quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O CRITICISMO LITERÁRIO DE HOBBES

“O criticismo literário de Hobbes” [1]

Sobre a Bíblia, antes de qualquer consideração, é necessário observar que Hobbes é um homem de Ciência e, portanto, deduz a verdade da razão, dos sentidos e da experiência, considerando a razão natural um sinônimo da “palavra indubitável de Deus”, como ele afirma: “Não convém renunciar aos sentidos e à experiência, nem àquilo que é a palavra indubitável de Deus, nossa razão natural”. (Lev., XXXII, p. 221)
Seu criticismo literário está presente em sua contribuição para investigação da história da formação dos textos bíblicos. Em relação à data de redação dos textos, Hobbes enfatiza em primeiro lugar a afirmação de Gn 12:6:

“Atravessou Abrão a terra até Siquém, até o carvalho de Moré. Nesse tempo os cananeus habitavam essa terra”.

O que a tradução que ele usava,a King James, de 1611, assim dizia:

“And Abram passed through the land unto the place of Sichem, unto the plain of Moreh. And the Canaanite was then in the land”.[2]

De acordo com Martinich, Hobbes insiste no fato de que a afirmação de que os cananeus habitavam a terra era uma evidência da redação do texto “long time after the facts”.
Ainda sobre o Pentateuco, Hobbes afirma que Moisés "escreveu tudo o que aí se diz que escreveu”, isto é, aquelas afirmações do texto que dizem claramente que o patriarca escreveu são por Hobbes consideradas fidedignas. Eis os textos em que essas expressões aparecem:
Êx 17:14: “Então disse o Senhor a Moisés: Escreve isto para memória num livro, e repete-o a Josué...”.
Êx 24:3s: “Veio, pois, Moisés, e referiu ao povo todas as palavras do Senhor e todos os seus estatutos... Moisés escreveu todas as palavras do Senhor...”
Êx 34:28: “E escreveu nas tábuas as palavras da aliança, as dez palavras”. Essa narrativa se inicia com a afirmação de que teria sido Deus quem escrevera as segundas tábuas, porém conclui afirmando que foi Moisés quem o fez. E no texto tardio de Dt 10:4, afirma-se: “... Escreveu o Senhor nas tábuas...”. Os intérpretes atuais certamente teriam muito a discutir sobre isso, mas Hobbes diria, pela razão natural, que de fato foi Moisés quem escreveu.
Nm 33:2: “Escreveu Moisés as suas saídas, caminhada após caminhada...”
Dt 31:9: “Esta lei escreveu-a Moisés e a deu aos sacerdotes...”. Esse trecho confirma a tese de Hobbes sobre o reino sacerdotal de Israel, desenvolvida no De Cive de forma suficientemente sustentada.
Dt 31:22: “Moisés naquele mesmo dia escreveu este cântico”.
Dt 31:24: “Tendo Moisés acabado de escrever integralmente as palavras (ou: todas as palavras) desta lei num livro...”
Observe-se que em Josué também se encontra uma afirmação que mostra a interação e a continuidade entre o Pentateuco e este livro, bem como a amplitude do conceito de Livros da Lei, quando o texto diz: "Josué escreveu estas palavras no livro da lei de Deus". Sendo assim, Hobbes teria mais um argumento para corroborar sua tese de que Moisés não escreveu todo o Pentateuco, termo aplicável, certamente, não só aos cinco primeiros livros do Cânon, os quais não são, a rigor, necessariamente, os primeiros cronologicamente.
E ainda a respeito da data de redação dos textos bíblicos, Hobbes cita passagens dos Livros de Juízes e Rute que demonstram que os mesmos foram escritos muito tempo depois dos fatos narrados. Em relação ao Livro de Juízes, destacam-se os seguintes trechos que o confirmam:
Jz 1:21: “Os jebuseus habitam com os filhos de Benjamim em Jerusalém até ao dia de hoje”.
Jz 1,26: “E edificou uma cidade, e lhe chamou Luz; este é o seu nome até ao dia de hoje”
Jz 6:24: “Ainda até ao dia de hoje está o altar em Ofra".
Jz 10:4: “E tinham trinta cidades... até ao dia de hoje, as quais estão na terra de Gileade”.
Jz 15:19: “Daí chamar-se aquele lugar Em-hacoré até ao dia de hoje”.
Jz 17:6: “Naqueles dias não havia rei em Israel: cada qual fazia o que achava mais reto”. Afirmação que, ao mesmo tempo que confirma sua redação posterior, serviria como referência a Hobbes para justificar a necessidade do soberano civil diante do estado de natureza, no qual, não havendo lei, não havia injustiça, e de fato, cada um poderia fazer o que melhor lhe parecesse, conforme o célebre Cap. XIII do Leviathan.
Hobbes enfatiza a seguinte afirmação de Juízes 18:30 para confirmar sua tese de que o texto é posterior ao cativeiro babilônico:

“Os filhos de Dã levantaram para si aquela imagem de escultura; e Jônatas, filho de Gerson, o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até ao dia do cativeiro do povo”.

