sábado, 31 de agosto de 2013

Texto de Benjamin Constant sobre a Liberdade

Prezados alunos da disciplina Tradições do Pensamento Político, segue o link do texto de Constant: http://caosmose.net/candido/unisinos/textos/benjamin.pdf

terça-feira, 23 de julho de 2013

Do homem natural ao homem artificial ou Estado em Hobbes


Na Introdução do Leviatã Hobbes afirma que o homem pode imitar a natureza e, através da arte, criar um homem artificial, o corpo político. Este, como o homem, é um organismo: pode ter força e saúde como todo corpo, mas também pode ficar doente e perecer.  Nesse corpo político, “a concórdia é a saúde; a sedição é a doença;  a guerra civil é a morte”. (Leviatã, Introdução).
Feito à imagem e semelhança de Deus, agora o homem cria, e diz: “Fiat” e dá origem, através das paixões e da razão, ao Estado, este homem artificial que foi projetado para a defesa e a proteção dos cidadãos: “salus populi é seu objetivo”.
Na primeira parte da obra, partindo do princípio de que quem for exercer o governo sobre uma nação “deve ler, em si mesmo, não este ou aquele indivíduo em particular, mas o gênero humano”, ele examina a matéria e o criador do homem artificial, isto é, o próprio homem, propondo um novo “conhece-te a ti mesmo”, rejeitando o conhecimento baseado em livros e no costume que os homens têm de conhecer os outros sem se conhecerem a si mesmos. 
Devido ao papel da teoria do conhecimento para a explicação da origem do Estado, afirma que as interpretações das sensações ou da percepção sensível, tais como aparecem em Aristóteles e nas universidades de sua própria época, são com frequência um “discurso destituído de significado” (Leviatã, Os Pensadores, 1974, Cap. I, p. 14). 
É um pressuposto de sua teoria do Estado e da ação política, portanto, a natureza do homem. Para bem governar é necessário bem conhecer a natureza das coisas em relação ao homem: “... os caracteres do coração humano, emaranhados e confusos como são, devido à dissimulação, à mentira, ao fingimento e às doutrinas errôneas, só se tornam legíveis para quem investiga os corações” (Leviatã, Introdução, p. 10), isto é, o interior do homem.  Para aqueles que, como René Descartes, viram a antropologia de Hobbes como extremamente negativa, ele afirmará na segunda edição do De Cive (1651), citando o Gênesis, que “a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” (Gn 8.21, tradução literal da King James Version, de 1611, citada pelo filósofo).
Do ponto de vista fisiológico o coração é um órgão vital, a Ciência Moderna descobriu que ele é o centro da circulação sanguínea, e por isso é considerado como a base da vida, e ele é associado não só o vigor físico, mas também o sentido da vida moral. Na linguagem comum as expressões “pessoa de bom coração” ou “homem sem coração” referem-se à conduta moral virtuosa ou réproba. No pensamento judaico o coração é visto como a sede da sensibilidade, da vontade, das paixões, das afeições, dos desejos, dos apetites, da inteligência, dos propósitos e do caráter, significando o próprio interior do homem, ou a sua alma. E a metáfora sobre o coração como interior do homem é conservada também na obra de Erich Fromm, O Coração do Homem, seu gênio para o bem e para o mal, demonstrando teses antecipadas na cultura judaica, que ensinava a guardar, acima de todas as coisas, o coração, porque dele procedem as saídas da vida, e por Hobbes, sobre a natureza egoística do homem, que vive em sociedade não por instinto, como as abelhas, mas por convenção, o que se dá por um longo percurso histórico, quando, por medo do outro, para sua segurança, associa-se com a finalidade da preservação da vida, da propriedade, da indústria ou do fazer, da ciência, da filosofia, da literatura, e mesmo do próprio deleite sensual.
O homem hobbesiano, assim, é dialético: por natureza os homens são iguais, mas essa igualdade não lhe garante a vida em segurança. Os homens desconfiam de seus semelhantes, que podem competir com ele, antecipar-se, invadir sua propriedade, matá-los, ou buscar a glória por simples ninharias, como um elogio ou a aceitação de uma opinião.
            Para aqueles que discordam dessa descrição do homem, Hobbes volta ao princípio enunciado no início do Leviatã: “Lê-te a ti mesmo”, convidando o leitor a examinar se ele próprio confia nos homens quando tranca seus cofres ao sair de casa e ao andar armado pelas ruas. – Que juízo faz ele de seus semelhantes, indaga o filósofo, ao agir dessa forma? O argumento assim aparece no Cap. XIII do Leviatã, em resposta ao leitor que busque na experiência uma confirmação da impossibilidade da vida em sociedade sem um poder comum que mantenha a todos em respeito:  “Que seja portanto ele a considerar-se a si mesmo, que quando empreende uma viagem se arma e procura ir bem acompanhado; que quando vai dormir fecha suas portas; que mesmo quando está em casa tranca seus cofres; e isto mesmo sabendo que existem leis e funcionários públicos armados, prontos a vingar qualquer injúria que lhe possa ser feita. Que opinião tem ele de seus compatriotas, ao viajar armado; de seus concidadãos, ao fechar suas portas; e de seus filhos e servidores, quando tranca seus cofres? Não significa isso acusar tanto a humanidade com seus atos como eu o faço com minhas palavras?”
O homem procura, então, associar-se, criando um homem artificial, feito à imagem e semelhança do homem natural, porém maior e mais forte do que ele, chegando a ser temível por todos os que o criaram, pois sem o medo desse poder que é comum, isto é, sobre todos e voltado para a sua proteção, os homens não tirariam prazer algum.
Sendo o Estado concebido por Hobbes comparável a um grande homem, no qual se espelham a natureza e a razão de um pequeno homem, a explicação de sua gênese deve, pois, começar por uma antropologia, e enquanto na Filosofia Clássica o método devia ser adequado ao objeto, na Filosofia Moderna o método de preceder o objeto. “Aquilo que vale como objeto é constituído pelo método” (Cf. Wolfgang Kerstin, “Thomas Hobbes – Filosofia Científica da paz e Fundação Contratual do Estado”, in: Filósofos do Séc. XVII. Uma Introdução. Lothar Kreimendahl, Org.).
Hobbes refuta duas autoridades tradicionais, a de Aristóteles e a da Igreja, que definiam o homem e a ação em termos metafísicos e teleológicos. A vida cívica não é tão natural como assegurava a tradição aristotélica, o que é afirmado por Hobbes tanto no De Cive quanto no Leviatã.
Assim, Hobbes reconhece, no Leviatã (XVII), que “é certo que há algumas criaturas vivas, como as abelhas e as formigas, que vivem sociavelmente umas com as outras (e por isso são contadas por Aristóteles entre as criaturas políticas), sem outra direção senão seus juízos e apetites particulares, nem linguagem através da qual possam indicar umas às outras o que consideram adequado para o beneficio comum. Assim, talvez haja alguém interessado em saber por que a humanidade não pode fazer o mesmo. Ao que tenho a responder o seguinte. Primeiro, que os homens estão constantemente envolvidos numa competição pela honra e pela dignidade, o que não ocorre no caso dessas criaturas. E é devido a isso que surgem entre os homens a inveja e o ódio, e finalmente a guerra, ao passo que entre aquelas criaturas tal não acontece...”.
Com uma argumentação bem mais extensa (a qual pode ser lida em aula), enfim, ele demonstra no início do Cap. XVII do Leviatã, ao contrário de Aristóteles que, conforme o diz Pierre Manent, “a natureza separa os homens mais que os une” (Châtelt, Dicionário das Obras Políticas: “Leviatã”, p. 494). 
E logo após expor a oitava lei de natureza (que diz: “E dado que todos os sinais de ódio ou desprezo tendem a provocar a luta, a ponto de a maior parte dos homens preferirem arriscar a vida a ficar sem vingança, podemos formular em oitavo lugar, como lei de natureza, o seguinte preceito: Que ninguém por atos, palavras, atitude ou gesto declare ódio ou desprezo pelo outro), Hobbes critica o naturalismo ideológico de Aristóteles sobre a questão de decidir quem é o melhor homem, nestes termos: “Aristóteles afirma que por natureza alguns homens têm mais capacidade para mandar, querendo com isso referir-se aos mais sábios (entre os quais se incluía a si próprio, devido à sua filosofia), e outros têm mais capacidade para servir (referindo-se com isto aos que tinham corpos fortes, mas não eram filósofos como ele); como se senhor e servo não tivessem sido criados pelo consentimento dos homens, mas pela inteligência, o que não só é contrário à razão, mas é também contrário à experiência” (Leviatã, Cap. XV, p. 95). 
A cooperação entre os membros da sociedade deve-se às paixões e ao medo da insegurança e da morte violenta, e os homens se associam em busca de segurança, do deleite, da preservação da propriedade e da paz civil, não sendo isso visto necessariamente como egoísmo, mas como um cálculo racional ou prudencial para sair daquele estado em que “a vida do homem é solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta” (Leviatã, Cap. XIII).
Por outro lado, apesar do poder soberano ter sua origem através de uma convenção, os homens se associam visando não só o bem do grupo, mas acima de tudo, de acordo com Macpherson, as suas próprias vantagens, gozadas individualmente. A sociedade, nessa visão, é formada por pessoas condicionadas por motivos egoísticos e só se chegou a ela devido ao próprio interesse de cada um, sendo o consentimento e a existência de um poder soberano que coloque a todos em respeito vistos de forma pragmática, como simples meios para a preservação do interesse individualista de cada um.
Hobbes reconhece a necessidade da criação do Estado, tanto para limitar esse egoísmo quanto para permitir a liberdade dos homens e a paz social. No entanto, Hobbes afirma que, apesar de todas as leis de natureza tenderem para a preservação da natureza (Cap. XIV),aquele que fosse modesto e tratável, e cumprisse todas as suas promessas numa época e num lugar onde mais ninguém assim fizesse, tornar-se-ia presa fácil para os outros, e inevitavelmente provocaria sua própria ruína, contrariamente ao fundamento de todas as leis de natureza, que tendem para a preservação da natureza”. Com isso Hobbes confirma a necessidade do cuidado do homem diante do outro, que é um lobo para o homem, mas isso é recíproco: eu sou lobo para o outro, mas posso ser sua presa ao mesmo tempo.
Porém, ao falar da desconfiança mútua entre os homens, Hobbes observa que “nenhum de nós acusa com isso a natureza humana” e que “os desejos e outras paixões do homem não são em si mesmos um pecado. Nem tampouco o são as ações que derivam dessas paixões, até ao momento em que se tome conhecimento de uma lei que as proíba; o que será impossível até ao momento em que sejam feitas as leis; e nenhuma lei pode ser feita antes de se ter determinado qual a pessoa que deverá fazê-la”. (Idem).
Assim, já em sua Antropologia é evidente a necessidade da criação desse homem artificial “chamado Estado, em Latim Civitas. É esta a geração daquele grande Leviatã, ou antes (para falar em termos mais reverentes) daquele Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa” (Leviatã, XVII).
Hobbes fala não só do ponto de vista teórico em geral, mas em suas obras políticas ele faz constantes referências à sua época, e especialmente ao seu país, o que não invalida o caráter teórico geral de suas definições sobre a soberania. Em relação ao seu contexto, Quentin Skinner observa que em sua Autobiografia Hobbes afirma que, após a execução de Carlos I, ocorrida em 1649, ele se decidiu a adiar a publicação do De Corpore, que viria a sair apenas em 1655. Então, Hobbes se dedica a compor o Leviatã, publicado em 1651, e na velhice assim ele se refere ao livro: “Uma obra que combate agora por todos os reis e todos os que, sob não importa qual nome, detêm direitos régios” (Q. Skinner, Hobbes e a Liberdade Republicana, S. Paulo: Unesp, 2010, p. 125).
Observe-se que, para ele, a soberania é um princípio, independentemente da forma de governo, o que ele diz repetidamente, tanto no De Cive quanto no Leviatã, e especialmente ao final do Cap. XVIII deste ele afirma: “Ora, o poder é sempre o mesmo, sob todas as formas, se estas forem suficientemente perfeitas para proteger os súditos”.
Para ele a falta de paz civil em seu contexto era consequência de não saberem os homens a quem obedecer em sã consciência. As desordens da Inglaterra decorriam primeiramente disso. A obediência é condição e motor da vida social.
Não se trata, porém, de ler Hobbes como um mero absolutista. Nesse sentido, Renato Janine Ribeiro argumenta que os cidadãos serão súditos leais porque foram eles quem instituíram o Leviatã (Ao Leitor sem Medo, p. 22. S. Paulo: Brasiliense, 1984). E também relembra que “Hobbes escreve De Cive e não De Principe: interessa-se mais pela obediência que pelo exercício do poder. Ocupa-se mais do cidadão que do governante” (idem, p. 23). E Ribeiro ainda observa que o verdadeiro poder irresistível pertence somente a Deus, ao afirmar que “de um poder irresistível decorre direito absoluto, ele completa que tal poder é somente de Deus; homem nenhum é tão forte que outros não o possam vencer, por coligação, astúcia, ou opondo a seu sono a vigília; só Deus nunca dorme, só Ele tem direito absoluto. (Que lógica resta, então, aos que chamam Hobbes de ateu e defensor do direito absoluto dos reis?)”. [Idem, p. 25).

