sábado, 20 de março de 2010

Hobbes e a Fé em Deus

Ao meu aluno Pedro Filho, grande incentivador deste blog. Que Deus o abençoe na bela Recife.

Hobbes afirma que o Reino de Deus não é civil e que “Deus na verdade reina lá onde suas leis são obedecidas não por medo aos homens, mas por medo a ele”. (De Cive, Parte III, Cap. XVI, 15, p. 304).

Mesmo que admitamos ser Hobbes, do ponto de vista da Ciência e da Filosofia Civil, um pensador cético, ele afirma que “há apenas um Deus” (De Cive, Cap. XVI, 18, p. 309).

Ele refuta o Panteísmo, reconhecendo Deus como causa do mundo, como se verifica nessa afirmação: “Dizer que o mundo é Deus é dizer que não há causa dele, isto é, que não existe Deus”. (Leviathan, Cap. XXXI, p. 215)

A respeito de suas próprias convicções é relevante a afirmação, feita na Encyclopaedia Britannica, de que ele nada afirmou que fosse contrário às confissões do Credo Niceno:

“...He maintened that since the abolition of the high court of commission there was no court of heresy to which he was amenable and that in any case nothing was be declared heresy but what was at variance with the Nicene creed, as the doctrine of Leviathan was not”.[1]

Mesma obra apresenta uma relevante síntese sobre o De Cive, enfatizando as teses de Hobbes sobre a interpretação da Escritura e as disputas religiosas e as formas do culto público:

“A Christian Church and a Christian State were one and the same body; of that body the sovereign is the head; the sovereign had therefore the right to interpret Scripture, to decide religious dispute and to determine the forma of public worship”. [2]

E prossegue, contextualizando a solução de Hobbes para o problema da paz civil, que era não só da Inglaterra, mas de outros Estados:

“Such, in brief, was Hobbes´s remedy for the sectarian controversies then disrupting the peace of so many European States”.[3]

Hobbes, portanto, escreveu não só em relação à política inglesa, sobre a qual, de acordo com Janine, ele faz “referências constantes, embora quase sempre implícitas”. [4] Como o principal, para o filósofo, é a preservação da vida e da paz, ele enuncia o princípio a seguir, o qual, apesar de suas divergências em relação a Aristóteles, está presente no gênio grego, ao afirmar que “... a ciência política deve ser, de todas, a primeira: porque ela diz respeito tão de perto aos príncipes, e a outros que têm por emprego o governar a humanidade...”.[5]

Ao final da Epistola Dedicatória do De Cive, ele escreve: “Que o Deus do céu coroe Vossa Senhoria com longa vida nesta estação mortal, e, na Jerusalém celestial, com uma coroa de glória” (p. 9-10). – Seria isso apenas uma formalidade, ou ele acreditava no que escrevia?

Ainda no De Cive, a obediência a Deus está em primeiro lugar, conforme o texto de Atos 5, 29 citado parcialmente por ele: “Então Pedro e os demais apóstolos afirmaram: Antes importa obedecer a Deus do que aos homens”. O que já fora dito antes, conforme Atos 4,19: “Mas Pedro e João lhes responderam: Julgai se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós outros do que a Deus”. E esses textos certamente servem de base a Hobbes para afirmar que o cidadão não deveria obedecer a ordens contrárias à salvação.

Na mesma obra, dirigindo-se contra as querelas dos teólogos e dos concílios, quer católicos, quer presbiterianos, luteranos ou outros, Hobbes afirma que “o propósito dos evangelistas prova que para a salvação é necessário apenas crer num só artigo – que Jesus é o Cristo” (p. 367). É possível que o texto de I Pd 1,9, que afirma: “... Obtendo o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas”, sirva de base a Hobbes para sua afirmação de que o artigo que basta para a salvação é o citado acima.

E considerando-se esse artigo essencial para a salvação eterna, a Igreja incorria em sérios erros em relação ao próprio Credo ao pretender dominar as consciências e o poder civil através do medo da danação e das diversas formas de controle. E como observa Renato Janine Ribeiro, muitas discussões e divisões, e mesmo guerras, eram feitas em torno de disputas teológicas que não dizem respeito ao essencial: a salvação.

E em relação ao conflito entre a obediência ao poder civil a obediência ao que é necessário para a salvação eterna, Hobbes afirma que o cidadão tanto recai em desobediência injusta ao príncipe, quanto pode desobedecer-lhe visando preservar a vida eterna, caso sua ordem seja contrária à salvação, confirmando, assim, a citação antes feita de atos, sobre importar mais obedecer a Deus que aos homens, afirmando: “Seria loucura de nossa parte não preferir morrer de morte natural, em vez de obedecer e morrer eternamente”. (p. 360).

Esse Hobbes nos parece mais um defensor do reino de Deus na consciência dos cidadãos que um defensor do deus mortal, o Leviatã, acima de quem está o Deus imortal.

[1] Encyclopaedia Britannica, Chicago: 1964, Vol. 11, p. 566. Autor do verbete: A. G. Wm (sic).
[2] Idem.
[3] Idem.
[4] Do Cidadão, p. XXIV da Apresentação de Renato Janine Ribeiro
[5] Idem, p. 12 do Prefácio do Autor ao Leitor

4 comentários:

Anônimo disse...

Ilustre Prof. Drndo. Isaar de Carvalho.

Boa Tarde!

Quanta bondade de vossa parte. Confesso que, me surpreendera sua dedicatória inicial no texto (Hobbes e a Fé em Deus - 20/03/10), em minha homenagem.
Afinal, quem sou eu? Apenas, um mísero discente do senhor, cujo ensinou-me inúmeras coisas, tanto no campo intelectual como humano.
Finalmente, só posso agradecê-lo mais uma vez, pela consideração e atenção. Boa semana entrante.

Receba meu protesto de elevada estima e consideração, Pedro Filho / Recife (PE).

Anônimo disse...

Olá, Professor!

Bom Domingo!

Tudo bem? Espero que sim. O que acontecendo sinto falta de novos textos. Aguardo seu retorno.

Fraternalmente, Pedro Filho (PE)

AILTON disse...

olá professor, sempre visito seu blog, e confesso tudo fica mais fácil quando lemos, parabéns pelo incentivo á educação, E ler sobre Hobbes sempre é bom....Parabéns...
Aílton Amorim - unifai 5.º sem

ProfºIsaar Soares de Carvalho disse...

Muito grato, Ailton, por suas palavras de incentivo. Vieram na hora certa. Deus´vela sobre a sua palavra para a cumprir, como disse a Jeremias. Abraço. Isaar.