segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O poder supremo de Deus e a soberania absoluta do Estado no pensamento de Hobbes
Ao Eber Cocarelli, amigo tão chegado quanto um irmão.

            Para tratar dessa tensão entre a onipotência de Deus e a soberania absoluta do Estado, se voltarmos nossos olhos para o Prefácio da obra Do Cidadão, veremos que ali se encontra previamente traçado o plano de trabalho de Hobbes, tanto do ponto de vista teórico quanto em relação à moral, à política e à vida civil. Eis a sua divisa: “Neste livro, verás sucintamente descritos os deveres dos homens, primeiro enquanto homens, depois enquanto súditos, e finalmente na qualidade de cristãos”. [1]
Por essa síntese verifica-se que ele parte dos direitos de natureza, os quais devem ser preservados pelo Estado. Enquanto criaturas de Deus, no entanto, conforme as Escrituras, o fim do homem é a vida eterna. A doutrina cristã precisa do reconhecimento do Estado para ser ensinada e a Igreja precisa do mesmo reconhecimento para cultuar a Deus, mas se o soberano civil ordenar algo contrário à salvação poderá ser desobedecido sem que tal desobediência seja considerada como uma injustiça.
Ao mesmo tempo em que afirma a existência de um deus mortal, deduzido da razão natural e construído artificialmente pelo homem, Hobbes submete as ideias a respeito do Deus imortal a esse grande homem. Na realidade, como o Estado é deduzido por natureza, reduzindo a religião ao não demonstrável, Hobbes a submete à autoridade civil.
            Nesse aspecto, observamos que Hobbes, que prometeu ao leitor buscar nas Escrituras argumentos para justificar a autoridade civil, ao fim nega a soberania das mesmas Escrituras, submetendo-as ao soberano, pois ao afirmar que a autoridade das Escrituras procede da pessoa soberana, ao mesmo tempo ele está limitando essa autoridade.
E Hobbes, de fato, reduz a religião a uma instituição que, para ser reconhecida juridicamente, deve subordinar-se ao Estado, e a Igreja só terá legitimidade enquanto pessoa se for reconhecida pelo Estado, e o homem não lhe estará sujeito a não ser como fiel, porém nunca enquanto cidadão. No Leviatã Hobbes se dedica a explicar o significado da palavra Igreja, primeiro de acordo com as Escrituras, depois apresentando a seguinte definição própria: “Defino uma Igreja como uma companhia de pessoas que professam a religião cristã, unidas na pessoa de um soberano, a cuja ordem devem reunir-se, e sem cuja autorização não devem reunir-se”.[2] 
Importantes distinções são feitas como consequência dessa definição, as quais eram necessárias em seu contexto. Em primeiro lugar, as Igrejas só podem reunir-se se forem autorizadas pelo soberano civil. Sendo assim, em segundo lugar, “não existe na terra qualquer Igreja universal a que todos os cristãos sejam obrigados a obedecer, pois não existe na terra um poder ao qual todos os outros Estados se encontrem sujeitos”, o   que significa que cada cristão deve sujeitar-se ao Estado do qual é membro. Em terceiro lugar, se a Igreja pudesse exercer as funções civis de “mandar, julgar, absolver, condenar ou praticar qualquer outro ato”, seria o mesmo que um Estado formado por cristãos. Em quarto lugar, “governo temporal e espiritual são apenas duas palavras trazidas ao mundo para levar os homens a se confundirem, enganando-se quanto a seu soberano legítimo”. Em quinto lugar, mesmo que o homem no futuro venha a ressuscitar e a ter um corpo espiritual, revestido da incorruptibilidade, isto é, eterno “nesta vida o único governo que existe, seja o do Estado seja o da religião, é o governo temporal”. Em sexto lugar, como a Igreja está sob a autoridade civil, “não é legítimo que qualquer súdito ensine doutrinas proibidas pelo governante do Estado e da religião”. Em sétimo lugar, este governante deve ser único, “caso contrário segue-se a facção e a guerra civil no país, entre a Igreja e o Estado, entre os espiritualistas e os temporalistas, entre a espada da justiça e o escudo da fé. E o que é mais ainda, no próprio coração de cada cristão, entre o cristão e o homem”. E finalmente, visando a unidade, deve haver apenas um chefe dos pastores, qual seja, o soberano civil, e isto, afirma Hobbes, “segundo a lei de natureza”.[3]
Assim, no Cap. XLII do Leviatã, intitulado “Do poder eclesiástico”, que por sinal é o mais extenso da obra, temos um complemento dessas definições, onde Hobbes esclarece, efetivamente, qual é a missão da Igreja, dizendo:

A missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi a de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada.  Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. [4]

A fé é uma questão particular, e caso algum rei se converta ao Cristianismo, isso não implica que todo o Estado deva tornar-se cristão também. Assim, a soberania do Estado é preservada, porém, Hobbes mantém que o Estado é aquele “Deus Mortal, ao qual devemos, abaixo do Deus Imortal, nossa paz e defesa”.[5] Apenas na terra ele não tem a quem temer, como afirma o filósofo mais adiante, explicando a metáfora inspirada no Livro de Jó:

Expus até aqui a natureza do homem..., juntamente com o grande poder de seu governante, ao qual comparei com o Leviatã, tirando essa comparação dos dois últimos versículos do capítulo 41 de Jó, onde Deus, após ter estabelecido o grande poder do Leviatã, lhe chamou Rei dos Soberbos. Não há nada na Terra, disse ele, que se lhe possa comparar. Ele é feito de maneira a nunca ter medo. Ele vê todas as coisas abaixo dele, e é o Rei de todos os Filhos da Soberba. Mas dado que é mortal, e sujeito à degenerescência, do mesmo modo que todas as outras criaturas terrenas, e dado que existe no céu (embora não na terra) algo de que ele deve ter medo...” [6]

Ao dizer que não existe na terra algo de que o Leviatã deva ter medo, obviamente Hobbes está falando do pretenso reinado universal do Papado, e do medo infundido por este na sociedade, bem como de qualquer indivíduo ou instituição que pretenda desobedecer ou sobrepor-se ao Estado.
 No decorrer da História observa-se que, enquanto na Igreja Primitiva se fazia um grande esforço diante da religião oficial judaica e do Estado persecutório, na Idade Média e na Idade Moderna, devido ao domínio da Igreja sobre a cultura e a política, houve uma longa luta da filosofia e da ciência contra a instituição eclesiástica, que era tão secular quanto outras, mas com o trunfo de ser representante de Deus na terra, sobrepondo-se, em nome dessa ideologia, ao Estado, à Filosofia, à Ciência e à liberdade moral. A Igreja, que no início não tinha expressão política, com o passar dos séculos tornou-se controladora das consciências. Chegou-se à situação dialética em que o Estado, de seu perseguidor, precisava libertar-se dela.
Hobbes teve um importante papel na elaboração de uma teoria que demonstra que sem o Estado não é possível existir a própria sociedade civil. Logo, a legitimação da religião também provém do próprio soberano. Não ao contrário, conforme já vimos ao citar o cap. XII, sobre as vantagens do poder eclesiástico ao coroar um soberano. Mas Hobbes não está tratando, em sua obra, primeiramente, da religião cristã, mas da soberania e, por consequência, da religião enquanto instituição que pretendia ser um Estado dentro do Estado, o que seria uma contradição lógica e ontológica.
É impressionante a tarefa de Hobbes, diante de uma cultura influenciada por uma leitura ideológica da Bíblia, que era o livro por excelência na Inglaterra do Séc. XVII: demonstrar que a paz é alcançada através da filosofia civil ou moral, não da instituição eclesiástica, que se dizia a guardiã das Sagradas Escrituras, justamente destas, que afirmam que Cristo é o Príncipe da Paz, e que seu Reino não é deste mundo.
Hobbes já questiona a própria noção de Cânon, afirmando que os livros considerados canônicos eram aqueles que a Igreja Anglicana, isto é, a Igreja submissa ao Estado, assim o decidisse. Acima do Papa estava o Soberano, portanto. Nada mais lógico, pois a instituição que garante a paz civil é o Estado, o que seria uma redundância, mas Hobbes resgata o sentido de Civitas (Estado) tanto na obra Do Cidadão quanto no Leviatã, pois isso era necessário em seu contexto.
Conforme já dissemos, para Hobbes a discórdia, em seu contexto, era provocada pela falta de ciência dos teólogos, e assim ele entendia que a finalidade da filosofia moral era o alcance da paz civil. Ele estabelece um contraste entre o mundo da discórdia das doutrinas da teologia e o mundo da paz da geometria, isto é, o modelo da filosofia civil e, por consequência, da paz, não era a disputa teológica, mas a filosofia moral, que levaria à conclusão de que sem a obediência a um poder comum, que colocasse a todos os homens em respeito, estes não tirariam prazer algum do convívio social, pois continuariam no estado de natureza, como afirma o filósofo no célebre cap. XIII do Leviatã.
Aloysius P. Martinich afirma que em Hobbes há uma tentativa de conciliação entre a visão da ciência moderna e a visão cristã predominante sobre o Estado.[7] Este, de acordo com Hobbes, subsume em si todas as instituições, principalmente a instituição eclesiástica, chegando mesmo a decidir sobre que é canônico ou não, bem como sobre as doutrinas a serem ensinadas, visando a paz, e assim, nada do que se opuser à paz civil deverá ser ensinado. Ainda que as doutrinas sejam verdadeiras, nada impedirá que sejam controladas, tendo em vista a paz. [8]
A rigor, em Hobbes, o Estado é leigo, pois é derivado da razão natural, não da revelação e nem da missão de Cristo, a qual, como vimos, se constitui na regeneração do homem. E como ele bem o diz:
O poder eclesiástico foi transmitido aos apóstolos por nosso Salvador, e... eles foram (a fim de melhor poderem exercer esse poder), imbuídos do Espírito Santo... Mas toda a disputa seria em vão, se se verificasse que não lhes foi deixado por nosso Salvador qualquer espécie de poder coercitivo, mas apenas o poder de proclamar o Reino de Cristo e de persuadir os homens a submeterem-se-lhe, e através de preceitos e bons conselhos ensinarem aos que se submeteram o que devem fazer para serem recebidos no Reino de Deus quando ele chegar, e que os apóstolos e outros ministros do Evangelho são apenas nossos professores e não nossos comandantes, e que seus preceitos não são leis, mas apenas salutares conselhos. [9]