Em relação ao conflito entre o poder civil e o religioso, a maior preocupação de Hobbes era relativa à divergência de opiniões que poderia de dividir o corpo político, gerando a guerra civil. Porém, esse não era o único motivo para se defender a existência da soberania absoluta, pois em tempos de paz se observam o temor, a desconfiança e a agressividade e “a vida do homem em sociedade é dominada pelo amor próprio, pela vanglória, pelo desejo de levar vantagem sobre o vizinho e de fazer reconhecer sua superioridade” (Pierre Manent, op. cit.,p. 494-495 e cf. Leviatã, cap. XIII). É como ele diz na conhecida metáfora da chuva e do tempo: “A guerra não consiste apenas na batalha, ou no ato de lutar, mas naquele lapso de tempo durante o qual a vontade de travar batalha é suficientemente conhecida. Portanto a noção de tempo deve ser levada em conta quanto à natureza da guerra, do mesmo modo que quanto à natureza do clima. Porque tal como a natureza do mau tempo não consiste em dois ou três chuviscos, mas numa tendência para chover que dura vários dias seguidos, assim também a natureza da guerra não consiste na luta real, mas na conhecida disposição para tal, durante todo o tempo em que não há garantia do contrário. Todo o tempo restante é de paz”. (Leviatã, XIII)
 O poder soberano reconhecido deverá ser capaz de conter a destruição e a guerra de todos contra todos, só com a sua instituição os homens poderão tirar prazer da companhia uns dos outros, pois é esse poder comum que coloca a todos em respeito mútuo.
Para Hobbes, “ideais como contrato, representação e responsabilidade não tinham sentido, a menos que apoiados por um poder soberano” (George Sabine, História das Idéias Políticas, Vol. II, p. 518). Isso significa que qualquer pacto sem a espada seria nulo, não passando de palavras, como diz Hobbes no Cap. XVIII do Leviatã: “... Os pactos, não passando de palavras e vento, não têm qualquer força para obrigar, dominar, constranger ou proteger ninguém, a não ser a que deriva da espada pública. Ou seja, das mãos livres e sem peias daquele homem, ou assembleia de homens, que detém a soberania, cujas ações são garantidas por todos, e realizadas pela força de todos os que nele se encontram unidos”.
No Cap. XIII da mesma obra Hobbes interpreta a natureza humana como fadada à autodestruição caso não haja um poder capaz de colocar a todos em respeito, concluindo pela necessidade do Estado como uma solução da razão diante dos apelos das paixões por uma vida segura, a qual é impossível no estado de natureza. A própria natureza egoísta dos homens os leva a fazerem um pacto pelo qual alienam o poder a uma pessoa soberana que os represente, a qual tanto pode ser um indivíduo quanto uma assembleia.
Em relação aos Caps. XIII e XVI, que tratam do estado de natureza e do pacto que cria a pessoa artificial, a qual é uma personificação, isto é, uma representação, Kerstin afirma que “em relação ao mundo das coisas a razão é racionalidade técnica e em relação ao mundo dos homens é racionalidade estratégica” (Wolfgang Kerstin, op. cit., p. 71).
Os sujeitos da ação vêem-se como parceiros, mas também “se encaram um ao outro exclusivamente no horizonte dos seus próprios interesses; o outro é útil ou prejudicial para os planos pessoais; o interesse fundamental de cada pessoa visa o aumento de poder; o homem hobbesiano, como ser racional, é necessariamente um ser de poder, porque a razão se mostra precisamente na capacidade de pôr à sua disposição meios utilitários...” (Idem, p 73-74).
No Cap. XVI Hobbes desenvolve a tese do Estado como pessoa fictícia ou artificial, numa conclusão da Primeira Parte, relacionada com o que dissera na Introdução sobre a arte e o artificial. O “autor” é quem delega ou comissiona, o representante age por autoridade. O caráter soberano do Estado pode ser verificado na afirmação de que “quando o ator faz um pacto por autoridade, obriga através disso o autor”, isto é, a multidão, o que é confirmado em sua afirmação de que o representante comum, quando tem autoridade sem limites, recebe-a de cada membro da multidão, os quais passam a ser os autores de todos os seus atos, o que será reafirmado no Cap. XVII, onde ele deixará claro que se estabelece uma relação entre a pessoa soberana (representante ou ator) e os súditos (autores).
Hobbes evoca a lei de natureza segundo a qual os contratos devem ser cumpridos, alertando sobre o cuidado que se deve tomar ao fazer um contrato em relação à autoridade do ator ou do autor, pois os pactos deverão ser cumpridos, mesmo que violem a lei de natureza. O mais importante, porém, em relação à multidão e à pessoa soberana, é sua afirmação de que “ninguém é obrigado por um pacto do qual não é autor” (Leviatã, Cap. XVI, p. 101). Como contratualista, ele postula a tese de que a multidão deve fazer uma transferência total do poder de governo, isto é, um “pactum subiectionis”.
Ao mesmo tempo em que fala da personificação do Estado, argumenta em favor de sua necessidade, pois sem ele não poderia haver outras personificações: os atores, isto é, representantes de outrem, seja de uma instituição, de Deus ou de outro homem, só recebem sua legitimação devido à pessoa soberana que foi instituída. Antes dela não havia povo, mas multidão, não havia direito à propriedade, mas uma guerra de todos contra todos, nem havia representação reconhecida de Deus, pois é o Estado quem legitima a própria religião. Torna-se claro que, quantos aos direitos privados, eles só existem devido à alienação do poder à pessoa soberana, que os garante, pois antes não havia propriedade, mas o conflito permanente. Bobbio afirma, em relação ao cap. XIV do Leviatã, que “a esfera privada coincide com o estado de natureza e se dissolve inteiramente na esfera pública, isto é, nas relações de domínio que ligam o soberano ao súdito” (Norberto Bobbio, A Teoria das Formas de Governo, p. 108). Assim, o homem-artífice cria esse “Deus Mortal ao qual devemos abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa” (Leviatã, cap. XVII, p. 110). 