Esse trecho assim aparece na King James Version, e para Hobbes era relevante que essa era a tradução autorizada pelo soberano civil da Inglaterra:

“And the children of Dan set up the graven image: and Jonathan, the son of Gershom, the son of Manasseh, he and his sons were priests to the tribe of Dan until the day of the captivity of the land”.

Quanto ao Livro de Rute, é claro o caráter posterior da redação em relação aos fatos narrados logo em sua abertura, que afirma: “No tempo em que julgavam os juízes” (1:1).

A rigor, os Livros de Josué, Juízes e Rute integram uma narrativa sobre um período que tem ligações claras. O início de Juízes refere-se à morte de Josué e demonstra que Israel então se encontrava sem uma liderança definida, havendo mesmo a necessidade de se fazer uma consulta ao Senhor para saber quem subiria a lutar contra os cananeus (Jz 1:1).

Sobre as fontes utilizadas pelos autores das Escrituras, Hobbes observa que o próprio texto menciona várias delas, tais como: o Livro das Guerras do Senhor, mencionado em Nm 21:14; o Livro dos Justos, citado em Js 10:13 e em II Sm 1:18; o Livro das Crônicas de Natan e o Livro das Crônicas de Gade, citados em I Cr 29:29.

E os escritores também se serviram de outras fontes, citadas nos dois Livros de Reis e nos dois de Crônicas, com expressões como: “Quanto aos mais atos de Salomão, a tudo quanto fez, e à sua sabedoria, porventura não está escrito no Livro da história de Salomão?” (I Rs 11:41) e outros semelhantes, como em I Rs 14:19, que cita o Livro da História dos reis de Israel e em I Rs 14: 29, onde o autor se refere ao Livro da História dos reis de Judá. [3]
Os escritores também se serviam de cartas, como as mencionadas em II Sm 11, I Rs 21:11, e muitas outras, mencionadas tanto nos livros históricos quanto nos proféticos, bem como de documentos reais e da tradição oral.
Hobbes tinha conhecimento de que “Ezequiel, Daniel, Ageu e Zacarias profetizaram no cativeiro” e afirma que “todas as escrituras do Antigo testamento foram postas na forma que possuem após o regresso dos judeus do cativeiro em babilônia, e antes do tempo de Ptolomeu Filadelfo” (Leviathan, Cap., XXXIII, p. 228s). [4]
Hobbes reconhece, como o recomendava a Igreja Anglicana, que os livros apócrifos são “proveitosos para nossa instrução” e que, se em relação à forma final do Antigo Testamento eles merecem crédito, “as Escrituras foram postas na forma que as conhecemos por Esdras”. [5] Pelo que aqui dissemos de forma introdutória sobre o criticismo literário de Hobbes, portanto, o Tratado Teológico-Político de Espinosa não é, como pretendem alguns, a primeira obra a examinar a história da formação dos textos bíblicos. Hobbes publica o Leviathan em 1651, enquanto Espinosa publica o Tratado em 1670, o que não se deve esquecer.

[1] Essa expressão é tomada de empréstimo a A. P. Martinich, usada em seu A Hobbes Dictionary, p. 50 e seguintes. Ver também Leviathan, Caps. 32, 33 e outras observações de Hobbes na mesma obra sobre a história dos textos bíblicos.
[2] The Authorized King James Version (KJV) of 1611: http://www.jesus-is-lord.com/thebible.htm.
[3] Outras referências sobre o Livro da história dos reis de Israel: I Rs 15: 31, 16:5, 14 e 20; 22:39; II Rs 1:18; 10:34; 13:8 e 12; 14:15 e 28; 15:11 e 15 etc. E sobre o Livro da história dos reis de Judá: 15: 7 e 23; I Rs 22: 46; II Rs 8:23; 12:19; 14:18; 15:6 etc
[4] Ver detalhes em Leviathan, Cap. XXXIII, p. 228ss. Quanto ao Livro de Daniel, posteriormente a crítica bíblica demonstrou que parte de seu conteúdo é de caráter apocalíptico, mas de fato o livro descreve o sítio de Jerusalém por Nabucodonosor e fatos ocorridos na Babilônia durante o cativeiro que se seguiu.
[5] Nesse ponto ele cita II Ed 14: 21 e 22. Não só aí ele se serve de textos considerados apócrifos pelo Protestantismo, mas também no De Cive.

Um comentário:

mozartmorais disse...

Professor Gostei do seu blog, muita informação interessante, um abraço

Mozart