             Ao falar de disputa, no trecho citado acima, Hobbes refere-se à discussão do Cardeal Belarmino sobre a natureza do poder papal: se este deveria ser monárquico, aristocrático ou democrático. Porém Belarmino, diz Hobbes em seu estilo irônico, parecia ignorar que “todas estas espécies de poder são soberanas e coercitivas”. [10]
            Quanto ao poder de Deus, no Cap. XV na obra Do Cidadão Hobbes afirma que ele é irresistível: “Em seu reino natural, o direito que Deus tem a reinar, e a punir os que infringem suas leis, provém exclusivamente de ser irresistível o seu poder”. [11]
            O filósofo argumenta sobre o poder de Deus referindo-se a Jó e à sua integridade e piedade, à reprovação de Deus aos amigos de Jó e afirmando que o sofrimento de Jó ocorreu, não com base no seu pecado, mas sim no poder de Deus: “Deus mesmo, por sua própria voz”, afirma Hobbes, “confirmou seu direito com argumentos que buscou, não no pecado de Jó, mas em seu poder divino”. [12] Hobbes também afirma que Deus rejeitou as queixas de Jó, “não o condenando por injustiça ou algum pecado, mas simplesmente manifestando seu próprio poder”.[13] E tal manifestação de seu sublime poder se deu através de sua própria voz, quando perguntou a Jó: “- Onde estavas tu, quando eu fundava a Terra?”. [14]
            Hobbes também argumenta sobre o ilimitado poder de Deus com base nos Salmos 97 e 99. O primeiro diz: “O Senhor reina; regozije-se a terra”. [15] O segundo, escrito pelo mesmo autor, diz: “O Senhor reina; tremam as nações; está assentado entre os querubins; comova-se a terra”. [16] Hobbes assim interpreta a afirmação de que Deus reina: “Deus é rei sobre toda a Terra, pouco importando que os homens o queiram ou não, e não deixará seu trono, ainda que alguém negue a sua existência ou providência”. [17]
            E em seu resgate do temor a Deus em lugar do temor ao Papado e às suas ameaças, ele afirma que “Deus na verdade reina lá onde suas leis são obedecidas não por medo aos homens, mas por medo a ele”. [18] Pois, continua, se os homens cumprissem a sua lei, não seria necessária a coerção do poder civil, mas, por não o fazerem, através de Moisés Deus prescreveu ordens religiosas e civis. [19] Ao mesmo tempo, porém, afirma que as leis de Deus são aquelas deduzidas da razão natural, conforme já afirmamos.
            Ainda em relação à autoridade civil em Israel, Hobbes enfatiza que antes da Monarquia os líderes civis eram os juízes, que carismaticamente comandavam o povo em batalhas e julgavam as suas questões, tendo vários deles também a vocação profética e sacerdotal, como Samuel. Hobbes afirma que “eles detinham a autoridade suprema, e, como profetas, interpretavam o verbo divino... e assim... esses dois poderes continuavam inseparáveis”.[20]
Isso pode ser visto, de forma clara, no caso de Samuel.  Eis, pois, no mesmo homem, o exercício da função civil e da função sacerdotal: 