Hoje podemos questionar se essa pessoa soberana é mesmo capaz de impor medo a todos, e se de fato garante a liberdade e a paz dos súditos, devido às situações de miséria social que vivemos, direta ou indiretamente. A sociedade capitalista, mesmo com a evolução de suas instituições, mantém-se num estado de guerra. As instituições jurídicas não garantem a paz, o que é devido à própria natureza. Já no De Cive, ao mesmo tempo em que o Estado aparece como solução para a paz civil, está implícita uma insolubilidade contínua, devido à natureza egoísta do homem, a qual se prolonga para as próprias relações internacionais.

terça-feira, 19 de março de 2013

Reportagem do Jornal da Unicamp sobre a Tese de Doutorado

Prezados amigos, o Jornal da Unicamp publicou uma matéria sobre minha Tese de Doutorado em Filosofia, defendia em 26-09-2012.
Para ler, acessem: http://www.unicamp.br/unicamp/ju/554/retorica-como-arma
Saudações fraternais e minha gratidão ao pessoal do Jornal, especialmente aos jornalistas Roberto Costa e Isabel Cristina Gardenal.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A Crítica Bíblica em Hobbes e a Soberania vista a partir das Escrituras


Ao Rev. Prof. Assir Pereira, que orava por nós em nossa aflição, em reconhecimento e gratidão. 

