sábado, 11 de junho de 2011

Teodiceia: A Justificação de Deus a partir da Filosofia e das Escrituras

Tendo lido a Meditação relativa à Quaresma, do ilustre teólogo Aharon Sapsezian, no Jornal O Estandarte, publicado em Abril de 2011, exponho a seguir breves considerações sobre parte de seus conceitos.

O autor trabalha com questões da área de Teodiceia, aquela parte da Filosofia que trata especificamente da natureza de Deus, da origem e da natureza do mal, da liberdade humana, do pecado e da permanente bondade e justiça de Deus, mesmo diante das catástrofes da natureza e do sofrimento humano. O termo Teodiceia, inspirado em Romanos 3:5, onde Paulo usa o termo “justiça de Deus”, foi criado por Leibniz em 1710 e intitula uma de suas obras: Teodiceia: Ensaio sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal.

Quanto ao artigo citado, inicialmente seu autor cita a obra A Criação, de Haydn, e depois fala, em tom existencial, sobre a incompreensibilidade da perfeição da Criação divina, comparando a obra da Criação narrada no Gênesis, e venerada na obra de Haydn, com várias catástrofes naturais que atingem o homem. Cita Voltaire, pensador francês que deu grande contribuição à Filosofia e à História, mas apesar de nalgumas obras o filósofo ser mais rigoroso, noutras escreve em forma polêmica, primando mais pela provocação do que pelo conceito. São desse tipo suas críticas a Deus citadas por Sapsezian. O filósofo faz um raciocínio em forma de dilema, modo de pensar que, qualquer que seja a premissa, sempre concluirá da mesma forma. Nesse caso, o raciocínio citado conclui sempre pelo sarcasmo e pelo desrespeito de Voltaire à santidade, à soberania e à providência de Deus. Seria interessante lembrar que sobre o terremoto de Lisboa, o filósofo Jean-Jacques Rousseau também fez seus juízos, defendendo a Providência divina e dizendo que os homens não deveriam edificar uma cidade numa região onde ocorrem terremotos.

Sapsezian comenta a narrativa do Gênesis dizendo que as catástrofes naturais são explicadas ali a partir do fato de o homem ter comido do fruto de uma árvore do jardim do qual não deveria comer, e cujo dono, que era muito iracundo, dali o expulsou. Porém, observamos que o texto bíblico não diz que Deus era o dono do jardim, mas sim o Senhor da Criação, pois já no início do Gênesis se usam os termos Senhor e Senhor Deus (Almeida, Revista e Atualizada). O homem, portanto, desobedeceu ao Senhor, que o criou e lhe deu domínio sobre a criação, mas com limites que deveriam ser respeitados, e não a um jardineiro, que não seria capaz de criá-lo. E reduzir Deus a um jardineiro não seria estranho à lavra de Voltaire.

Sapsezian duvida da perfeição da Criação afirmada na narrativa do Gênesis, mencionando o Tsunami ocorrido no Japão e um grande terremoto que abalou sua terra natal, já marcada por tantas outras formas de sofrimento, negando a perfeição da Criação e, por consequência, do próprio Deus, pois, argumenta que se Ele fez tudo perfeito, por que ocorrem esses fenômenos? E também pergunta: onde estaria Deus quando isso ocorreu? Assume, portanto, o argumento cético de Voltaire.

Mas a Filosofia também tem outros argumentos a nos dar. Na Filosofia Antiga, basta lembrar que Platão afirmava a providência de Deus sobre a natureza e sobre a vida dos homens. Na obra O Pensamento de Platão (Braga: 1967), António Freire afirma: “Acima de tudo, o Deus de Platão é previdente. Não há, na teologia platónica, dogma proposto com mais clareza, nem definido com maior convicção” (p. 114). Nas Leis, Platão afirma que Deus “toma cuidado de todas as coisas e tudo dispôs para a conservação e perfeição do conjunto”. Na mesma obra ele também afirma que Deus é “o princípio, o meio e o fim de todas as coisas. É verdadeiramente a medida de tudo”. Apesar de não apresentar uma solução plenamente satisfatória para o problema do mal, Platão não o atribui, no entanto, a Deus, afirmando na República que “só a Deus se deve atribuir a causa do bem; para o mal, é preciso buscar outra causa, mas que não seja Deus”. (Op. cit., p. 114-115).