E julgou Samuel todos os dias de sua vida a Israel. De ano em ano fazia uma volta... e julgava a Israel em todos os seus lugares. Porém voltava a Ramá, porque sua casa estava ali, onde julgava a Israel, e onde edificou um altar ao Senhor. [21]

            O poder monárquico em Israel foi pedido pelo povo ao juiz Samuel, tendo sido permitido por Deus, que reconfortou a Samuel diante da rejeição de seu comando pelo povo, dizendo que não era a este que o povo rejeitava, mas sim a Ele. Essa derivação do poder do povo merece destaque na argumentação de Hobbes, que afirma que “o direito pelo qual os reis governavam estava fundado na concessão mesma do povo”. [22]
Ao tratar da monarquia em Israel é importante na argumentação de Hobbes, também, a sua afirmação de que o povo deveria obedecer a seus príncipes em tudo o que dissesse respeito à vida civil, “exceto quando suas ordens contivessem alguma traição contra a Majestade Divina”. [23] Assim, ele mantém a soberania de Deus, o que fará também em relação ao seu contexto, mas esse tipo de desobediência diz respeito à consciência do fiel, não eliminando a soberania absoluta do Estado na esfera civil.
E do ponto de vista teórico ele reconhece, também, os limites naturais do Estado, afirmando no Leviatã que ele “é mortal, e sujeito à degenerescência, do mesmo modo que todas as outras criaturas terrenas” e que “existe no céu (embora não na terra) algo de que ele deve ter medo, e a cuja lei deve obedecer”.[24] Sendo assim, o poder supremo de Deus é reafirmado por Hobbes, mas seus representantes não podem sobrepor-se ao soberano civil, conforme temos dito, não por mera repetição ou refrão, mas por força da argumentação e da natureza do próprio discurso.
            Ainda em relação a Israel, Hobbes observa que, após o retorno do cativeiro na Babilônia, não havia um monarca, voltando o povo a ter uma liderança sacerdotal. De acordo com suas próprias palavras, “voltaram a estar unidos no sumo pontífice, após o cativeiro”, o que o tornaria frágil em relação à segurança face ao exterior.[25] Porém, mesmo que Israel fosse uma nação forte, de qualquer forma o braço de Alexandre Magno seria irresistível.
            Quanto ao temor devido a Deus, continua Hobbes, embora ele seja devido por quem exerce a soberania civil, ainda que uma ordem sua se oponha à Majestade divina Hobbes opõe-se à realização de pactos com Deus, considerando-os impossíveis, afirmando:

Homem algum pode firmar convenções com Deus, ou obrigar-se para com ele por meio de um voto, exceto na medida em que, conforme dizem as Sagradas Escrituras, Deus pôs em seu lugar certos homens, que, portanto, têm autoridade para aceitar tais votos em seu nome.[26]