            Sobre a leitura da Bíblia, antes de qualquer consideração, é necessário observar que Hobbes é um homem de Ciência. Ele afirma que a verdade se deduz da razão, dos sentidos e da experiência e considera a razão natural um sinônimo da “palavra indubitável de Deus”, afirmando que “não convém renunciar aos sentidos e à experiência, nem àquilo que é a palavra indubitável de Deus, nossa razão natural”.[1]
Para Hobbes a Bíblia tem uma finalidade, qual seja, ela “foi escrita para o restabelecimento do Reino de Deus em Cristo”. [2] Em sua leitura da Bíblia ele afirma que não pretende adiantar opiniões próprias, mas sim, de acordo com suas próprias palavras: “Mostrar quais são as consequências que me parecem dedutíveis dos princípios de uma política cristã (que são as Sagradas Escrituras) em confirmação do poder do soberano civil e do dever de seus súditos”.[3]
            E contra a hermenêutica eclesiástica, feita tendo em vista o que era proveitoso para a Igreja, Hobbes assim expõe sua forma de abordagem do texto bíblico:

Na alegação das Escrituras tentei evitar aqueles textos que são de uma interpretação obscura ou controvertida, e só alegar aqueles cujo sentido é mais simples e agradável à harmonia e finalidade de toda a Bíblia, que foi escrita para o restabelecimento do Reino de Deus em Cristo. Pois não são as palavras nuas, mas sim o objetivo do autor que dá a verdadeira luz pela qual qualquer escrito deve ser interpretado, e aqueles que insistem nos textos isolados, sem considerarem o desígnio principal, nada deles podem tirar com clareza, mas antes jogando átomos das Escrituras como poeira nos olhos dos homens, tornam tudo mais obscuro do que é, artifício habitual daqueles que não procuram a verdade, mas sim suas próprias vantagens.[4]

          E assim Hobbes, limpando a poeira dos olhos de seus leitores, encontrará nas Escrituras razões para a submissão de qualquer instituição ao Soberano Civil ou, simplesmente, ao Soberano. Observemos então alguns elementos da leitura hobbesiana da Bíblia em relação à soberania civil, começando por falar de suas contribuições à Crítica Bíblica, isto é, para o estudo da história da formação dos textos, principalmente os do Antigo Testamento, que são de mais difícil explicação.
Em relação à data de redação dos textos bíblicos, Hobbes faz diversas observações, enfatizando, contudo, a afirmação de Gênesis 12:6: “Atravessou Abrão a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra”.  A tradução da qual ele dispunha, a King James, de 1611, diz: “And Abram passed through the land unto the place of Sichem, unto the plain of Moreh. And the Canaanite was then in the land”.[5] 
            De acordo com Aloysius P. Martinich, Hobbes insiste no fato de que a afirmação de que os cananeus habitavam a terra era uma evidência da redação do texto “longo tempo após os fatos”.[6]
            Sobre o Pentateuco em seu todo, Hobbes, contrariamente aos que dizem que Moisés nada escreveu do Pentateuco, ou que ele o redigiu em sua totalidade, afirma que “ele escreveu tudo o que aí se diz que escreveu”, isto é, aquelas afirmações do texto que dizem claramente que Moisés escreveu são por Hobbes consideradas como fidedignas.[7]
            Por outro lado, no sexto livro do AT, o de Josué, encontra-se uma afirmação que mostra a sua interação e continuidade com o Pentateuco, o que possibilita uma ampliação do conceito de “Livros da Lei”, a partir da afirmação de que "Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus". [8]
Ainda sobre a data de redação dos textos bíblicos, Hobbes cita passagens dos Livros de Juízes e de Rute que demonstram que os mesmos foram escritos muito tempo depois dos fatos narrados. [9] E sobre o Livro de Juízes ele destaca a seguinte afirmação para confirmar sua tese de que o texto é posterior ao cativeiro babilônico: “Os filhos de Dã levantaram para si aquela imagem de escultura; e Jônatas, filho de Gerson, o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até ao dia do cativeiro do povo”. [10] Esse trecho assim aparece na King James: “And the children of Dan set up the graven image: and Jonathan, the son of Gershom, the son of Manasseh, he and his sons were priests to the tribe of Dan until the day of the captivity of the land”.
No Livro de Juízes, além disso, encontra-se uma afirmação que, ao mesmo tempo em que confirma sua redação posterior, serviria como referência a Hobbes para justificar a necessidade da instituição do soberano civil diante do estado de natureza, no qual, não havendo lei, não havia injustiça, e de fato, cada um poderia fazer o que melhor lhe parecesse, conforme o célebre Cap. XIII do Leviatã. A afirmação bíblica que mostra um autêntico estado de natureza é a seguinte: “Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que achava mais reto”. [11]
Quanto ao Livro de Rute, logo em sua abertura é evidente o caráter posterior de sua redação em relação aos fatos narrados, pois o texto diz: “No tempo em que julgavam os juízes”. [12] A rigor, os Livros de Josué, Juízes e Rute integram uma narrativa sobre um período que tem ligações claras. O início de Juízes refere-se à morte de Josué e demonstra que Israel então se encontrava sem uma liderança definida, havendo mesmo a necessidade de se fazer uma consulta ao Senhor para saber quem subiria a lutar contra os cananeus. [13]
            Sobre as fontes utilizadas pelos autores das Escrituras, Hobbes observa que o próprio texto menciona várias delas, tais como: o Livro das Guerras do Senhor, o Livro dos Justos, o Livro das Crônicas de Natan, o Livro das Crônicas de Gade, o Livro da História de Salomão, o Livro da História dos reis de Israel, o Livro da História dos reis de Judá. [14] A rigor, a pluralidade das fontes do texto bíblico evidencia-se desde o próprio Gênesis, onde já se usa o termo “livro” em seu quinto capítulo, que diz: “Este é o livro da genealogia de Adão”.[15]
            Quanto à definição do Cânon do AT, Hobbes afirma que “todas as escrituras do Antigo testamento foram postas na forma que possuem após o regresso dos judeus do cativeiro em Babilônia, e antes do tempo de Ptolomeu Filadelfo”. [16] E reconhecendo, como o recomendava a Igreja Anglicana, que os livros apócrifos são “proveitosos para nossa instrução” e que, se em relação à forma final do Antigo Testamento eles merecem crédito, ele conclui que “as Escrituras foram postas na forma que as conhecemos por Esdras”. [17]
            A questão da formação dos textos bíblicos, do que é canônico para os judeus, católicos e protestantes leva-nos a perguntar pela essência mesma da palavra de Deus. Por isso, Aloisyus P. Martinich, com razão, afirma ser difícil saber o que é autêntico na Bíblia: “I think that it would be difficult, if not impossible, to make all the passages in the Bible consistent.[18]
Hobbes, portanto, ao lado de Erasmus e de Espinosa, foi um dos grandes filósofos a contribuir para a crítica do texto bíblico e para o conhecimento da história de sua formação e edição.
            A interpretação hobbesiana da Bíblia em relação à natureza do poder soberano pode ser vista como uma necessidade de seu contexto cultural, religioso e político, pois depois de tratar do Homem e do Estado com base em princípios racionais da Filosofia Civil, afirma no Leviatã, conforme citamos noutra parte deste trabalho:

... Mas supondo que estes meus princípios não sejam princípios racionais, tenho, contudo, a certeza de que são princípios tirados da autoridade das Escrituras, como mostrarei quando falar do Reino de Deus (administrado por Moisés), sobre os judeus, seu povo dileto por meio de um pacto. [19]