Na Filosofia Moderna, Leibniz afirma que “haveria algo a corrigir nas ações de Deus se fosse possível fazer melhor. Como nas matemáticas, quando não há máximo nem mínimo, em resumo, nada haveria a distinguir, tudo é feito de modo igual; ou quando aquilo não é possível, nada é feito: então, pode-se afirmar o mesmo com respeito à sabedoria divina (que não é menos ordenada que as matemáticas) que se não houvesse o melhor (optimum) entre todos os mundos possíveis, Deus não teria produzido”. (Teodiceia, Tese 8). O filósofo também afirma que “se o menor dos males que ocorre no mundo não ocorresse, não mais teríamos este mundo; que, nada se omitindo e tudo se considerando, foi tido o melhor pelo Criador que o escolheu”. (Idem, Tese 9). E ele já sabia que um fenômeno como o Tsunami tem consequências amplas, ao dizer: “O universo, qualquer que seja, é todo da mesma espécie, como um oceano: o menor movimento estende seus efeitos a qualquer distância, muito embora esses efeitos se tornem menos perceptíveis na proporção da distância”. (Idem).

Além disso, façamos agora um retorno à Teodiceia bíblica, isto é, à justificação de Deus nas Escrituras. Como seria salutar lembrar que em lugar de questionarmos a Deus, devemos observar que Isaías diz: “Ai daquele que contende com seu Criador! e não passa de um caco de barro entre outros cacos. Acaso dirá o barro ao que lhe dá forma: Que fazes? ou: A tua obra não tem alça?”. (Is: 45.9).

E naquela que foi definida pelo biblista, Dr. Ariel Finguerman, como “a obra prima sobre o sofrimento humano, o Livro de Jó, observamos que Deus se dirige a Jó, diante de suas dores, angústias e do próprio desejo de que o dia em que nasceu fosse riscado do calendário, mostrando que este fizera discursos humanamente sem sentido. Na verdade, observemos que Deus fez o caminho inverso, foi Ele quem se dirigiu a Jó e o arguiu: “Cinge, pois, os teus lombos como homem, pois eu te perguntarei, e tu me farás saber". Onde estavas tu, quando eu lancei os fundamentos da terra? Dize-mo, se tens entendimento”. (Jó 38:3-4) E depois de ter-lhe exposto longos juízos os quais Jó, como homem, poderia conhecer, posto que Deus lhe falava apelando à sua razão, Jó afirmou: “Sou indigno; que te responderia eu? Ponho a mão na minha boca”. (Jó 40:4-5).

Mas o Livro de Jó mostra ao leitor, desde o começo, que o homem que foi lembrado por Ezequiel como um modelo de piedade e de justiça (Ez 14:14, 20), e por Tiago como um modelo de paciência, desde o começo de suas provações afirmou: “Em tudo isso Jó não pecou, nem atribuiu a Deus falta alguma” (Jó 1:22) e também: “Temos recebido o bem de Deus, e não receberíamos também o mal? Em tudo isso não pecou Jó com os seus lábios” (Jó 2:10). E também no cap. 9 o autor do texto vai familiarizando o leitor com a soberania e a justiça de Deus, com seu poder irresistível, quando Jó afirma: “Na verdade sei que assim é: porque, como pode o homem ser justo para com Deus? Se quiser contender com ele, nem a uma de mil cousas poderá lhe responder... Quem o pode impedir? Quem lhe dirá: que fazes?”. (Jó 9: 2-3, 12).
E talvez seja relevante lembrar que Paulo, citando Isaías, pergunta: “Quem guiou o Espírito do Senhor? ou, como seu conselheiro, o ensinou?”, e também citando o Livro de Jó, que diz: “Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?”, conclui afirmando aos Romanos: “Porque dele e por meio dele e para ele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém”. (Rm 11:34-36, cf. Is 40:13 e Jó 41:11).

Certamente devemos mudar nossos paradigmas convencionais sobre Deus, mas em primeiro lugar, com um retorno às Escrituras, pois Jesus perguntou: “Não provém o vosso erro de não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus?”. (Mc 12:24).

Aos meus pais, Epaminondas e Rosa, que diariamente liam as Escrituras aos nossos corações.

Um comentário:

Daniel SCHLICKMANN disse...

Meu querido e eterno Professor!
Sempre que leio os seus textos, sempre que ouço os seus sermões ou as suas inúmeras aulas que tive o privilégio de participar fico me perguntando: Por que, do alto do púlbito padres e pastores não conseguem ir além de frazes feitas. Você, ao contrário, usa o questionamento da Filosofia para afirmar a Teologia. Por isso seu discurso toca tanto. Obrigado por suas sempre sábias palavras!!!