            Tais pactos seriam em vão se não fossem reconhecidos pela autoridade civil, a qual, para Hobbes, é o lugar-tenente de Deus. O argumento dirige-se contra aqueles que, em seu tempo, alegando estabelecer um pacto com Deus, poderiam provocar a desobediência, a insurreição e assim ameaçavam a paz civil.
Da mesma forma, diz Hobbes, um homem no estado de natureza também faria pactos com Deus em vão, pois caso seu voto fosse contrário à lei de natureza, em nada o obrigaria. E se fosse algo já ordenado por essa lei, não seria voto, mas obrigação de natureza.
E como o voto só poderia ser feito em caso de “certíssima revelação de que é vontade de Deus”, aceitá-lo não seria obrigatório, pois não haveria lei que a isso o obrigasse, pois mesmo a revelação está sujeita ao poder civil, pois é desse que a religião recebe sua legitimidade e seu reconhecimento.
Posteriormente, Hobbes afirmará no Leviatã, que “é impossível fazer pactos com Deus, a não ser através da mediação daqueles a quem Deus falou, quer por meio da revelação sobrenatural, quer através dos lugares-tenentes que sob ele governam, e em seu nome”. [27].
A afirmação de que “é impossível fazer pactos com Deus” já está presente na obra Do Cidadão, e pode ser entendida, de acordo com Renato Janine Ribeiro, no seguinte contexto:

O rei e o arcebispo de Cantuária, William Laud, tentam impor à Igreja da Escócia, que é presbiteriana, a organização da Igreja Anglicana... Disso resulta uma Liga e Pacto Solenes, pelos quais os escoceses, desde a nobreza até a plebe, firmam uma convenção com Deus, para defender sua Igreja. Entende-se por aí como era atual Hobbes dizer, neste livro (Do Cidadão), que é impossível fazer um pacto com Deus. [28]

Para Hobbes, conforme citamos, só se fazem pactos com o lugar-tenente de Deus. No caso de Israel, este era Moisés, que passa a ser para Hobbes um modelo de soberano, pois revela a vontade de Deus ao povo e, ao mesmo tempo, tem o consentimento deste para governar e lhe prescrever uma lei. Assim, Israel era ao mesmo tempo um reino sacerdotal e civil.
           Na King James usam-se os termos covenant e kingdom of priests no texto do Êxodo que fala do pacto entre Deus e os filhos de Israel através de Moisés, como se observa abaixo:

Now therefore, if ye will obey my voice indeed, and keep my covenant, then ye shall be a peculiar treasure unto me above all people: for all the earth is mine: And ye shall be unto me a kingdom of priests, and an holy nation. These are the words which thou shalt speak unto the children of Israel. [29]

           O significado da aliança de Deus com Israel não é apenas teológico, mas também civil: através da aliança Deus se torna o soberano desse povo e lhe outorga leis que garantem a vida comum em segurança, acrescendo a isso a promessa de suas bênçãos aos obedientes. É uma lei típica de um reino sacerdotal, onde há deveres civis fundamentais, dos quais Espinosa afirma que aquele povo simples, inculto, vítima da escravidão, não teria dificuldade de entender, além de, de acordo com o pensador judeu, não serem mandamentos pesados, onde o mais simples e essencial deles era o de não matar.
Para Hobbes, como temos dito, o poder sacerdotal recebia sua legitimidade do poder civil, pois não poderia haver um soberano acima do soberano. Logo, mesmo no reino sacerdotal o soberano era o poder civil, pois, como diz Hobbes, Moisés, por ter o poder civil, foi quem ordenou Aarão ao sacerdócio. De Hobbes a grande luta, portanto, é contra o primado do Papado e dos presbiterianos sobre o Estado, pois isso chegaria à contradição de um Estado dentro do Estado.
Por sua natureza, o homem só cumpre os pactos pelo “medo das consequências de faltar à palavra dada”, ou pelo “orgulho de aparentar não precisar faltar a ela”. [30] Mas tal orgulho, de acordo com Hobbes, é raro entre a maior parte da humanidade, restando apenas a paixão do medo, que pode ser dirigida a dois objetos diferentes: a) o poder dos espíritos invisíveis; b) o poder dos homens após a constituição da sociedade civil. E apesar de o poder dos primeiros ser maior, geralmente o medo do poder dos homens é maior que o relativo aos citados espíritos invisíveis. A religião surge nos homens antes da sociedade civil e no citado Capítulo XIV do Leviatã Hobbes afirma simplesmente que “o medo dos primeiros (isto é, dos espíritos invisíveis) é, em cada homem, sua própria religião”. [31]
Porém, Hobbes reconhece a importância do temor a Deus para a consecução da paz civil, pois o medo de seu juízo e de sua vingança pode reforçar os pactos de paz estabelecidos entre os homens, antes da sociedade civil ou em situação de guerra, como se verifica na afirmação a seguir:

Antes da sociedade civil, ou em caso de interrupção desta pela guerra, não há nada que seja capaz de reforçar qualquer pacto de paz a que se tenha anuído, contra as tentações da avareza, da ambição, da concupiscência, ou outro desejo forte, a não ser o medo daquele poder invisível que todos veneram como Deus, e na qualidade de vingador de sua perfídia. [32]

E assim o temor a Deus poderia reforçar o pacto de paz e vencer as tentações (sic) da natureza humana, que deixada a si mesma levaria o homem a uma vida de “constante temor e perigo de morte violenta”, e a uma vida “solitária, pobre, sórdida, embrutecida e curta”.[33]



[1] Do Cidadão, op. cit., p. 11
[2] Leviatã, op. cit., Cap. XXXIX, p. 277
[3] Todas as citações deste parágrafo são do Cap. XXXIX do Leviatã, p. 277.
 [4] Leviatã, op. cit., Cap. XLII, p. 308
[5] Idem, Cap. XVII, p. 106
[6] Idem, Cap. XXVIII, p. 191
[7]A.P. Martinich: Hobbes. New York, Routledge, 2005(disponível em http://books.google.com.br).
[8] Cf. Leviatã, op. cit., Cap. XVIII, p. 109.
[9] Leviatã, op. cit., Cap. XLII, p. 293
[10] Idem, ibidem.
[11] Do Cidadão, op. cit., p. 266
[12] Idem, p. 268
[13] Idem.
[14] Jó 38:4
[15] Sl 97:1
[16] Sl 99:1
[17] Do Cidadão, op. cit., p. 264
[18] Idem, Cap. XVI, 15, p. 304
[19] Hobbes afirma que, depois da Lei ter sido dada a Moisés, era necessário que a repetissem, para que os mais velhos não a esquecessem e os mais novos a aprendessem, sendo o sábado dedicado à sua leitura e ensino.
[20] Do Cidadão, idem, p. 305.  Como dissemos, porém, no Livro de Juízes se afirma que “naquele tempo não havia rei em Israel e cada um fazia o que achava mais reto” (Jz 17:6 et alii).
[21] I Sm 7:15-17
[22] Do Cidadão, Cap. XVI, 16, p. 305
[23] Idem, p. 309.
[24] Leviatã, op. cit., p. 191.
[25] Do Cidadão, cap. XVI, 17
[26] Do Cidadão, Parte I, Cap. II, p. 52.
[27] Leviatã, op. cit., Cap. XIV, p. 83
[28] Renato Janine Ribeiro, Introdução à obra Do Cidadão, de sua tradução, 1992, p. XXIII e XXIV.
[29] Ex 19:5-6
[30] Leviatã, op. cit., Cap. XIV, p. 84
[31] Idem, ibidem.
[32] Idem, p. 85
[33] Os termos entre aspas são usados por Hobbes no Cap. XIII do Leviatã.

3 comentários:

Marco Funchal disse...

otimo artigo, estamos na nossa turma estudando Hobbes e o artigo oi de grande ajuda.

Anônimo disse...

Olá. Também estou estudando com os alunos assuntos sobre Relações Internacionais, e surgiram alguns tópicos referentes a interpretações hobbesianas, Realismo X Neoliberalismo.

Até mais.

ProfºIsaar Soares de Carvalho disse...

Sobre o termo Realismo, em Hobbes ele diz respeito à Monarquia. Em Maquiavel, à natureza das coisas na Política. O Neoliberalismo, nesse segundo sentido, pode ser interpretado como um sinônimo de Realismo, onde a crueldade não é nec. um princípio, mas pode ser um recurso pragmático, pois os fins justificam os meios, "se é que se pode falar mal do bem", como escreveu o florentino.