Antes de escrever o Leviatã, porém, o recurso às Escrituras aparece logo no Prefácio da obra Do Cidadão, quando ele, em defesa de sua antropologia, a qual fora criticada por Descartes, que a considerava extremamente negativa, afirma que, admitindo-se a existência do temor e da desconfiança mútuos entre os países e os cidadãos, alguns farão objeção, contra o que ele busca nas Escrituras a corroboração de sua antropologia negativa, afirmando: “... Se este princípio for admitido, necessariamente se seguirá não apenas que todos os homens sejam perversos (o que, embora talvez pareça rigoroso, devemos, porém, reconhecer, já que é proclamado com tanta clareza pela Santa Escritura)”.[20]
Dentre as abundantes citações da Bíblia em sua obra, observamos que a importância desse recurso argumentativo e persuasivo aparece de forma explícita quando ele compara os Dez Mandamentos aos deveres civis e aos direitos do soberano representante, no Cap. XXX do Leviatã, do que passaremos a tratar a seguir. [21]
Em relação aos quatro primeiros mandamentos, que dizem respeito aos deveres para com Deus, a súmula da comparação estabelecida por Hobbes entre o Reino de Deus pelo pacto com os judeus e o poder do soberano civil pelo consentimento dos homens encontra-se na seguinte afirmação:

A primeira tábua dos mandamentos é toda gasta (sic) em enumerar a soma do poder absoluto de Deus, não apenas como Deus, mas como rei por pacto (em especial) dos judeus; e pode, portanto, iluminar aqueles que receberam o soberano poder por consentimento dos homens, a fim de verem que doutrina devem ensinar a seus súditos. [22] 

            De acordo com Hobbes, no dia do sábado o povo era ensinado sobre os deveres para com Deus, que compreendem os quatro primeiros mandamentos, quais sejam: 1) não ter outros deuses diante do Deus único; 2) não fazer para si imagens de escultura, não adorá-las, nem lhes prestar culto; 3) não tomar o nome do Senhor Deus em vão; 4) lembrar-se do dia de sábado, para santificá-lo. Nesse dia os mais velhos seriam lembrados, e as novas gerações seriam ensinadas, a respeito dos deveres diante de Deus, do resgate do povo da escravidão, da necessidade de adorá-lo exclusivamente, de não tomar o seu nome em vão e de santificar o dia de sábado.[23]
Semelhantemente, o povo era instruído sobre os deveres civis, os quais compõem a segunda tábua dos mandamentos. Essa segunda tábua dos mandamentos, portanto, diz respeito aos deveres civis.
A partir do quinto mandamento as tábuas da lei tratam dos deveres para com o próximo e Hobbes coloca em primeiro lugar a vida e os membros do corpo, afirmando que “entre as coisas tidas em propriedade, aquelas que são mais caras ao homem são sua própria vida e membros”.[24] Assim, o caráter absoluto do poder é deduzido da necessidade de preservação da vida, pois “se os direitos essenciais da soberania forem retirados, o Estado fica por isso dissolvido, e todo homem volta à condição e calamidade de uma guerra com os outros homens (que é o maior mal que pode acontecer nesta vida)”.[25]
            Na sequência dos deveres para com o próximo, o quinto mandamento trata da honra ao pai e à mãe, enquanto do sexto ao oitavo trata-se da preservação da propriedade do próximo (não matar, não adulterar, não furtar), cujo respeito é garantido pela autoridade do soberano. O nono diz respeito à calúnia, proibindo o falso testemunho contra o próximo. O décimo trata dos desígnios e intenções de praticar os atos injustos, proibindo a cobiça de qualquer coisa que pertença ao próximo, pois a injustiça “consiste tanto na depravação da vontade como na irregularidade do ato”.[26] Por isso, o só cobiçar já é injusto. E assim a súmula da segunda tábua é assim definida por Hobbes:


Esta é a intenção do décimo mandamento (“Não cobiçarás”), e a súmula da segunda tábua, a qual toda ela se reduz a esse mandamento de caridade mútua, Amarás a teu próximo como a ti mesmo, assim como a súmula da primeira tábua se reduz ao amor a Deus, que então tinham recebido havia pouco tempo como seu rei.[27]

            Assim, o número de deveres para com o próximo ocupa 60% dos dez mandamentos, isto é, a vida civil ocupa a sua maior parte. Talvez Hobbes não tenha argumentado sobre isso, mas seu pensamento permite aduzir que, de fato, os deveres para com Deus são mais resumidos, o que aparece de forma ainda mais breve no Eclesiastes: “De tudo o que se tem ouvido, a suma é: teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem”. [28] Outra suma é feita por Cristo, ao dizer: “Dai, pois, a César o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”. [29] E nessa afirmação, César pode ser interpretado como a soberania, não um governador, rei ou imperador específico, mas a instituição do Estado enquanto tal.
De tal modo que, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento encontram-se sínteses do que é devido a Deus, ficando o poder religioso, de fato, em crise, com seu conjunto de formas de controle social, diante da síntese que Hobbes propôs sobre a salvação, isto é, que “Jesus é o Cristo”, com base na confissão de Pedro e no Credo Niceno.
            E Hobbes começa a falar da soberania absoluta logo na ilustração da capa de sua obra mais conhecida, colocando como primeira mensagem a afirmação do Livro de Jó, a qual aparece em forma de inscrição, para que todos leiam: Non est potestas super Terram quæ conparetur ei – Job 41.24. [30]
Assim, ele estampa ao leitor sua mensagem essencial, usando as Escrituras de uma forma diferente da costumeira, interpretando-as, agora, contra a instituição que até então a usara como uma fortificação avançada para impugnar o poder civil. Eis o homem que usa a arma dos inimigos e a volta contra eles, usando uma metáfora das Escrituras de forma livre, para ilustrar ao homem de seu tempo que o poder civil é soberano.
            A seguir, pois, expomos a interpretação que Hobbes faz de alguns textos bíblicos, como parte da sustentação de sua argumentação sobre a soberania absoluta, tendo como ponto de partida a obra Do Cidadão. [31]
Em relação à instituição da monarquia em Israel, verificamos que nessa obra Hobbes faz uma releitura da História desse povo, mostrando a evolução de suas instituições políticas e religiosas. De acordo com essa leitura, após um período em que Moisés deteve o poder civil e o religioso, os sacerdotes passaram, após a sua morte, a exercer o segundo, vindo enfim a Monarquia em Israel, a partir de Saul.
A afirmação de Êxodo 19: 6: “Vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa”, é utilizada por Hobbes como base para a afirmação da tese de que Israel foi um reino sacerdotal, desde Moisés até o rei Saul, quando então, de acordo com a narrativa do I Livro de Samuel, o povo de Israel rejeitou o Reino de Deus. Nesse aspecto, observa-se a importante observação de Hobbes, com abundantes citações bíblicas na obra Do Cidadão, de que o Reino de Deus ainda não veio, o que se dará quando Cristo entregar o reino a seu Pai.[32] E tanto na obra Do Cidadão quanto no Leviatã, Hobbes assim interpreta o Reino de Deus.
            Outro texto que serve de base a Hobbes para fundamentar suas ideias sobre o reino sacerdotal em Israel é também do Êxodo, que afirma:

Todo o povo presenciou os trovões e os relâmpagos e o monte fumegante: e o povo, observando, se estremeceu e ficou de longe. Disseram a Moisés: Fala-nos tu, e te ouviremos; porém não fale Deus conosco, para que não morramos. O povo estava de longe em pé; Moisés, porém, se chegou onde Deus estava. [33]

