infinito, ou uma força infinita, ou um poder infinito. Quando dizemos que alguma coisa é infinita, queremos apenas dizer que não somos capazes de conceber os limites e fronteiras da coisa designada, não tendo concepção da coisa, mas de nossa própria incapacidade. Portanto o nome de Deus é usado, não para nos fazer concebê-lo (pois ele é incompreensível e sua grandeza e poder são inconcebíveis), mas para que o possamos venerar. [22]

A rigor, porém, a natureza de Deus não era conhecida pelos próprios grandes profetas, como afirma o texto do Segundo Isaías: “Verdadeiramente, tu és Deus misterioso, ó Deus de Israel, ó Salvador”.[23] Como profundo conhecedor da Bíblia, Hobbes certamente conhecia esse texto de Isaías, que na Vulgata Latina é assim traduzido: “Vere tu es Deus absconditus Deus Israël salvator”.
Essa afirmação é citada por Pascal na conclusão do Pensamento 242, quando trata da natureza de Deus, e logo adiante, no Pensamento 248, ele afirmará: “La foi est différente de la preuve; l'une est humaine, l'autre est le don de Dieu”. [24]  
Quanto ao fato de Hobbes admitir apenas que o homem pode afirmar que Deus existe, sendo incapaz de poder conhecê-lo, isso não se constituiria, necessariamente, em ateísmo, pois o próprio Tomás de Aquino admite que não podemos conhecer a Deus, mas falamos dele apenas por analogia, afirmando que “não podemos, nesta vida, conhecer a essência de Deus, tal como ela é em si mesma; mas a conhecemos enquanto representada nas perfeições das criaturas, e assim é que os nomes que impomos significa”.[25] E ainda, mais adiante, Tomás afirma que “nem o católico nem o pagão conhecem a natureza de Deus como ela é em si mesma... quando o gentio usa o nome de Deus dizendo um ídolo é Deus, pode tomá-lo na mesma significação em que o toma o católico quando diz um ídolo não é Deus”.[26]
Por outro lado, os limites para o conhecimento de Deus são reconhecidos também na Filosofia Árabe, pois segundo Alfarabi, Deus “reside em sua solidão inacessível”. [27]
Se Deus é inacessível em sua substância, como obedecê-lo com segurança em relação aos seus oráculos? Hobbes responderá a isso colocando em dúvida não a obediência a Deus, mas sim quando e o que Ele disse, lembrando que na própria Bíblia há prevenções contra os falsos profetas.
Ele reduz a revelação à razão, e submete a interpretação das Escrituras e o ensino das doutrinas verdadeiras ao que promove a paz civil. Logo, sua primeira fé é a fé cívica, e o reino deste mundo, assim, está em primeiro lugar, e é resolvido pela razão, não pela revelação, ficando os pregadores, em relação aos assuntos civis, apenas como conselheiros, se o soberano civil o quiser, mas não como autoridades, do contrário não haveria soberania, a qual é uma coisa terrena, em nada dependendo da instituição religiosa.
Para Hobbes, na realidade, o presumido discurso revelado sobre Deus pode ter pretensões de domínio sobre aqueles que ignoram a razão e a ciência e que podem ter suas consciências controladas pela superstição, pelos dogmas e pelo medo da perda da vida eterna, contra o que Hobbes buscará argumentos tanto na razão natural quanto nas Escrituras, estes para corroborar aqueles, para os que se não convencerem pelos primeiros.
No Cap. XII do Leviatã, conforme dissemos, Hobbes fala sobre o uso que as autoridades dos gentios fizeram do medo e da piedade dos povos, visando mantê-los sob seu domínio e conter possíveis insurreições. Isso era comum também em Roma, onde o  imperador se declarava divino e bastava ele ordenar e um novo culto poderia ser instituído. Venerar os imperadores como deuses era o mesmo que considerar o Estado divino e, portanto, parecia não haver necessidade de uma ordem ou uma decisão imperial ser baseada num cálculo racional ou numa noção correta de justiça, mas declarando-se divinos eles eram pragmáticos, usando o sentimento religioso como forma de preservação e aumento do próprio domínio.
Nas palavras de Hobbes citadas abaixo observamos que em Roma todas as formas de culto eram aceitas, desde que não ameaçassem o poder civil:
Os romanos, que tinham conquistado a maior parte do mundo então conhecido, não tinham escrúpulos em tolerar qualquer religião que fosse, mesmo na própria cidade de Roma, a não ser que nela houvesse alguma coisa incompatível com o governo civil. [28]

Por isso, prossegue Hobbes, o monoteísmo judaico não era benquisto em Roma:
Não há notícia de que lá alguma religião fosse proibida, a não ser a dos judeus, os quais (por serem o próprio Reino de Deus) consideravam ilegítimo reconhecer sujeição a qualquer rei mortal ou a qualquer Estado. E assim se vê como a religião dos gentios fazia parte de sua política.[29]
           