            Essas afirmações são utilizadas por Hobbes para fundamentar sua tese de que o poder de Moisés estava sob o poder de Deus, bem como que Moisés era seu lugar-tenente e, como tal, portador da revelação, pois Deus não falava diretamente ao povo. Ciente disso, Hobbes fundamenta sua negação da revelação direta de Deus aos homens, ou seja, sem um mediador, até chegar, em sua argumentação, a afirmar que é o soberano civil quem reconhece a religião, define o que é canônico, autoriza os cultos públicos, enfim, é do soberano que procede a legitimidade da religião. Assim, pois, Hobbes nega a autoridade do Papa como sumo pontífice em relação à religião, afirmando a mesma em relação ao soberano.
            Outro texto relevante para a argumentação de Hobbes é o do Livro de Juízes, que apresenta uma parábola sobre o governo, na qual se usa uma símile sobre árvores que estão em busca de um soberano. De acordo com o texto, após a renúncia da oliveira, da figueira e da videira ao reinado, cada uma alegando um motivo, “todas as árvores disseram ao espinheiro: vem tu e reina sobre nós”. [34]  Ao que o espinheiro aceitou, dizendo: “Se deveras me ungis rei sobre vós, vinde e refugiai-vos debaixo de minha sombra; mas, se não, saia fogo do espinheiro que consuma os cedros do Líbano”. [35]        O texto de Juízes 9, na perspectiva hobbesiana, por um lado apresenta a origem do poder na comunidade, e por outro, o que é o principal para o filósofo, adverte sobre os perigos da desobediência ao poder soberano e de sua principal e mais temível consequência, a guerra civil, a qual Hobbes compara ao espinheiro mencionado na parábola, afirmando que, ou se aceita a soberania absoluta, ou “estaremos preferindo ser consumidos pelo fogo da guerra civil”.[36]
O Livro de Juízes é claramente posterior aos fatos narrados, e descreve a fragilidade de um povo sem um lugar-tenente estável. A cada crise com os inimigos, de acordo com a narrativa bíblica, Deus levantava um juiz, que era também um guerreiro, um libertador, que em alguns casos organizava um exército provisório, agia com poucos homens, utilizando instrumentos de combate rudimentares, ou atuava sozinho, como o fizeram Eúde e Sansão.
Politicamente, portanto, era uma situação precária, e a sociedade, assim, ficava naquela situação de crise política e moral, assim descrita pelo autor do Livro de Juízes: “Naqueles dias não havia rei em Israel, cada qual fazia o que achava mais reto”. [37]
Isso deixava os homens numa situação semelhante ao estado de natureza e, em tais condições, a instituição da monarquia se deu por necessidade da própria sociedade, pois até então não havia uma autoridade soberana definida que garantisse a paz, mas a liderança era carismática. Esse Livro, tão interessante do ponto de vista da autoridade civil, usa a expressão “não havia rei em Israel” por quatro vezes, sendo que no último versículo do Livro o autor do texto faz uma clara alusão à necessidade da monarquia em Israel, acrescentando ao fato de não haver rei a afirmação de que “cada um fazia o que achava mais reto”. [38]
Torna-se evidente a necessidade de uma autoridade civil em Israel, de acordo com o autor do texto, na narrativa sobre a mulher de um levita que foi vítima de abuso sexual e de homicídio em Belém de Judá. O autor inicia essa narrativa afirmando que “não havia rei em Israel”, e a conclui acrescentando que “cada um fazia o que achava mais reto”. É uma longa narrativa, que se estende do Cap. 19 ao final do Livro, e trata-se de “uma das mais violentas passagens da Bíblia Hebraica”, e o fato narrado chamou a atenção de Rousseau, que em 1781 publicou um texto intitulado Le Lévite d'Ephrạim.[39] 
Comparando essa ausência de autoridade narrada em Juízes ao Cap. XIII do Leviatã, não seria difícil admitir que o autor do texto era a favor de uma comunidade que tivesse um soberano, isto é, um poder comum que mantivesse a todos em respeito, sem o que, de acordo com Hobbes, é impossível que os homens tirem do convívio algum prazer.
            Hobbes procurará definir de forma cabal a autoridade do soberano citando o I Livro de Samuel, no qual se narram os direitos do rei que haveria de ser constituído sobre Israel, a pedido do povo. O povo declarou a Samuel:

Teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós, e fazer as nossas guerras. Então o Senhor disse a Samuel: Atende à sua voz, e estabelece-lhes um rei. [40]

Hobbes afirma que os direitos do rei de Israel são próprios de uma soberania absoluta, pois diz o texto de I Samuel:
Estes serão os direitos do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos, e os empregará no serviço dos seus carros, e como seus cavaleiros... outros para lavrarem os seus campos... e outros para fabricarem as suas armas de guerra... tomará as vossas filhas... tomará o melhor das vossas lavouras e os dará aos seus servidores... também tomará os vossos servos... e os vossos melhores jovens... dizimará o vosso rebanho e vós lhe sereis por servos. [41]

            Com base em tais afirmações, Hobbes afirma que “onde a autoridade do rei melhor está definida é nas palavras de Deus mesmo... E um tal poder não é absoluto? E no entanto foi Deus mesmo quem o chamou de o direito do rei”.[42]
Ele observa que o primeiro rei de Israel, Saul, detinha os poderes de julgar e de comandar o povo na guerra, o que significava que seu poder era absoluto. Por outro lado, como o poder de julgar é subordinado ao soberano, Hobbes observa que a interpretação de um juiz “não é autêntica por ser sua sentença pessoal, mas por ser dada pela autoridade do soberano”.[43] Da mesma forma, em relação à guerra, assevera o filósofo, o soberano tem o poder de decidir quando ela é necessária para manter a paz e a segurança e, mesmo que não seja o comandante das tropas na guerra, “seja quem for o escolhido para general de um exército, aquele que possui o poder soberano é sempre o generalíssimo”.[44] Esse poder, pois, se concentrava em Saul, e independente de ser ele, temporariamente,  rei,  tal poder faz parte da essência da soberania, como vimos ao tratar da Soberania no Cap. III.
            Hobbes, além de afirmar que a origem da soberania estava no povo, ressalva, com base nas palavras de Samuel, que o povo e o rei não seriam bem sucedidos caso se desviassem dos caminhos de Deus. O texto de Samuel que lhe serve de referência diz: “Se temerdes ao Senhor, assim vós como o vosso rei que governa sobre vós, bem será. Se, porém, perseverardes em fazer o mal, perecereis, assim vós com o vosso rei”. [45]
            Porém, na realidade, essas palavras atribuídas a Samuel são lidas por Hobbes, em relação ao caráter absoluto do poder, apenas como conselhos para o rei. O mesmo ele fará em relação a outros profetas, aos apóstolos e ao próprio Papa. Tais pessoas podem servir como conselheiros e mestres, e como intercessores diante de Deus face a algum problema social ou político. No caso de Israel, após a deposição de Samuel da função de juiz, o exercício conjunto da judicatura e do cargo de comandante-em-chefe passou a residir no rei Saul e, posteriormente, em seus sucessores. Quanto ao profeta, vocação que Samuel também tinha, ele passará em Israel a sujeitar-se aos reis, sendo frequentemente perseguido por denunciar injustiças e chamar os reis ao arrependimento e ao retorno à aliança primordial com Deus.
Ainda em relação à obediência ao poder constituído, Hobbes refere-se a dois textos que narram oportunidades que Davi teve de matar o rei Saul, que o perseguia, observando que Davi não o matou por respeitá-lo como ungido do Senhor e, portanto, como soberano absoluto. Mais tarde, Davi manteve esse princípio ao ordenar a execução do soldado que veio a executar o rei Saul, mesmo tendo-o feito em obediência a uma ordem do próprio Saul que, ferido numa batalha, não admitiu ser morto por um adversário.
Hobbes argumenta em torno dessas narrativas em defesa do poder absoluto do soberano e da obediência dos súditos. Davi afirmara, na primeira ocasião, que Saul não lhe poderia resistir, pois estava indefeso, dormindo numa caverna, dizendo, numa visão teocrática da soberania: “O Senhor me guarde de que eu faça tal cousa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele, pois é o ungido do Senhor”. [46] E também, noutra ocasião em que Saul esteve sob suas mãos, ele disse: “Quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor, e fique inocente?”.[47] Para Hobbes, essas narrativas reforçam o caráter absoluto da soberania e a necessidade da obediência e do respeito dos súditos à instituição da autoridade civil.
            Quanto a Salomão, seu poder se estendeu claramente à religião. O sucessor de Davi, tão laureado por sua sabedoria, do ponto de vista político é um dos mais realistas personagens da Bíblia. Assim que assumiu o trono ele expulsou a Abiatar, “para que não mais fosse sacerdote do Senhor”, e o substituiu por Zadoque. [48]
Dessa narrativa Hobbes enfatiza o poder de demissão e de nomeação do soberano civil sobre a religião, encontrando na Bíblia, novamente, argumentos para corroborar sua tese da submissão da religião ao poder civil.
O realismo de Salomão e sua interferência na religião vai mais além, pois ele ordenou também a morte de Joabe, ex-comandante do exército de Davi, junto ao altar, o que era proibido pela Lei de Moisés, que dizia que se alguém adentrasse o tabernáculo e segurasse nas pontas (ou chifres) do altar, não poderia ser morto.[49] Porém, quando Joabe, sabendo que seria morto por Salomão por ter apoiado a Adonias, filho mais velho de Davi, na sucessão deste do trono, refugiou-se no tabernáculo do Senhor e segurou nas pontas do altar. Mesmo assim Salomão ordenou a sua morte, dizendo inicialmente a Benaia, comandante da guarda real: “Vai, arremete contra ele”. E depois lhe deu uma ordem ainda mais realista, quando Joabe se recusou a sair do lugar santo: “Arremete contra ele e sepulta-o”. E tendo feito como Salomão lhe ordenara, Benaia foi elevado a comandante de seu exército. [50]
- Estariam sendo dados os passos em direção a uma submissão da Religião ao Estado em Israel, de forma realista? Parece que sim, pois Hobbes afirma no Cap. XL do Leviatã:

Salomão destituiu Abiathar de ser sacerdote perante o Senhor. Tinha portanto autoridade sobre o Sumo Sacerdote como sobre qualquer súdito, o que é uma grande marca de supremacia em religião. Dedicou o templo, abençoou o povo, e fez aquela excelente oração, usada na consagração de todas as igrejas e casas de oração, o que é uma outra grande marca de supremacia em religião. Quando havia questão a respeito do livro da lei encontrado no templo, a mesma não era decidida pelo Sumo Sacerdote, mas Josias enviou-o e a outros para inquirirem a tal respeito junto de Hulda, a profetiza, o que constituiu uma outra marca da supremacia em religião. Davi tornou Hashabiah e seus irmãos oficiais de Israel, em todos os negócios do Senhor e no serviço do rei.... Não é isto o pleno poder, tanto temporal como espiritual, como lhe chamam aqueles que o dividem? [51]

Na realidade, diz Hobbes, esse poder é único. Assim, na conclusão do argumento citado acima ela afirma, sobre a pretensa divisão do poder entre temporal e espiritual:

Desde a primeira instituição do reino de Deus até ao cativeiro, a supremacia da religião estava nas mesmas mãos que a da soberania civil, e o oficio de sacerdote depois da eleição de Saul não era magisterial, mas ministerial. [52]

                Hobbes encontra, portanto, bases bíblicas suficientes para a submissão da Igreja ao Estado, o que era necessário devido tanto à natureza do assunto do qual ele tratava quanto à mentalidade de sua época, e muito mais, porque tanto o livro sagrado quanto a sua interpretação eram tidos como patrimônio da Igreja.
            Concluindo esta abordagem, observemos que Hobbes cita a narrativa bíblica sobre o General sírio Naaman como exemplo de obediência civil e de fé em Deus ao mesmo tempo, o que pode ser visto como um reconhecimento da  necessidade da obediência civil pelo profeta Eliseu, e também em relação à tolerância religiosa.
O texto diz que, depois de ter sido curado de lepra sob a ordem do profeta Eliseu de banhar-se sete vezes no Rio Jordão, o General lhe disse que não mais ofereceria holocausto nem sacrifício a outros deuses, mas apenas ao Deus de Israel. Contudo, fez uma ressalva em relação à religião de seu soberano, nos seguintes termos:

Nisto perdoe o Senhor a teu servo; quando o meu senhor entra na casa de Rimom para ali adorar, e ele se encosta na minha mão, e eu também me tenha de encurvar na casa de Rimom, quando assim me prostrar na casa de Rimom, nisto perdoe o Senhor a teu servo. Eliseu lhe disse: Vai em paz. [53]

 Hobbes cita essa passagem no Cap. XLII do Leviatã em relação à obediência ao poder civil, do qual vem a legitimidade sobre a religião, afirmando, em primeiro lugar:

A fé é uma dádiva de Deus, que o homem é incapaz de dar ou tirar por promessas de recompensa ou ameaças de tortura. Mas se além disso se perguntar: E se nos for ordenado por nosso príncipe legítimo que digamos com nossa boca que não acreditamos, devemos obedecer a essa ordem? A afirmação com a boca é apenas uma coisa externa, não mais do que qualquer outro gesto mediante o qual manifestamos nossa obediência; o que qualquer cristão, mantendo-se em seu coração firmemente fiel à fé de Cristo, tem a mesma liberdade de fazer o que o profeta Eliseu concedeu a Naaman, o sírio.[54]

Em segundo lugar, Hobbes afirma:

Tudo aquilo que um súdito, como era o caso de Naaman, é obrigado a fazer em obediência a seu soberano, desde que o não faça segundo seu próprio espírito, mas segundo as leis de seu país, não é uma ação propriamente sua, e sim de seu soberano; e neste caso não é ele quem nega Cristo perante os homens, mas seu governante e as leis de seu país.[55]
           
            Assim, resta legitimada a obediência civil, e a fé continua sendo algo do interior do homem, como no belo exemplo de Naaman, do qual, se fizermos uma leitura mais atenta do Evangelho, veremos que é perfeitamente justificável, pois o próprio Cristo disse: “O Reino de Deus está dentro de vós”.[56]