            Os judeus também resistiram à ordem de Calígula de que no Templo de Jerusalém houvesse um busto seu para ser adorado e foram às armas, bem como se sentiram ultrajados com o fato de Domiciano ter se intitulado “Senhor e Deus”, título com o qual assinava os documentos oficiais, e de ter exigido que o cultuassem.  Também os cristãos se recusaram a obedecer a essa ordem e sofreram dura perseguição.
Quanto a Hobbes, porém, sabemos que a desobediência ao poder civil é admissível quando as ordens deste se opõem aos princípios da religião cristã, como ele diz no Leviatã:

Esta dificuldade de obedecer ao mesmo tempo a Deus e ao soberano civil sobre a terra não tem gravidade para aqueles que sabem distinguir entre o que é necessário e o que não é necessário para sua entrada no Reino de Deus. Pois se a ordem do soberano civil for tal que possa ser obedecida sem a perda da vida eterna, é injusto não lhe obedecer; e tem lugar o preceito do Apóstolo: Servos, obedecei a vossos senhores em tudo e Crianças, obedecei a vossos pais em todas as coisas; e o preceito de nosso Salvador: Os escribas e fariseus sentam-se na cadeira de Moisés, portanto observem e façam tudo o que eles disserem. Mas se a ordem for tal que não possa ser obedecida sem que se seja condenado à morte eterna, então seria loucura obedecer-lhe.[30]

            Talvez essa afirmação indique que, para ele, não só devido ao fato do Estado, como corpo artificial, poder adoecer e morrer, mas também porque, por natureza, ele é um deus mortal, acima do qual se eleva o Deus imortal, como ele mesmo diz, ao concluir a narração de sua gênese e finalidade, a obediência a Deus está em primeiro lugar:
À multidão assim unida numa só pessoa se chama Estado, em latim civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa.[31]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 






[1] Leviatã, op. cit., cap. II, p. 14
[2] Idem.
[3] Idem, Cap. CXLVII, p. 402. O termo incubus é assim definido no dictionary.reference.com: “An imaginary demon or evil spirit supposed to descend upon sleeping persons, esp. one fabled to have sexual intercourse with women during their sleep.” Por outro lado, succubus significa: “A demon in female form, said to have sexual intercourse with men in their sleep”. (Consulta realizada em 05-01-2010)
[4] Jürgen Overhoff, “The Luteranism of Thomas Hobbes”, in: History of Political Thought, XVIII, 4, p. 610. Thorverton, UK, 1997. O artigo nos foi gentilmente enviado pelo autor, a quem agradecemos.
[5] Leviatã, op. cit., Revisão e Conclusão, p. 410.
[6] Idem, Cap. VI, p. 35-36
[7] Idem, p. 36.
[8] Idem, Cap. VII, p. 42.
[9] Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 65
[10] Idem, p. 67.
[11] Idem, ibid.
[12] Idem, p. 67-68
[13] Leviatã, op. cit., Cap II, p. 14.
[14] Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 66.
[15] Idem, p. 71
[16] Idem, p. 70.
[17] Idem, p. 68 e 69.
[18] Idem, p.66.
[19] Hobbes, Os Elementos da Lei Natural e Política I,11,2
[20] Leviatã, op. cit., Cap. XI, p. 64.
[21] Sobre o Corpo. Parte I: Computação ou Lógica, p. 17. Trad. e Notas de José Oscar de Almeida Marques. Clássicos da Filosofia: Cadernos de Tradução, 12. IFCH/UNICAMP, 2005
[22] Idem, ibidem.
[23] Is 45:15
[24] Pascal. Pensées: http://www.croixsens.net/pascal (consulta em 12/04/2012)
[25] Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Q. 13, Art. II, Resposta à Terceira Objeção. Trad. de Alexandre Correia. S. Paulo: Abril, 1973, p. 112. (Os Pensadores).
[26] Idem, Art. X, Resposta à Quinta Objeção, p. 125.
[27] Apud E. Gilson, op. cit., p. 430.
[28] Leviatã, op. cit., Cap. XII, p. 70-71
[29] Idem. Ainda em relação aos judeus, o imperador Cláudio decretou a retirada de todos eles de Roma, conforme o Livro de Atos dos Apóstolos: “Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. Lá, encontrou certo judeu chamado Áquila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma”. (At 18:1-2)
[30] Leviatã, op. cit., Cap. XLIII, p. 341. O mesmo Hobbes já dissera antes, em Do Cidadão (op. cit., p. 360), conforme citamos também mais adiante neste trabalho: “Seria loucura de nossa parte não preferir morrer de morte natural, em vez de obedecer e morrer eternamente”.
[31] Idem, Cap. XVII, p. 105-106.