[1] Leviatã, op. cit., Cap. XXXII, p. 221.
[2] Idem, Cap. XLIII, p. 350
[3] Idem
[4] Idem
[5] The Authorized King James Version (KJV) of 1611: http://www.jesus-is-lord.com/thebible.htm
[6] A. P. Martinich. A Hobbes Dictionary. “Bible”. Oxford: Backwell, 1996. Disponível em: http://www.blackwellreference.com. A expressão “Criticismo Literário” é usada por Martinich em relação à leitura hobbesiana da Bíblia (p. 50ss). Ver também Leviatã, Caps. XXXII, XXXIII e outras observações de Hobbes, na mesma obra, sobre a história da redação dos textos bíblicos e de sua forma atual no Cânon, principalmente em relação ao AT, das quais tratamos aqui brevemente..
[7] Eis os textos em que essas expressões aparecem: Êx 17:14; Êx 24:3s; Êx 34:28; Nm 33:2; Dt 31:9, que diz: “Esta lei escreveu-a Moisés e a deu aos sacerdotes”, o que corrobora a tese de Hobbes sobre o reino sacerdotal em Israel; Dt 31:22; Dt 31:24. Observe-se que em Dt 10: 4 afirma-se que “escreveu o Senhor nas tábuas, segundo a primeira escritura, os dez mandamentos”. Hobbes diria, porém, pela razão natural, que foi Moisés quem escreveu, pois o texto tem um claro caráter confessional e de doação de sentido à realidade ao povo que estava no cativeiro babilônico quando da redação do Deuteronômio.
[8] Js 24:26
[9] Em relação ao Livro de Juízes, destacam-se os seguintes trechos que confirmam isso: 1:21; 1: 26; 6:24; 10:4; 15:19, nos quais aparece, após a narrativa, a afirmação: “até ao dia de hoje”.
[10]Jz 18:30
[11] Jz 17:6
[12] Rt 1:1
[13] Jz 1:1
[14] Ver, respectivamente, sobre os livros citados: Nm 21:14; Js 10:13 e II Sm 1:18; I Cr 29:29; I Rs 11:41; I Rs 14:19 e I Rs 14: 29. Há também outras referências sobre o Livro da História dos Reis de Israel: I Rs 15: 31, 16:5, 14 e 20; 22:39; II Rs 1:18; 10:34; 13:8 e 12; 14:15 e 28; 15:11 e 15 etc., bem como sobre o Livro da História dos Reis de Judá: 15: 7 e 23; I Rs 22: 46; II Rs 8:23; 12:19; 14:18; 15:6 etc. Os escritores também se serviam de cartas, como as mencionadas em II Sm 11, em Rs 21:11 e também de muitas outras, mencionadas tanto nos livros históricos quanto nos proféticos, bem como de documentos reais e da tradição oral.
[15] Gn 5,1
[16] Leviatã, op. cit., Cap. XXXIII, p. 228-229. Hobbes já pudera ter conhecimento de que “Ezequiel, Daniel, Ageu e Zacarias profetizaram no cativeiro”. Quanto ao Livro de Daniel, posteriormente a crítica bíblica demonstrou que parte de seu conteúdo é de caráter apocalíptico, mas de fato o livro descreve o sítio de Jerusalém por Nabucodonosor e fatos ocorridos na Babilônia durante o cativeiro que se seguiu.
[17] Idem, p. 229. Nesse ponto ele cita II Ed 14: 21 e 22. Não só aí ele se refere a textos considerados apócrifos para o Protestantismo, mas também na obra Do Cidadão.
[18] Afirmação é do Prof. Aloisyus P. Martinich, da Universidade do Texas, em gentil mensagem a nós enviada por email em 14/11/ 2007.
[19] Leviatã, op. cit., Cap. XXXI, p. 201
[20] Do Cidadão, op. cit., p. 17.
[21] Dez Mandamentos é a tradução do Hebraico: “Assêret Hadibrot”, termo também traduzido como Dez Falas ou Dez Ditos: “São dez princípios que incluem toda a Torá e seus 613 preceitos, inclusive estes dez”. (Fonte: www.chabad.org.br).
[22] Leviatã, Cap. XXX, p. 203
[23]Em relação ao nome de Deus, Santo Tomás afirma que “se existisse algum nome imposto para significar Deus, não em sua natureza, mas como sujeito, enquanto ele é tal ser, esse nome seria, de qualquer modo, incomunicável, como se dá, talvez com o tetragrama entre os hebreus”. (Suma Teológica, Q. XIII, Art. IX. Trad. de Alexandre Correia. Os Pensadores,  Vol. VIII. S. Paulo: Abril, 1973, p. 123)
[24] Leviatã, XXX, p. 203s
[25] Idem, p. 200. Hobbes tratara desses “direitos essenciais da soberania” no Cap. XVIII do mesmo.
[26] Idem, p. 204.
[27] Idem.
[28] Ec 12,13
[29] Mt 22:21
[30] Jó 41.24 na Vulgata Latina e 41.33 na Versão de Almeida.
[31] Do Cidadão, op. cit., p. 195 a 201, especialmente.
[32] Cf. Leviatã, Cap. XXXV.
[33] Ex 20:18-19 e 21
[34] Jz 9: 12
[35] Jz 9: 16
[36] Do Cidadão, loc. cit.
[37] Jz 17: 6
[38] Na sequência, pois, a expressão aparece em Jz 17.6; 18.1; 19.1 e 21.25.
[39] Para mais detalhes, ver Micahel S. Kochin: Living with the Bible: Jean-Jacques Rousseau Reads Judges 19-21: http://www.hpstudies.org (consulta em 11-05-2012).
[40] I Sm 8,19-20 e 22
[41] I Sm 8, 11-18
[42] Do Cidadão, p. 201.
[43] Leviatã, op. cit., Cap. XXVI, p. 167.
[44] Idem, Cap. XVII, p. 110. Hobbes afirma que também o Parlamento está sujeito ao soberano, pois a assembléia não “adquiriu o poder Legislativo”, e o soberano pode dissolvê-lo (Idem, Cap. XXVI, p. 163).
[45] I Sm 12: 14 e 25
[46] I Sm 24:6
[47] I Sm 26:9
[48] De forma abreviada, em I Rs 2:26-27 e 35 lê-se: “Disse o rei: Vai para Anatote, para teus campos, porque és homem digno de morte. Expulsou, pois, Salomão a Abiatar, para que não mais fosse sacerdote do Senhor. E em lugar de Abiatar constituiu a Zadoque por sacerdote”.
[49] Os chifres ou cornos eram vistos em Israel como símbolo de poder e de salvação. Por isso, a tradução de Almeida de Lucas 1.68 dizia originalmente: “E nos levantou o corno da salvação na casa de Davi seu servo”, o que na Edição Revista e Atualizada, para evitar algum mal entendido em relação à nossa cultura, foi alterado para: “E nos suscitou plena e poderosa salvação na casa de Davi, seu servo”.
[50] I Rs 2.28-31.
[51] Leviatã, op. cit. Cap. XL, p. 283.
[52] Idem
[53] II Rs 5.18-19.
[54] Leviatã, op. cit., Cap. XLII, p. 295
[55] Idem.
[56] Lc 17.21